Wednesday, February 15, 2012

Interlocuções

E quando o céu se torna tenebrosamente nublado, tento recolher o maior número de imagens meio esquecidas. Por esse caminho, elas quase ganham voz, emergindo num diálogo que guardo em silêncio do que pode vir a ser fatídico.

Tuesday, February 14, 2012

Quando fecho os olhos

Em longa e exultada sequência de passos, vou avançando para um terreno de curvas e contracurvas. Numa fase de aproximação de incontrolável ímpeto, troco segredos e confidências, e dou e recebo afectos cedendo ao inevitável.

Sunday, February 12, 2012

Sopro

A vida é sopro suave.

João de Deus

Saturday, February 11, 2012

Abismo interior

Há um raio de sol que nem sempre nos aquece. Ao alcance de todos, escapa-se-nos, e regressa de igual modo enigmático para lá de todas as suas qualidades.

Friday, February 10, 2012

A esperança

(...) Estava para lá da desilusão. Era cada vez menos a mãe dele. Sentia-se condenada e não abençoada. A maternidade abençoava. Aquilo não. O rapaz limpou-se às mangas, tentou talvez abraçá-la, mas ela fugiu-lhe, e ele pensou que estava obrigado a conquistar tudo de novo. Tudo o que seria seu por natureza, e que a natureza se esforçara por lhe levar, ele teria de reconquistar. Era como encontrar modo de regressar a uma máe. Voltar ao interior que tudo imagina e renascer perdoado, um filho perfeito. Os filhos perdoados são outra vez perfeitos. Ficou com essa esperança.
Valter Hugo Mãe in O filho de mil homens - Alfaguara 2011

Wednesday, February 8, 2012

Expansão de horizontes

Tudo está lá. Nas imagens perfeitas, que nos esvaziam, e fazem perder o sentido da distância. Advinha-se muito mais do que se vê, dando lugar ao espaço abstracto atrás do qual se esconde no decurso dos dias.

Sunday, February 5, 2012

O lugar de silêncio

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder

Friday, February 3, 2012

Uma manhã

A manhã é um leque
branco
desdobrado até
aos quatro pontos cardiais

Sol branco
imperador fraterno
do azul muito ténue

Alberto de Lacerda in Átrio (1997)

Thursday, February 2, 2012

A estreiteza dos dias

Fevereiro, o mais curto mês e o menos cortês.

provérbio popular

Monday, January 30, 2012

Lugar surpreendente

Todos os anos, por esta altura, sou reconduzida ao mesmo espaço de magia. Quando, caindo na tentação de repetição, regresso ao local que, ultrapassa todas as expectativas, num percurso marcado pela subtileza e exuberante intangibilidade.

Sunday, January 29, 2012

Ao domingo




Para aconchegar o final das manhãs de domingo, nada melhor do que uma versão light de brunch, à sombra das buganvílias. À mesa, não falta o sumo de laranja natural, os ovos escalfados ou mexidos com cebolinho, o cesto com vários tipos de pão, e o mel da minha cunhada Patrícia, para degustar sem pressas.

Saturday, January 28, 2012

A incerteza dos dias


Num momento em que a austeridade tem um efeito devastador, e o presente compromete o futuro, falta criatividade a um país que, de dia para dia, parece diminuir. Porque a reestruturação da economia não se faz afundando-a, e sem qualquer visão de crescimento, dificilmente ultrapassaremos a crise. O que se esvaziou ao longo dos tempos, e poderia agora servir-nos para ao menos nos sustentar, esfumou-se num projecto europeu falhado sem soluções colectivas à vista.

Friday, January 27, 2012

O outro lado do tempo



As nuvens sobrevoaram os poemas. Os poemas desapareceram. Submersos no limbo. Ou ocultados por uma folha amarelecida, quase ao rés da terra, na floresta nocturna de repente incognoscível. Os poemas foram deslizando para o outro lado do tempo. Quem os escreveu deu-os por perdidos, dolorosamente ignorante da viagem secreta.

Os poemas desapareceram.

Contradizendo o abismo irremediável, os poemas emergiram na manhã seguinte. Cobertos de orvalho.

Alberto de Lacerda in O Pajem Formidável dos Indícios (Assírio Alvim
)

Thursday, January 26, 2012

Na solidão da noite


(…) E ele atravessa a rua, passando pelo tempo, de pedra em pedra, com um cigarro na mão para pedir lume ao cigarro alheio, que brilha no outro lado, ao cimo dos três degraus.
Vai ser assim: dá-me lume, por favor?, e o cigarro encostar-se-á ao seu, o lume passará de um para outro, de uma pessoa para outra pessoa, e então, no meio da eternidade deserta, será sim o dia de hoje.
Mas a noite é imensa, quer dizer: a noite do lugar e do tempo, a noite da nossa solidão — é imensa, e apenas um pequeno órgão vivo palpita algures, vibra rapidamente, e amortece-se, e desaparece.
Então, uma vez mais a noite se levanta de nós, e o que estremece é a carne, a nossa, cega e desamparada — mas fremente na sua cegueira e desamparo.
Sabes que estás só? — pergunta a carne à carne —, sabes que a noite se ergueu de ti, como se fosses o seu próprio e único talento, e que esse talento te cerca como uma atmosfera, o morto clima que transportas em ti, de um lado para outro, ao longo das pedras, ao longo de todos os
lugares do homem?
Ela sabe, ou pelo menos sabe que sabe.
E é demasiado.
Por isso, olha e espera.
E vê de novo a brasa que estremece na escuridão como uma planta que crescesse e florescesse na terra negra, ou um animal cujo calor abrisse uma brecha no tempo frio.
A carne embriaga-se com imprecisas metáforas de salvação — que salvação?! — com um movimento subterrâneo de analogias, e ele diz: vou pedir-lhe lume.


Herberto Helder in Apresentação do Rosto - editora ulisseia 1968

Monday, January 23, 2012

Despertar

(...)Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada!



Florbela Espanca in Vaidade

Saturday, January 21, 2012

Estado puro






A terra em Monchique é pedregosa, os arbustos enormes, e toda a demais vegetação é densa e exuberante. Particularmente notória é a transparência da água, e o misterioso contorno das rochas que, lhe imprimem uma infinita grandeza. A chegada a Fóia permite-me um outro fôlego, que elimina quaisquer palavras. Suspensa do topo, acima de qualquer compreensão, reflicto sobre o que realmente me é indispensável, ou terá utilidade futura, no final dum tempo, que ascende à redescoberta de outros horizontes.

Wednesday, January 18, 2012

Apelo


Como a nuvem,
a deslizar no infinito
a fazer-se e a desfazer-se
em outras formas,
tu não esperas por mim.

Guarda por um instante
a fantasia
segura as minhas mãos
e atende-me.

Maria Alexandre Dáskalos in Jardim das Delícias

Sunday, January 15, 2012

A debandada


Neste espaço sem espaço
a incógnita dos dias
de tons frios e sombrios
e luta contra o infortúnio
há quem transponha fronteiras
atravessando o tempo
lado a lado
sem deixar rasto

Thursday, January 12, 2012

A travessia


Na sequência dos dias que se combinam e entrecruzam, é o olhar que me guia pela esfericidade do mundo, entre reflexões e divagações gerais num exercício de liberdade plena.