Sunday, January 23, 2011

Dentro do sonho

Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto

São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses

Aquelas aves que tinham
uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse

Sophia de Mello Breyner Andresen

Thursday, January 20, 2011

Em movimento

No decurso dos dias e semanas as diferenças na cor são perceptíveis. Aromatizados pelas flores, os campos irradiam de alegria! Em cada passeio, entre a luz e a sombra, é possível captar momentos de improviso proporcionados por um cenário de evasão, num errático jogo de sedução e magia. Da terra molhada brotam agora cachos de flores miudinhas de um colorido suave que, silenciosamente, desabrocham no tempo.

Saturday, January 15, 2011

Lisboa

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tuesday, January 11, 2011

Interagindo

O «Capricho» faz hoje três anos de vida, embalando-me os dias em cumplicidade com muita gente desconhecida. Entre o real e o virtual está a vontade de afirmação neste exercício de liberdade plena. Obrigada por ser nosso leitor/a, e continue desse lado na nossa companhia.

Thursday, January 6, 2011

Valores tradicionais


No dia em que se comemora a visita dos Reis Magos, a época de Natal chega ao seu termo. O vaso com terra, a árvore iluminada e as bolas coloridas, utilizadas para decorar as nossas casas, são cuidadosamente retiradas, até que daqui a um ano voltem a ser reutilizadas com grande expectativa. Encerra-se assim um ciclo de momentos solenes, em que as tradições estão associadas à união das famílias, e à promoção da paz em todo o mundo.

Wednesday, January 5, 2011

Uma árvore

Há uma árvore de gotas em todos os paraísos.
Com o rosto molhado,
eu posso ficar com o rosto molhado,
com os olhos grandes.
Neste lugar absoluto pelo sopro,
fervem as víboras de ouro aos nós
sobre as pedras enterradas. Leopardos
lambem-nos as mãos giratórias.
E eu abro a pedra para ver a água estremecendo.
A água embebeda-me.
Como nos corredores de uma casa brilha o ar,
brilha como entre os dedos.
- A minha vida é incalculável.

Herberto Helder

Monday, January 3, 2011

Nova etapa

A chuva traz-nos o despertar de um novo ciclo, quando a natureza abandona o estado de sonolência, e volta a entrar em acção. Os campos encontram-se, agora, coloridos entre o amarelo e o verde-limão. É o alecrim que lhes dá fragrância, e, a floração abundante resulta num surpreendente efeito de espontaneidade. Ao longo da muralha, mergulho na paisagem de uma verdade maior.

Sunday, January 2, 2011

Hábitos e sabores

Durante quatro dias, a freguesia de Paderne recuou no tempo, recriando acontecimentos que, sem dúvida marcaram a história da Idade Média. Em clima de encenação, as expectativas dos visitantes não saíram logradas, quando se tratou das vestes, e dos mais variados produtos e manjares, da dieta alimentar daquela época.

Saturday, January 1, 2011

Ao novo ano

Deixei-o a marinar de véspera. Hoje, só tive que o colocar no tabuleiro de ir ao forno, devidamente pré-aquecido, até que o pato ganhasse uma aparência dourada e estaladiça. De vez em quando espreitava, regando-o com o molho denso e adocicado do sumo de laranja. Às batatas assadas com casca, acrescentei-lhes um raminho de alecrim, colhido nas minhas incursões pelo campo. As couves-de-bruxelas foram salteadas em manteiga.
E, quanto ao vinho, a escolha recaiu num tinto do Douro (de entre todos o meu preferido), de final longo e intenso - a combinação perfeita para acompanhar o pato.
Que 2011 nos abra as melhores perspectivas!

Friday, December 31, 2010

Novo fôlego

Prevê-se difícil, mas não impossível. O novo ano apenas exige que congreguemos esforços. Num momento em que toda a estrutura está a ser abalada, que tenhamos a capacidade de nos modificarmos a nós próprios, para uma outra interpretação da realidade. Assim, não ignoremos a crise, mas não nos deixemos sucumbir, sem mais nem menos, por ela. E, porque as escolhas comportam renúncias, enfrentemos 2011 com alegria e sensibilidade, num percurso de inspiração para além de quaisquer dificuldades.

Thursday, December 30, 2010

Cores variadas

A aventura continua conduzida pelo Rico que, nos guia por entre caminhos de casas em ruínas, cercadas de verde a perder de vista. Ao longo de atalhos mais rectos, ou sinuosos, é sempre possível reparar nos arbustos com bagas coloridas que, nos alegram os dias apesar dos espinhos, ou no desalinho da vegetação descobrir, num canto esquecido, uma solitária flor amarela, ou uma rosa pendente, exalando um perfume em harmonia com o entardecer.

Tuesday, December 28, 2010

O nevoeiro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade - Os Sulcos da Sede

Monday, December 27, 2010

Magia indescritível

A série de passeios iniciados no Outono parece não ter fim. Agora, que tomei o gosto, sonho em conhecer todas as redondezas. E, sem dúvida que, a forma como recebemos as surpresas de cada instante, é o que mais encanto dá aos nossos dias. Repleta de cores, a beleza inédita da natureza, apresenta-me soluções de enorme profundidade e poesia.

Friday, December 24, 2010

Noite de solidariedade


A noite torna-se santa, quando o céu toca na Terra, ao de leve. O cântico é sublime. E, o gesto solidário afirma-se abraçando o mundo inteiro. É esta luz que brilha que, nos inspira e ilumina, como réstia de esperança.

Alegrem-se os céus e a terra,
cantemos com alegria,
que já nasceu o menino,
filho da Virgem Maria.

Wednesday, December 22, 2010

Uma festa de cores

Os enfeites, as bolas coloridas, e as velas, fazem parte da festividade do Natal, tal como as pequenas figuras de barro que, recriam o nascimento de Cristo e celebram a vida. Cartões de amigos, com mensagens de esperança dos quatro cantos do mundo, distribuem-se por cima da lareira, e, no topo do pinheiro encontra-se a estrela dourada e brilhante que nos irá guiar ao longo do novo ano que se aproxima.

Tuesday, December 21, 2010

Desabitado

Tem início no solstício quando o dia é o mais curto do ano. Em estreito contacto com a natureza, a chuva miudinha cai de modo insistente, e árvores despidas ocupam o centro de vastas extensões de verde que, tingem a paisagem de melancolia. Esquecidas de si, ali pousam como figuras sem peso na transição de um tempo em que até os pássaros migraram em busca de regiões mais quentes.