Saturday, June 27, 2009
Noite literária
Friday, June 26, 2009
Rotação máxima
Thursday, June 25, 2009
Temática do amor
Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Camões
Monday, June 22, 2009
Zona tórrida
Do alto da serra, rio acima, ou à beira mar, o Verão com as suas noites longas, definitivamente nos traz um outro atractivo. Em momentos de verdadeira rêverie, que se repetem de forma excessiva e incontrolável, sinto-me projectar para cenários mágicos, de cores quentes e arrojadas, encimados por um céu sobrevoado de gaivotas. Sem pestanejar, aproprio-me de todas e quaisquer paisagens, onde os meus olhos sonham em espaços sem fim. Às vezes, parecem até prolongar-se no tempo, com um especial sabor a eternidade, intensificados por uma paz absoluta, em plena oposição ao frio.A paixão nua e cega dos estios
Atravessou a minha vida como rios
Sophia de Mello Breyner Andresen
Friday, June 19, 2009
A duas vozes
A facilidade com que os papéis se trocam, quando as circunstâncias externas mudam, é não só expectável, como faz parte da encenação do dia a dia de todos nós. Não fora os sinais inquietantes, e o tempo curto, a lógica discursiva manter-se-ia a mesma. Assim, sem mais demoras, a duplicidade parece melhor ajustar-se à realidade, embora estruturalmente não haja qualquer mudança. Um e outro imiscuindo-se reflectem as mesmas posições, compartilhando uma admiração mútua, que, ao alterar o tom, apenas pode trazer um pouco mais de consistência a uma nova postura. Entre o passado e o presente é claramente visível não existir qualquer diferença de natureza, porque ambos são faces da mesma moeda. O que é radicalmente diferente, ou pode parecer convincente, apenas serve para retirar argumentos de confronto, numa tentativa de reconquista, através de um derradeiro sopro. Saturday, June 13, 2009
One more
A Quinta do Casalinho foi uma vez mais palco de animada festa, onde não faltaram momentos de verdadeira descontracção e alegria. Neste caso para celebrar o meu próprio aniversário. Gostaria de agradecer aos presentes, e aos ausentes que impossibilitados de se nos juntar, connosco estiveram em sintonia de energia. Resta-me agradecer do fundo do coração à Lurdes e ao Mário a simpatia com que nos receberam, e abriram as portas da sua acolhedora casa.
Friday, June 12, 2009
Geminianas de gema
Wednesday, June 10, 2009
Figura maior
Tentar decifrá-lo através das várias vidas que criou, leva-nos a uma reflexão profunda. Praticamente indefinível, numa tentativa de o descodificar, a sua grande paixão pela literatura será talvez a única certeza. De espírito inquieto, e insatisfeito, sem sair de casa atravessa todo um inesgotável cosmos, muito para além do que possamos imaginar. Partir numa viagem à descoberta da sua identidade é um desafio constante por todo o mistério que a envolve. Fingidor, porque poeta, enigmático, pela capacidade criativa de se desdobrar, cada um dos seus companheiros existenciais são as referências que em vão procuramos, e tanto nos confundem, ao mesmo tempo que confirmam todo o seu prestígio. Além disso, reforça o papel da língua numa expressão superior, acrescentando-lhe uma outra dimensão.A minha pátria é a língua portuguesa
Fernando Pessoa
Thursday, June 4, 2009
Tomar-lhe o gosto
A lenda conta que para se encontrar amorosamente com Marte, Vénus terá utilizado o estratagema de servir a seu marido Vulcano um sublime caldo encorpado, (que muito mais tarde terá dado origem à bouillabaisse), com o intuito de o adormecer. Da Grécia antiga para a região mediterrânica, mais propriamente para a cidade portuária de Marseille foi um pulinho. Inicialmente preparada pelos pescadores, na praia, sobre fogueiras de lenha, trata-se de uma combinação de diferentes peixes brancos, ervas aromáticas, e especiarias, como pimenta do reino, noz moscada, açafrão e casca de laranja seca, enriquecida de lagostins, camarões, anéis de lulas, pequenos caranguejos, e lagosta, quando a bolsa assim o permite. Este típico prato da culinária francesa designado por alguns por sopa de ouro traduz-se por bouillir (ferver) e abaisser (reduzir), e é servido em tigelas fundas, sobre fatias torradas de pão duro da véspera, temperadas com um fio de azeite virgem. Claro que haverá mil e uma formas de combinar todos estes elementos, e certamente de os saborear, mas o que torna uma das mais famosas sopas do mundo tão especial, é exactamente a história que a envolve por trás da receita, além da autenticidade dos seus ingredientes, que lhe dão a cor e o aroma inconfundíveis. Tuesday, June 2, 2009
Monday, June 1, 2009
Pureza do mundo
São claras as crianças como candeias sem vento,seu coração quebra o mundo cegamente.
