Saturday, August 30, 2008

Prende-me

prende-me aos teus braços com fios de água
e cordéis da tarde de prata. esqueci os ferimentos
mais dolorosos, as noites de neblina quando o barco
rompia as águas do mar. agora quero que
me prendas aos teus braços até que sequem as
romãs e venha a chuva a água mais pura tocar
o rosto, rememos juntos pelo rio até à casa
mais branca das suas margens

vi já os melhores espíritos da minha geração
morrerem de orgulho e de fome vi já a tempestade
levar muitos corpos até ao mar
vi gerações inteiras morrer de orgulho

agora prende-me aos teus braços.

Friday, August 29, 2008

Proximidade e distância

No mito, Dafne é uma encantadora jovem que gosta de correr pelos bosques, caçando, porém, atrai a atenção do grande deus Apolo, que imediatamente se apaixona por ela. Este persegue-a, tentando convencer a linda ninfa a não fugir, no entanto ela não reage, tornando-se ainda mais aliciante. É como se existisse uma certa atracção em escapar à intimidade, não apenas para quem foge, mas também para quem persegue.
Quando Apolo parece estar prestes a apanhá-la, ela pede ajuda ao pai, Peneu – o deus do rio, e ouvida a sua prece, fora do alcance de Apolo gradualmente se vai metamorfoseando numa frondosa árvore, sublimação da natureza, que se ergue para o céu, ramificando os braços em direcção à pureza e transcendência. A resistência de Dafne - intocável, em segurança dentro da sua casca, e sem ligação ao mundo, surge-nos como a ressurreição da vida vulgar em poesia.
Quando Apolo finalmente a apanha, decide colher as folhas de louro – ramos dessa mesma árvore, que passam a representar uma espécie de celebração após a luta. A sua luxúria acaba por se realizar simbolicamente, em vez de fisicamente. Quanto a Dafne poderá ter escapado a Apolo optando pela fuga como forma de vida, mas não deixa de perder a sua liberdade, ao tornar-se num ser com raízes na terra, e sujeito ao seu clima. Oscilar entre estas duas reivindicações do coração pode por vezes ser um combate frustrante e infindável. Perseguir e fugir, ou ser sensual e casto acabam assim por ser contradições da própria vida.

Tuesday, August 26, 2008

Os pássaros/The birds

Ouve que estranhos pássaros de noite
Tenho defronte da janela:
Pássaros de gritos sobreagudos e selvagens
O peito cor de aurora, o bico roxo.
Falam-se de noite, trazem
Dos abismos da noite lenta e quieta
Palavras estridentes e cruéis.
Cravam no luar as suas garras
E a respiração do terror desce
Das suas asas pesadas

Hear what strange birds I have
In the night outside my window.
Birds with wild and shrill cries,
Dawn-coloured breasts and purple-red beaks,
They talk at night, they bring
Strident, cruel words
From the depths of the slow, still night,
They sink their claws into the moonlight,
And the breath of terror descends
From their heavy wings

Sophia de Mello Breyner Andresen
Translated by Richard Zenith

Sunday, August 24, 2008

À volta do ego

Eu não fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento.

Saturday, August 23, 2008

Ingenuidade/Naive

Foi aí pelos doze anos,
E era Verão: durante alguns dias
Cometeu a imprudência
De pensar que o Mundo
Poderia ser perfeito.

He was about twelve years old,
And it was summer: for a while
He was naïf enough
To think that the World
Could be perfect.

David Mourão-Ferreira

Friday, August 22, 2008

O peso do ouro/ The golden weight

Somos tão poucos, mas à distância tantos foram os que ontem o seguiram como a última esperança. E levado pela ambição e exigência própria dum super atleta, num espectacular triplo salto de mais de 17 metros, voou para o ouro, alcançando o pódio, numa competição digna de um campeão.
Os primeiros saltos da escola secundária serviram-lhe de impulso, desenvolvendo depois um árduo trabalho ao longo dos anos, quando ultrapassou adversários, sem nunca deixar de acreditar. Tal como Carlos Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro, Nelson Évora fica também para a História com o seu positivo desempenho. Que todos vibremos, com a próxima missão olímpica de Londres, já com 2012 em mente.


