
Que são um instante de voluptuosa brisa
Em que o tempo é a forma do desejo
E do sono das folhas e das águas.
Anjos, sim, de terra, que segredam
A argila dos nomes, o movimento azul
Do ar. Na sua companhia eu sou o vento
De acordo com a mitologia grega, Europa foi uma mulher deslumbrante que despertou os amores de Zeus, deus do Olimpo. Segundo Homero, na Ilíada, ela seria de ascendência fenícia. Conta a lenda que Zeus a vira quando passeava com algumas amigas na praia, e não resistindo aos seus encantos, decide ir ao seu encontro na forma de um touro branco, de porte majestoso, e odor a açafrão. Encorajada pela mansidão do animal, aventura-se a cavalgá-lo, quando este dobra os joelhos, e se deita a seus pés, ornando-o com as flores que consigo levava na altura. Em seguida avançam pelo mar adentro, rompendo as ondas, nadando até à ilha de Creta, quando o touro se transfigura de novo no esplenderoso Zeus, e onde junto a uma fonte, debaixo de plátanos, o casal se amou. Dessa união entre a jovem e o deus supremo, nasceram três filhos, Radamant, Sarpedonte, e Minos que um dia vem a subir ao trono da ilha. Durante toda a vida, o pai da jovem a procura em vão, e uma vez morta, é elevada por Zeus à categoria de divindade, e para todo o sempre transformada em constelação. Os sapatos são de Manolo Blahnick, e o guarda-roupa tende a seguir as últimas tendências da moda. Após 6 anos de episódios, o Sexo e a Cidade deu origem à longa-metragem com o mesmo nome. Inspirado numa crónica cor-de-rosa do Observer, o filme relata-nos a vida de 4 amigas - independentes, bem instaladas na vida, e sexualmente livres, a viver numa das cidades mais fantásticas do mundo! A série foi um êxito, e o romance está aí! Eu já fui ver.
A última etapa dos ciclos de leitura, proposta pela Biblioteca Municipal, teve lugar este fim-de-semana, com a presença do autor Gonçalo M. Tavares. Foram muitas as pessoas, que tal como eu, passo a passo foram seguindo este percurso, que contou com a participação do grupo de teatro A Gaveta, de Portimão, com pequenos excertos do livro do senhor Calvino, e com o apontamento criterioso do Professor Dr. Petra Petrov da Universidade do Algarve, que aliás veio tão generosamente a colaborar através de várias personagens, no decurso deste evento. «Aprender a rezar na Era da Técnica», vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura de 2007 – o maior prémio literário em língua portuguesa do Brasil, cujo exemplar nos tinha sido oferecido o mês passado, foi o livro analisado nesta sessão. O autor pretendeu trazer a primeiro plano o facto de hoje rezarmos tal e qual da mesma forma que há 2 mil anos atrás, quando tudo o resto parece ter mudado, como se as palavras mantivessem a mesma força, independentemente do que nos rodeia. De linguagem concisa, e leitura fácil, apesar de denso no modo de sentir, foram as expressões utilizadas pelo professor, de origem búlgara, que assinala ainda o tema do forte e do fraco, fortemente explorado, num livro, cujas personagens perversas, nos parecem querer provocar. Diferente dos livros lúdicos do Bairro, uma coisa é certa, numa sociedade demasiado estandardizada, desinteressante, e cinzenta Gonçalo M. Tavares marca a diferença através do absurdo, e das histórias mais bizarras, por vezes violentas, que de contrário, se calhar não nos chamariam tanto a atenção, despertando-nos a consciência, e exaltando-nos a coragem, nos dias em que ela tanto falta nos faz. Obrigada ao Gonçalo, e também à Dra. Paula Miguel, pelo óptimo trabalho desenvolvido em prol da cultura, e pelos momentos altos que proporcionou a todos quantos aceitaram participar.
O senhor Valéry não gostava da sua sombra, considerava-a a pior parte de si próprio. Deste modo, o senhor Valéry apenas saía de casa depois de estudar longamente o sol e verificar que não corria riscos de a sua sombra surgir.