E eu fico a surpreendê-las, embebido no meu poema,
pelo terror dos dias, quando
em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param
junto à eternidade.
As crianças criam. São esses os espaços
onde nascem as suas árvores.
Enquanto as campânulas se purificam no cimo do fogo,
as crianças esmigalham-se.
Seu sangue evoca
a tristeza, tristeza, a tristeza
primordial.
- Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram
pelos séculos
entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes
e o olhar infinito de quem não possui alma.
Seu grito remonta ao verão. Inspira-as
a velocidade da terra.
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
- É-lhes dado o pequeno tempo de um sono
de onde saem
assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.
Dali a vida de um poema tira
por um lado apaixonamento; por outro,
purificação.
Nelas se festeja a imensidade
dos meses, a melancolia, a silenciosa
pureza do mundo.
Quem há-de pensar para as crianças, sem ter
espinhos nas vozes desertas
até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,
no seguimento da noite,
que as crianças aparecem com o horror
da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes
crianças vigiadoras –
cantando, pensando, dormindo loucamente.
Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.
As crianças invasoras percorrem
os nomes – enchem de uma fria
loucura inteligente
as raízes e as folhas da garganta.
Aprendemos com elas os corredores do ar,
a iluminação, o mistério
da carne. Partem depois, sangrentas,
inomináveis. Partem de noite
noite – extremas e únicas.
- E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
Loucamente
Herberto Helder – A Colher na Boca
Sunday, May 31, 2009
Festa Azul
Cresci assistindo a um sem número de jogos de futebol, e a ouvir relatos radiofónicos com Artur Agostinho, e Alves dos Santos, que ainda hoje me dão prazer escutar, tanto em viagem, ou mais recatadamente na cozinha, ao preparar uma refeição. No rescaldo das vitórias o Futebol Clube do Porto centrando-se nos seus objectivos acabou por confirmar a sua superioridade a nível nacional, pelo rigor, disciplina, trabalho, e estabilidade interna, que se traduziram em permanente liderança. Parabéns aos campeões.Saturday, May 30, 2009
Exercício de liberdade
A sua intenção foi criar um território, no qual sucessivas situações abrissem espaço a que o leitor partilhasse da sua construção. Desta forma o autor convida-nos a intervir, permitindo várias leituras de histórias que acabam por se cruzar. Como cenário temos a arquitectura duma cidade qualquer, com casas que ele atribui serem esqueletos de almas, e personagens representativas de corpos, ou não fosse o Sandro actor, encenador e director artístico. E porque somos vários homens, um a um estamos todos lá. E connosco estão não só os dejectos e o lixo urbano, mas também a náusea, a bílis verde, o sémen, o cuspo, o ranho, borbulhas e pontos negros, e muito sangue, sobretudo o que é morno, e deixa marca, que ao contrário das palavras não dá para apagar. O nojo puro está lá, ora nas costas duma mão, no rebordo duma cama, em quartos vazios, ou em acto de profanação. «O sagrado e o mundano, o crime e o maravilhoso, separados apenas por umas centenas de metros e umas quantas paredes rebocadas». E apesar de ser primavera, quase sempre a chuva cai, ininterruptamente como uma maldição, debaixo de um vento, que não se sabe bem donde vem, mas que conseguimos sentir, tal como tudo o resto. Propositadamente violento, por vezes até perturbador, apenas para nos provocar, também nos seduz quando «no meio do preto, por entre estrelas baças, o menino vislumbrou a lua. E a lua era para ele uma bolacha com recheio de baunilha. Suspensa de forma invisível e ainda inviolada. Bolacha gigante, cremosa e doce, regularmente trincada pelos seres e coisas que habitam o céu». O Caderno do Algoz da Caminho, da autoria de Sandro William Junqueira, a cuja apresentação tive o privilégio de assistir ontem à noite, é um livro que nos traz momentos surpreendentes, num processo criativo absolutamente genial. Thursday, May 28, 2009
Produtos e serviços
Tuesday, May 26, 2009
Produto final
Há dias chegou-me às mãos um e-mail com o seguinte teor:Numa pequena vila e estância balnear na costa sul de França nada de especial acontece. A crise sente-se. Toda a gente está carregada de dívidas e deve a toda a gente. Subitamente, um rico turista russo chega ao foyer do pequeno hotel local. Pede um quarto e coloca uma nota de 100 Euros sobre o balcão, pede uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspeccionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se lhe não agradar. O dono do hotel pega na nota de 100 Euros e corre ao fornecedor de carne a quem deve 100 Euros, o talhante pega no dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar 100 Euros que lhe devia há algum tempo. Este, por sua vez, corre ao criador de gado que lhe vendera os leitões e este por sua vez corre a entregar os 100 Euros a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os 100 Euros e corre ao hotel a quem devia 100 Euros pela utilização casual de quartos à hora para atender clientes. Neste momento o russo rico desce à recepção e informa o dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos 100 Euros. Recebe o dinheiro e sai. Não houve neste movimento de dinheiro qualquer lucro ou valor acrescentado. Contudo, todos liquidaram as suas dívidas e estes elementos da pequena vila costeira encaram agora com optimismo o futuro.