Nelson Evora won yesterday the first gold medal for the country, by edging his opponents in men's triple jump at the Beijing Olympic Games. His 17,67 metre result has made the top performance of all Portuguese athletes so far.

Thursday, August 21, 2008

Rumor/Murmur


Acorda-me
Um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
A querer voar.

A levantar do chão
Qualquer coisa que vive,
E é como um perdão
Que não tive.

Talvez nada.
Ou só um olhar
Que na tarde fechada
É ave.

Mas não pode voar.


Birds awaken me,
A rumour of light.
Perhaps it is the afternoon
Wishing to take flight.

Rising from the ground
Something that is living,
Just like the forgiveness
That I was never given.

Nothing in the room.
Or just a gaze
That in the sinking afternoon
Is a bird.

That cannot soar or blaze.

Eugénio de Andrade

Wednesday, August 20, 2008

O outro lado

Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a ninguém.

Mark Twain

Tuesday, August 19, 2008

Pela manhã


Monday, August 18, 2008

Everytime

Everytime we say goodbye, I die a little,

Everytime we say goodbye, I wonder why a little,

Why the Gods above me, who must be in the know.

Think so little of me, they allow you to go.

When you're near, there's such an air of spring about it,

I can hear a lark somewhere, begin to sing about it,

There's no love song finer, but how strange the change from major to minor,

Everytime we say goodbye.

Cole Porter

Saturday, August 16, 2008

Olhares indiscretos

«Com ambrósia, começa por apagar do seu corpo desejável todas as impurezas. Unta-o a seguir com um óleo gorduroso, divino e suave, cujo perfume é feito por ela; quando ela o agita no palácio de Zeus na entrada de Bronze, o seu aroma inunda a terra e o céu. Unta com ele o seu belo corpo, depois penteia os cabelos com as próprias mãos e entrança-o em tranças luzidias, que pendem, belas e divinas, do alto da sua fronte eterna»
Ilíada de Homero, XIV, 170-177 (sobre Hera)
«Após o que veste um vestido divino que Atena para ela havia feito e polido; juntando-lhe grande número de ornamentos. Com broches de oiro prende-o no colo. Cinge-se com um cinto de cem franjas. Nos lóbulos furados das suas orelhas enfia os brincos, de três gemas cada, grandes como amoras, de um brilho infinito. A cabeça, por fim, cobre-a a divina com um belíssimo véu, ainda por estrear, branco como o sol. Nos formosos pés, calça belas sandálias»
Ilíada de Homero, XIV, 178-186 (sobre Hera)

Friday, August 15, 2008

Wednesday, August 13, 2008

Nem grande nem inteligente

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país,
talvez nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Tuesday, August 12, 2008

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga

Monday, August 11, 2008

Poente

Como sempre, o vento
caiu ao fim da tarde, com a calma
branca dos muros; e as horas
estendiam-se pelo campo,
como os pássaros do poente.
Mas doíam-me as dúvidas
que trouxe deste dia; e
colei-as às flores de uma árvore,
para que delas nasçam
os frutos luminosos de amanhã.
De noite, quando me esquecer
da ondulação verde da terra,
ouvirei o silêncio - e nas suas palavras
contarei as sílabas mudas do amor,
enquanto o mundo não acorda.

Nuno Júice

Friday, August 8, 2008

Desígnios da Universalidade


Já 2500 anos antes de Cristo, que a cada quatro anos, centenas de atletas se reuniam para disputar um conjunto de modalidades desportivas. Ainda hoje os Jogos Olímpicos reflectem a disciplina de toda uma sociedade, mantendo a sua dimensão religiosa pela pacificação, tal como na civilização grega se promovia a amizade e a unidade helénica. Esta forma desportiva ritualista teve hoje dia 08-08-08 a sua cerimónia de abertura, na China, que através dos 29º Jogos Olímpicos de Verão projectam o país no futuro, quando os grandes atletas irão ficar na nossa memória colectiva para todo o sempre.