Surgiu quase como uma causa nacional, e tornou-se contagiante. É assim de cada vez que Portugal entra em campo. Ninguém parece ficar-lhe indiferente, como se todos os subconscientes, sem excepção, vibrassem por vitórias, mais que assinaladas. Depois do desaire com a Suiça, a formação é outra, o relvado também, não chove, e até faz sol! E desta vez contamos com a presença do «jovem-maravilha». Favoritos? Pode ser…Li hoje algures, que um grupo de cientistas revelou ter descoberto um conjunto de 3 «super-terras», orbitando à volta dum sol, de dimensões ligeiramente mais pequenas que o nosso, sugerindo que muitos mais possam existir por aí. Ainda o mês passado, a sonda Phoenix, em missão não-tripulada da Nasa terá aterrado na região árctica de Marte, na expectativa de descobrir se por lá, afinal há ou não água gelada, ou se sequer alguma vez terá existido, visto alguns meteoritos terem cá vindo parar, suspeitando-se que possam eventualmente ter tido origem no planeta vermelho!? Nesta perspectiva não podemos excluir o facto de descendermos de marcianos, embora pessoalmente considere esta hipótese pouco provável. Afinal tudo não passa de especulações, e só talvez daqui a uns largos anos possamos descobrir ou não, o que estará por trás de tudo isto. Até lá, o braço articulado robótico da Phoenix continuará a escavar, confiando que as amostras recolhidas nos possam casualmente elucidar. Phoenix é a palavra grega para encarnado escuro, ou roxo – símbolo do renascimento. Surge-nos na mitologia grega como uma ave de rapina colorida, associada ao fogo, que após viver 500 anos, incendeia o seu próprio ninho, deixando-se consumir pelas chamas, para de novo renascer das cinzas - grande e poderosa, mais forte que a morte, e de carácter único e especial. Enquanto ela viver existirá eternamente esperança na humanidade.
Imagino paisagens como quem
Não, o meu não, que não passo dum comum mortal. Refiro-me ao dele, que se fosse vivo faria hoje 120 anos. Sim, esse mesmo que está a pensar. Qual deles exactamente? Todos. Desde Bernardo Soares, ou Álvaro de Campos ao poeta fingidor, e o resto dos heterónimos. Um pacato funcionário de escritório que sabe-se lá como, ou porquê, dá lugar às múltiplas personagens por todos mais que conhecidas, transformando-se tão-somente no verdadeiro génio. Como muitos outros foi um espírito inquieto, por vezes desassossegado até, e um solitário, com a particularidade de possuir uma multidão dentro de si. Dotado de uma extraordinária capacidade de inventar, e nos conseguir transmitir a sonoridade do dia a dia, com os sonhos, angústias, e desilusões que dele fazem parte. O seu mundo era o dos livros, cheio de ideias, projectos, e ambiciosos planos, necessitando compulsivamente de escrever. Há nele um apelo interior tal, que o chega a fazer sem parar, durante noites maiores a fio, e em pé! Entrar no seu universo é embarcar numa autêntica viagem cósmica, que desagua na modernidade da nossa língua!
Por um país de pedra e vento duroAs várias disciplinas artísticas da universidade sénior de Albufeira serviram de pretexto para uma nova exposição na Galeria Municipal. Foram vários os projectos apresentados, na incursão da pintura e artes plásticas, e ainda decorativas. Embora esta apresentação não me causasse a surpresa do ano passado, importa realçar, não tanto as técnicas, mas as ideias e a recriação, num momento de maturidade, quando cada um debruçado sobre si mesmo, procura inspiração nas suas melhores memórias, atingindo por vezes níveis de complexidade abstracta, que se tornam verdadeiros enigmas ao nosso olhar!?
Este ano, a escrava, da autoria da Zizi é a minha eleita – mais que um corpo sensual, cativou-me sobretudo pela intensidade do seu olhar, e pela figura humana que representa.
Agora que chegámos ao final de mais um ano lectivo, dedico esta poesia, em jeito de agradecimento, à minha professora de Filosofia Drª. Paula Serôdio:
Argentina aumenta o volume da televisão quando vem estender roupa na varanda. Ouvem-se cá fora os aplausos do público no estúdio, o fio ténue da voz dos que vão ao programa narrar as misérias dos seus quotidianos: uma rapariga que perdeu o pai e a mãe num desastre de automóvel, uma outra que esteve quase a suicidar-se por ser gorda e feia e lhe chamarem gorda e feia na escola, uma senhora que perdeu tudo e que agora pede ajuda para que lhe construam uma casa, uma mulher que foi violada pelo padrasto e nunca mais se endireitou na vida…
Papel preponderante - De inesgotável capacidade inventiva, o seu lado idealista conseguiu transpor-nos de um imobilizante vazio, para o esboçar de uma manifestação artística. Rompendo com o «annus horribillis», através de um processo criativo, muito ao jeito dela, ela lançou pontes com uma perna às costas, colocando em marcha um modelo pedagógico inovador, centrado no estudante, que não só fez subir ao palco, como totalmente o transfigurou, com a liberdade da sua escrita e coreografia, transmitindo-lhe uma noção de espectáculo, uma amplitude vocal, e um verdadeiro sentido de intimidade com o público. Confesso que nem sempre foi fácil trabalhar em equipa, com um grupo que de homogéneo nada tinha, mas, a sua avassaladora dinâmica veio certamente acrescentar-nos uma outra dimensão. Em nome do conjunto de jograis, um enorme obrigado à Zizi, que de uma forma tão apaixonada trouxe o sol às nossas vidas.
De há dias para cá que não tenho feito outra coisa, senão repetir, vezes sem conta, até à exaustão!? No carro, debaixo de água, no jacuzzi, em frente ao espelho do guarda-fato, pachorrentamente saboreando uma chávena de «earl grey», ou um tinto do Douro, de olhos fechados, sentindo na cara o tímido sol, no jardim, em suma, qualquer pausa nos meus atribulados dias, tem servido de cenário de aprendizagem, para o que se poderá converter no Momento da minha vida! Voilà! Pois eis que daqui a umas horas subirei ao palco, numa peça sobre identidades. E nada é mais globalizante hoje em dia do que uma boa identidade, sobretudo quando me calhou em rifa o V Império!? Sim, aquele velho sonho do Padre António Vieira, entre outros, de ajudar Portugal a recuperar a sua antiga grandeza, e glória! Inspirado em profecias bíblicas, ali o palco estaria representado pelo tempo, de ordem espiritual, emergindo como um projecto político-religioso, um pouco retórico até! Exceptuando um receio avassalador, de num qualquer bloqueamento total, ser engolida pelo medo, na presença de algumas centenas de pessoas, sinto-me calma, pois amanhã, ou me transformarei em objecto de escárnio, ou na verdadeira «Star»!
Escuto o silêncio das palavras. O seu silêncio
Ao longo de 3 encontros a academia Brahma Kumaris proporcionou-nos um breve curso de meditação raja yoga, com entrada livre, na Biblioteca Municipal. Para quem desconhece o conceito, não se trata efectivamente de uma religião, mas de um outro conhecimento, ou uma nova filosofia de vida, que não só tem a intenção de nos ajudar a redescobrir o eu, como potenciá-lo. Afinal, a forma como cada um de nós pensa, reflecte-se no relacionamento com os outros, tendo ainda um impacto tremendo sobre o nosso próprio corpo. Depois continuámos a focar-nos naquilo que somos, ou seja seres de luz, cuja luminosidade se projecta no centro das nossas testas, e nos dá qualidades natas, pacíficas, de valores eternos, e onde a negatividade não tem lugar. O silêncio torna-se então na consciência da alma, e a perfeição a nossa meta, e ao ligarmo-nos à fonte suprema, purificadora, benevolente, e repleta de paz e amor, somos como que transportados para uma outra dimensão, para além dos planetas, e do sol, convertendo-se esta numa experiência de eternidade, e autêntico júbilo espiritual. Tudo o que até aí nos poderia incomodar, e se teria instalado de prejudicial a nível da consciência, é destruído, e imediatamente substituído por virtudes, que nos convertem em almas elevadas, ou estrelas divinas, num universo de quietude, onde existimos para além do tempo. Foi um momento de procura, que nos fez olhar para dentro, e desenvolver uma postura mental diferente, alertando cada um dos presentes para o despertar de uma nova consciência. Om Shanti.
Dos olhos corre a água do Mondego

Ela ali estava, turistando seu corpo pela avenida. Sorriu: era quase tímida, timíuda. Baixou o rosto, ao peso da vergonha. Ela sabia que, a meus olhos continuava Tininha. A minha lembrança lavava-lhe a excessiva maquilhagem. E o rosto dela, despintado, indefeso, era sua maior nudez. Ficámo-nos olhando, trocando silêncio triste. Magoava-me a menina que nela teimava sob a máscara. Magoava-a a ela também. Talvez por isso tenha passado a mão sobre os lábios naturais. Afinal, não era ela que usava batôn. Era o batôn que a usava a ela. Em mais um ciclo de leitura, organizado pela Biblioteca Municipal, discutiu-se «água, cão, cavalo, cabeça», antes do derradeiro encontro com o autor – Gonçalo M. Tavares.
A oradora chegou-nos da Universidade de Faro, e embora a literatura não seja a sua área, a Adriana Nogueira é uma classicista, que tal como a própria diz se entusiasma com muitos outros saberes, contagiando-nos com um outro olhar sobre a obra. Indo por partes, continuámos a destacar uma escrita que não é tradicional, e que sai da coerência dos livros anteriores, continuando a surpreender-nos. Este é sem dúvida um livro de sentimentos muito fortes, e até violentos, que nos obriga a profundas reflexões sobre a realidade e a ficção, que por vezes tendem a confundir-se. No conjunto são curtas histórias, que quase se aproximam da poesia, pelo sentido conciso, e da capacidade de dizer muito em poucas palavras de Gonçalo M. Tavares, que para a próxima irá lá estar. A não perder.