Tuesday, August 5, 2008

Brisa de Verão

«…… De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.»

António Ramos Rosa

Monday, August 4, 2008

Existências

Quem me lá levou foi uma amiga em comum. Surpreendi-a no seu recôndito recanto, entre o colorido de mil flores, e alguns dos seus animais de estimação. A saber as cadelas Diana, e Carlota, o coelho Nini, e a galinha Nandinha. Com isto espero não estar a cometer nenhuma inconfidência, pois afinal foi há pouco tempo que me aproximei da Mécia, a propósito do seu fantástico quadro «Outono no Canal». Fui em busca de mais obras-primas, mas surpreendentemente constatei, que apenas pinta há 2 anos, e é na salinha da máquina de costura que me deparo com os arcos de Faro, Lagoa, e Albufeira, executados a lápis de aguarela, quando se inicia. Por cima da lareira encontra-se o seu quadro das «Papoilas» em pastel seco, enquanto que a «Rosa» tem lugar de destaque no quarto, ambos de 2006. O ponto de cruz é também o seu forte, e já em 1998 o jeito lhe é reconhecido através duma menção honrosa, num concurso a que terá participado em Vila Nova de Gaia. Mas os seus talentos não ficam por aqui, e apesar de lhe notar uma certa reserva, inesperadamente prolonga-nos a tarde partilhando connosco um momento poético. Os sons, e as cadências despertam um passado adormecido amargurado, que em nada se parece já com o seu presente. Actualmente, os dias para a Mécia decorrem na tranquilidade da sua casa térrea, na companhia dos que lhe são mais fiéis, reproduzindo da sua marquise repleta de luz, uma a uma, as maravilhosas flores que a rodeiam.

No poema ficou o fogo mais secreto
O intenso fogo devorador das coisas
Que esteve sempre muito longe e muito perto

Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, August 2, 2008

Cantar o dia

De palavra em palavra
a noite sobe
os ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

Friday, August 1, 2008

Opções

Não vale a pena contar. Quem teve a sorte de viver, sabe do que falo; quem não viveu, não consegue sequer imaginar. Porque esse Sul que chegava a parecer irreal de tão belo, esse litoral alentejano e algarvio, não é hoje mais do que uma paisagem vergonhosamente prostituída. Sim, sim, eu sei: o desenvolvimento, o turismo, a balança comercial, os legítimos anseios das populações locais, essa extraordinária conquista de Abril que é o poder local. Eu sei, escusam de me dizer outra vez, porque eu já conheço de cor todas as razões e justificações. Não impede: prostituíram tudo, sacrificaram tudo ao dinheiro, à ganância e à construção civil. E não era preciso tanto nem tão horrível.
Podiam, de facto, ter escolhido ter menos turistas em vez de quererem albergar todos os selvagens da Europa, que nem sequer justificam em receitas os danos que em seu nome foram causados. Podiam ter construído com regras e planeamento e um mínimo de bom gosto. Podiam ter percebido que a qualidade de vida e a beleza daquelas terras garantiam trezentos anos de prosperidade, em vez de trinta de lucros a qualquer preço.
E todos os anos, por esta altura, percorrendo estas terras que guardo na memória como a mais incurável das feridas, faço-me a mesma pergunta: Porquê? Porquê tanta devastação, tanto horror, tanta construção, tanta estupidez? Tanto prédio estilo-Brandoa, tanto guindaste, tanto barulho de obras eternas, tanta rotunda, tanta 'escultura' do primo do cunhado do presidente da câmara, e sempre as mesmas estradas, os mesmos (isto é, nenhuns) lugares de estacionamento, os mesmos (isto é, nenhuns) espaços verdes?
Miguel Sousa Tavares

Wednesday, July 30, 2008

Pic-nic

Naquele “pic-nic” de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, indo o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde

Tuesday, July 29, 2008

Um pouco de si

Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso.

Sunday, July 27, 2008

Riqueza da palavra


De há 30 anos a esta parte, é sempre assim, durante o verão. Quem cá passa férias, e quem como eu tem o privilégio de residir no Algarve, vai até à Qta da Balaia, neste período de estio, ouvir a palavra de Deus, em pleno ar livre. Neste domingo tivemos a honra da visita do nosso cardeal patriarca – D. José da Cruz Policarpo, que tentando corrigir-nos a visão do Pai, nos apresentou um projecto, através do qual se glorifica o Filho. Só poderemos evocar o poder, e misericórdia de Deus, através da descoberta da centralidade de Jesus, com quem nos devemos identificar. Na parábola de hoje é realçada esta ideia, comparável a um tesouro escondido, que resistindo a tudo, nos acompanha na etapa definitiva das nossas vidas. Afinal ninguém o alcança, sem uma relação directa com Jesus - o rosto de Deus, e o caminho, que ao cruzar-se connosco nos transmite toda a sua bondade, e beleza.

Saturday, July 26, 2008

Resistência

A minha mente recusou-se a sucumbir aos males
E elevou-se invencível empregando as suas forças;
E esquecendo-me de mim próprio e da vida levada pelos ócios
Tomei com mãos desacostumadas a força do tempo
E afrontei tantos perigos, pela terra e pelo mar
Como estrelas há entre o firmamento visível e invisível.

Ovídio

Friday, July 25, 2008

Troca de Olhares/Eye Contact

Nunca me canso de ouvir, ou trautear «Com açúcar, com afecto, fiz teu doce predilecto…», que nas vozes de Nara Leão, e Chico Buarque, sempre me enlevaram o espírito. É daquelas melodias intemporais, que me fala para dentro, reinventando as magias do quotidiano, e valorizando sentimentos, num verdadeiro processo de renovação. Não deixem de ouvir.

I never get fed up of listening or humming «With sugar and affection, I’ve cooked your favourite desert …» that in the voices of the Brazilian singers Nara Leão, and Chico Buarque, always enlighten my spirit. It’s just one of those timeless melodies, that touches my heart, recreating our daily lives, and talking about feelings in a truly renovation process. Make sure you don’t miss it.

Thursday, July 24, 2008

A olho nu


O tempo de uma vida, mesmo que totalmente dedicado ao estudo do céu, não seria suficiente para a investigação de tão vasto tema […] Por isso, esse conhecimento terá de desenvolver-se ao longo de gerações sucessivas. Tempo virá em que os nossos descendentes se surpreenderão por não sabermos coisas que são tão óbvias para eles […] O nosso universo seria uma coisa insignificante se não houvesse sempre nele algo a ser investigado por todas as gerações que vão surgindo […] A natureza não revela os seus mistérios de uma só vez.

Séneca, Questões Naturais, livro 7, século I

Tuesday, July 22, 2008

Smart Parade


A transformação de carros Smart em obras de arte, partiu da iniciativa da CADin – instituição de solidariedade social, que ajuda a promover a integração de cerca de cem mil crianças portuguesas com perturbações no desenvolvimento, na nossa sociedade, de cuja equipa faz orgulhosamente parte a minha sobrinha Carolina. Vinte destas viaturas oferecidas pela Mercedes-Benz Portugal irão ser leiloadas no Casino Estoril, numa cerimónia com Jantar de Gala, a ter lugar no próximo dia 30 de Outubro, com o objectivo de angariar fundos. Até lá, tal como eu, delicie-se com todo este colorido no exterior do Algarve Shopping.

The conversion of Smart cars into works of art, came from CADin - institution of social solidarity, that helps promoting the integration of approximately one hundred thousand Portuguese children with disturbances in the development, and of whose team my niece Carolina is proudly part of. Twenty of these vehicles offered by Mercedes-Benz Portugal will be auctioned at the Casino Estoril, at a Gala Dinner to take place on the 30th of October, seeking to raise funds. Until then, delight yourselves with this entire colour outside the Algarve Shopping.

Monday, July 21, 2008

Rotina

Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu – um outro dia, e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.

Sunday, July 20, 2008

Inevitabilidade cósmica

Elevemo-nos acima desta triste Terra, e vejamos do alto se a natureza esgotou todas as suas riquezas e belezas, neste pequeno pedaço de pó. Deste modo, tal como os que viajaram por países longínquos, poderemos avaliar melhor o que entre nós foi feito, e atribuir a cada coisa o seu justo valor. Passaremos a admirar menos o que neste mundo se considera grande, e desprezaremos mesmo essas ninharias às quais a maioria dos homens se prende, quando soubermos que existe um grande número de Terras habitadas como a nossa, e como a nossa tão belas.

Friday, July 18, 2008

Great tasting bar-b-q!


A social gathering organised by Paul Buick from Kiss FM attracted around 40 people this evening. Time to enjoy ribs, sausage, chicken and burgers served with the best sauces and marinades. Above is the grilling action!

O Paul Buick da Kiss FM organizou um churrasco ao final de tarde, que atraíu cerca de 40 pessoas. As melhores carnes, acompanhadas dos melhores molhos e marinadas. Aqui fica o registo.

Incertezas

Tínhamos o céu, por cima de nós, constelado de estrelas e costumávamos deitar-nos de costas a olhar para elas e discutíamos se elas tinham sido feitas, ou tinham simplesmente aparecido.

Thursday, July 17, 2008

Nas Nuvens

Ela continua encantada, no seu recente papel de mãe. Após 4 meses, o Tomás já passa mais tempo acordado, fascina-se com as próprias mãos, e cada vez mais espertinho, leva os objectos à boca, já vai fixando o olhar, vira a cabecinha quando ouve a voz da mãe, e quase que aposto que até emite os seus próprios sons, quando pretende chamar a atenção. Também eu experimentei o mesmo, há alguns anos atrás. O desafio de lidar com o seu filho, através da rotina diária, desde a higiene, aos miminhos e cantigas de embalar, faz superar o cansaço e o stress, a qualquer mãe. Este vínculo de amor não se perde nunca, e a minha amiga Marta, a cerca de 600 km de distância, continua a viver em plena alegria e tranquilidade, a sua nova função maternal. Bem-haja!

Tuesday, July 15, 2008

Momento




Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.




Cecília Meireles


Monday, July 14, 2008

É como um rio

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.


Eugénio de Andrade

Saturday, July 12, 2008

Olhó passarinho


No mês passado apresentei os pais. Por estes dias eis que nascem 4 adoráveis passarinhos, no ninho junto à porta, de minha casa. Não pude deixar de me lembrar com alguma nostalgia dos «Ninhos» de Afonso Lopes Vieira, que toda a gente da minha geração certamente recordará do livro de leitura da 2ª, ou 3ª classe!?

Os passarinhos/Tão engraçados,/ Fazem os ninhos/Com mil cuidados.

São p’ra os filhinhos/Que estão p’ra ter/Que os passarinhos/Os vão fazer.

Nos bicos trazem/Coisas pequenas,/E os ninhos fazem/De musgo e penas.

Depois, lá têm/Os seus meninos,/Tão pequeninos/Ao pé da mãe.

Nunca se faça/Mal a um ninho,/À linda graça/De um passarinho!

Que nos lembremos/Sempre também/Do pai que temos,/Da nossa mãe!

Wednesday, July 9, 2008

Reverter realidades

Longe da barafunda, e do barulho contínuo, esta semana voltei lá, em busca de uma nova energia. Em união com a natureza, uma vez mais senti-me elevada, com a manifestação de beleza da serra de Monchique. Na companhia de amigos, experimentei uma relação mais íntima com o universo, longínquo, mas próximo, e aceitei mais esta dádiva, que me chegou do céu, sem horas marcadas, desfrutando apenas um passeio de pura magia. A ausência humana, o isolamento, e a serenidade propiciaram-me a contemplação, e o espírito de interioridade, reduzindo-me o stress, e devolvendo-me a paz perdida.

Tuesday, July 8, 2008

Chega e avisa

Nenhum igual àquele.

A hora no bolso do colete é furtiva,
a hora na parede da sala é calma,
a hora na incidência da luz é silenciosa.

Mas a hora no relógio da Matriz é grave
como a consciência.

E repete. Repete.

Impossível dormir, se não a escuto.
Ficar acordado, sem sua batida.
Existir, se ela emudece.

Cada hora é fixada no ar, na alma,
continua soando na surdez.
Onde não há mais ninguém, ela chega e avisa
varando o pedregal da noite.

Som para ser ouvido no longilonge
do tempo da vida.
Imenso
no pulso
este relógio vai comigo.



Carlos Drummond de Andrade

Saturday, July 5, 2008

Constrangimento


Para que uma só coisa
Vibre
Na sua presença nua
Para além da conjugação dos possíveis

É preciso que o silêncio a dispa
E o seu nome seja o seu próprio pudor


António Ramos Rosa

Friday, July 4, 2008

Inspiração musical

Nasce nas ruas do Rio de Janeiro, fora dos padrões tradicionais, acompanhada pelo violão. O ritmo é diferente, o estilo também, e revoluciona por completo a sonoridade de então. A batida, a cadência, e a tendência são outras, proporcionando-nos um novo fôlego para dançar. Popularizada por Tom Jobim, Vinícius de Moraes, e João Gilberto, a Bossa Nova é a história de toda uma geração inconformada, que canta o céu, o mar, e toda a beleza da mulher carioca. A garota de Ipanema, que na realidade existiu, é bem exemplo disso - samba com acordes de jazz, que alcançou os 4 cantos do mundo, e que ainda nos conquista, após 50 anos de a ouvirmos. Saboreemo-la então.

Thursday, July 3, 2008

Retrato interior

Para além das aparências, mantendo algum optimismo, ela está aí de novo, falando para o mundo, após um cativeiro de 6 longos anos. Afastada da realidade, o silêncio da selva, e a natureza espiritual ter-lhe-ão certamente permitido o reencontro com ela mesma. E eis que nos surge lúcida, num estado de alma positivo, sem estilhaços, sem rancor, sem tormentas, nem um lamento sequer. A experiência de vida deu-lhe a capacidade de chegar aos outros – um verdadeiro fenómeno de empatia, emergindo em manifestação de afecto, quando em tempos de mudança, a vida para ela volta outra vez a palpitar.

O resgatar de um sorriso

Tuesday, July 1, 2008

Acordar

Um dia, quando começa, parece igual aos
outros. A mesma luz que entra pela janela,
ruídos de obras e automóveis, vozes... Mas
o que nesse dia me falta é outra coisa: a tua
voz, a surpresa de cada instante que me dás,
uma luz diferente que não vem de fora, da
mesma rua e do mesmo céu, mas de dentro
de ti. Assim, o que faz a mudança do mundo
e das coisas não é o mundo nem as coisas:
somos nós, e a relação que nos prende um ao
outro - isso que, não sendo nada para fora
de nós, é tudo o que temos nesta vida.


Nuno Júdice

Monday, June 30, 2008

Janela

Janela rente ao mar e rente ao tempo
- Ó mãos poisadas sobre um Junho antigo -
De ano em ano de hora em hora
Caminho para a frente e cega me persigo

Quem me consolará do meu corpo sepultado?

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sunday, June 29, 2008

Padroeiro dos Pescadores

Antes de se tornar num dos doze discípulos de Cristo, Simão era pescador. Jesus mudou-lhe o nome para Petrus, que em latim significa «pedra». Pedro é considerado o "príncipe dos apóstolos", e com S. Paulo, funda a Igreja de Roma. Essa mudança de nome é significativa, Jesus deu mesmo a explicação, quando disse: "... Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; tudo que ligares na terra, será ligado nos céus; e tudo que desligares na terra será desligado nos céus". (Mt. 16, 18). Perseguido e condenado à morte, foi cruelmente açoitado, e crucificado em 64 d.C. No entanto pediu que o pregassem na cruz com a cabeça para baixo, porque se achava indigno de morrer como o divino Mestre. Assim morreu o primeiro Papa da Igreja Católica. No lugar do suplício foi mais tarde edificada a Basílica de São Pedro, onde se encontram os seus restos mortais. Na data de 29 de Junho é-lhe prestada homenagem, através de manifestações de religiosidade popular, um pouco por todo o lado no mundo.

Saturday, June 28, 2008

Existências


Anjos, existem anjos? Volúveis seres
Que são um instante de voluptuosa brisa
Em que o tempo é a forma do desejo
E do sono das folhas e das águas.
Anjos, sim, de terra, que segredam
A argila dos nomes, o movimento azul
Do ar. Na sua companhia eu sou o vento
E o meu hálito confunde-se com as suas vozes

Thursday, June 26, 2008

Constelação

De acordo com a mitologia grega, Europa foi uma mulher deslumbrante que despertou os amores de Zeus, deus do Olimpo. Segundo Homero, na Ilíada, ela seria de ascendência fenícia. Conta a lenda que Zeus a vira quando passeava com algumas amigas na praia, e não resistindo aos seus encantos, decide ir ao seu encontro na forma de um touro branco, de porte majestoso, e odor a açafrão. Encorajada pela mansidão do animal, aventura-se a cavalgá-lo, quando este dobra os joelhos, e se deita a seus pés, ornando-o com as flores que consigo levava na altura. Em seguida avançam pelo mar adentro, rompendo as ondas, nadando até à ilha de Creta, quando o touro se transfigura de novo no esplenderoso Zeus, e onde junto a uma fonte, debaixo de plátanos, o casal se amou. Dessa união entre a jovem e o deus supremo, nasceram três filhos, Radamant, Sarpedonte, e Minos que um dia vem a subir ao trono da ilha. Durante toda a vida, o pai da jovem a procura em vão, e uma vez morta, é elevada por Zeus à categoria de divindade, e para todo o sempre transformada em constelação.

Wednesday, June 25, 2008

Olhares

De cada vez que entro, ou saio de casa, não posso deixar de as contemplar. E este ano estão mais encantadoras que nunca, num vaso que tenho mesmo à porta. As hortênsias são plantas angiospérmicas da ordem das cornales, o que quer que tudo isto queira dizer. Aliás descobri que o seu nome científico é nem mais nem menos que «macrophylla hidrangeácea», o que se torna num palavrão difícil de pronunciar. Oriundas da Ásia Oriental, com folhas de bordo dentado, estas flores podem variar entre os tons rosados e os azuis. São sem dúvida uma das minhas preferidas, e das mais bonitas do mundo.

Tuesday, June 24, 2008

Amiga para a vida

Olhar pela saúde da Daisy é uma forma de retribuir todo o companheirismo dos já longos 13 anos da sua existência. Hoje foi dia de visitar a veterinária, para pesar, desparasitar, e vacinar! Vemo-la aqui, no consultório, com a Dra. Rita Lopes, em carinhosa pose!

Monday, June 23, 2008

Lifestyle

Os sapatos são de Manolo Blahnick, e o guarda-roupa tende a seguir as últimas tendências da moda. Após 6 anos de episódios, o Sexo e a Cidade deu origem à longa-metragem com o mesmo nome. Inspirado numa crónica cor-de-rosa do Observer, o filme relata-nos a vida de 4 amigas - independentes, bem instaladas na vida, e sexualmente livres, a viver numa das cidades mais fantásticas do mundo! A série foi um êxito, e o romance está aí! Eu já fui ver.

Saturday, June 21, 2008

Interpretações


A última etapa dos ciclos de leitura, proposta pela Biblioteca Municipal, teve lugar este fim-de-semana, com a presença do autor Gonçalo M. Tavares. Foram muitas as pessoas, que tal como eu, passo a passo foram seguindo este percurso, que contou com a participação do grupo de teatro A Gaveta, de Portimão, com pequenos excertos do livro do senhor Calvino, e com o apontamento criterioso do Professor Dr. Petra Petrov da Universidade do Algarve, que aliás veio tão generosamente a colaborar através de várias personagens, no decurso deste evento. «Aprender a rezar na Era da Técnica», vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura de 2007 – o maior prémio literário em língua portuguesa do Brasil, cujo exemplar nos tinha sido oferecido o mês passado, foi o livro analisado nesta sessão. O autor pretendeu trazer a primeiro plano o facto de hoje rezarmos tal e qual da mesma forma que há 2 mil anos atrás, quando tudo o resto parece ter mudado, como se as palavras mantivessem a mesma força, independentemente do que nos rodeia. De linguagem concisa, e leitura fácil, apesar de denso no modo de sentir, foram as expressões utilizadas pelo professor, de origem búlgara, que assinala ainda o tema do forte e do fraco, fortemente explorado, num livro, cujas personagens perversas, nos parecem querer provocar. Diferente dos livros lúdicos do Bairro, uma coisa é certa, numa sociedade demasiado estandardizada, desinteressante, e cinzenta Gonçalo M. Tavares marca a diferença através do absurdo, e das histórias mais bizarras, por vezes violentas, que de contrário, se calhar não nos chamariam tanto a atenção, despertando-nos a consciência, e exaltando-nos a coragem, nos dias em que ela tanto falta nos faz. Obrigada ao Gonçalo, e também à Dra. Paula Miguel, pelo óptimo trabalho desenvolvido em prol da cultura, e pelos momentos altos que proporcionou a todos quantos aceitaram participar.

Friday, June 20, 2008

A sombra

O senhor Valéry não gostava da sua sombra, considerava-a a pior parte de si próprio. Deste modo, o senhor Valéry apenas saía de casa depois de estudar longamente o sol e verificar que não corria riscos de a sua sombra surgir.
O senhor Valéry explicava:
- É uma mancha que por vezes se torna visível e anuncia a morte. E desenhava.
Por essa razão o senhor Valéry saía de casa quase sempre de noite, percorrendo, com uma pequena lanterna, as ruas não iluminadas.
Quando os habitantes da cidade se preparavam para jantar e pela janela viam uma pequena luz avançando a passo certo, já sabiam que ali andava o senhor Valéry; e, por vezes, pela simpatia que aquela pequena obsessão provocava, abriam a janela e cumprimentavam-no:
- Boa noite, senhor Valéry, boa noite.
Apesar do aspecto franzino do senhor Valéry, as pessoas sentiam-se mais seguras sabendo-o por ali, de noite, a percorrer as ruas com uma lanterna.
Gonçalo M. Tavares

Thursday, June 19, 2008

O que nos une

Surgiu quase como uma causa nacional, e tornou-se contagiante. É assim de cada vez que Portugal entra em campo. Ninguém parece ficar-lhe indiferente, como se todos os subconscientes, sem excepção, vibrassem por vitórias, mais que assinaladas. Depois do desaire com a Suiça, a formação é outra, o relvado também, não chove, e até faz sol! E desta vez contamos com a presença do «jovem-maravilha». Favoritos? Pode ser…