Toda a historieta com um final feliz, como este, nos propicia um sorriso. Mas, falando a sério, urge corrigir hábitos, tentando perceber qual a relação que temos com o dinheiro, conseguindo rentabilizá-lo passando das muitas teorias à prática. Desde despertar consciências, até criar outras rotinas, tudo vale para que as renovadas regras prevaleçam após a crise. Aproveitar os seus aspectos negativos para novas oportunidades, eis afinal o grande desafio do momento.
Saturday, May 23, 2009
Palavras desdobradas
Ontem à noite Manuel Ribeiro propôs-nos um outro modo de pensar, através do seu livro Dicionário da Desconstrução. Trabalhando as palavras como se de um jogo se tratasse, uma a uma vai desconstruindo o seu lado fonológico, reaparecendo com novas combinações, em estreita articulação com a pintura, da qual o próprio não se consegue demarcar. A sua faceta delicada e subtil reflecte-se mais do que nunca na sua afirmação pela arte.
Vai meu olhar para além de mim
e ultrapassa os tempos do Sol,
Vai meu olhar para além de mim,
vai onde Ícaro não conseguiu.
Vai meu olhar e leva-me contigo
conhecer
os sonhos que ainda não sonhei.
Manuel Ribeiro
Thursday, May 21, 2009
Visão positiva

Tuesday, May 19, 2009
Santuários de Arte
A propósito do dia mundial dos museus ontem celebrado, recordei as várias visitas que durante uma vida fui fazendo, não só aos museus nacionais, como também pelo mundo fora. Lembro-me como se fosse hoje dos primeiros que visitei ainda em criança, como o Museu de Arte Antiga, e o não menos famoso Museu dos Coches, que recentemente revisitei. Contudo, ao longo dos anos tive oportunidade de me deslocar a museus no Texas, Londres, Glasgow, Roma, e ao Museu do Vaticano. Através das suas antiguidades, riquíssimas colecções, e obras únicas, cada um deles representa o melhor de nós próprios, pois o que nos é dado observar não é mais senão uma síntese daquilo que temos sido através dos tempos. Locais de reflexão, e de pura emoção estética, os museus representam viagens, onde olhamos o mundo em toda a sua multicultural diversidade. Por todo o interesse histórico e artístico que despertam, visitá-los é sem dúvida uma atitude cultural, e uma dádiva a não perder, pois, ao preservarmos todo este património, não só nos encontramos a nós próprios, como passamos a entender um futuro, que sem saber quem somos, simplesmente não poderia existir.Aqui – como convém aos mortais –
Tudo é divino
E pintura embriaga mais
Que o próprio vinho
Museu de Sophia de Mello Breyner Andresen
Monday, May 18, 2009
Resgatando o passado
Donde vimos? E para onde vamos? Será que a morte é o desfecho final? Mantendo o espírito aberto participei este fim-de-semana num work shop, onde numa visão holística se tentou dar uma ideia da recolha de memórias, desta, ou de outras vidas anteriores, reconhecendo datas e locais, que nos permitem aceder directamente a todo um reservatório de informação armazenado no inconsciente. Assim, somos levados até onde necessário afim de alcançarmos a cura de um modo rápido e eficiente. A terapia de vidas passadas não faz mais senão recuar no tempo de uma forma consciente, eliminando obstáculos mentais, e ajudando-nos a libertar toda uma sobrecarga ancestral, que doravante nos tornará imunes a agressões exteriores. Ao recordar episódios obtemos uma nova perspectiva, dando à vida um outro significado que nos proporcionará bem-estar e paz interior. E, uma vez despertos para algo mais transcendente, e dotados de outra visão intemporal, livres do peso do passado, e de futuras preocupações, passamos unicamente a saborear o momento focados apenas no aqui e no agora.Sou eu, assimétrico, artesão, anterior
- na infância, no inferno.
Desarrumado num retrato em ouro todo aberto.
A luz apoia-se nos planos de ar e água sobrepostos,
e entre eles desenvolvem-se
as matérias.
Trabalho um nome, o meu nome, a dor do sangue,
defronte
da massa inóspita ou da massa
mansa de outros nomes.
Vinhos enxameados, copos, facas, frutos opacos, leves
nomes,
escrevem-nos os dedos ferozes no papel
pouco, próximo. Tudo se purifica: o mundo
e o seu vocabulário. No retrato e no rosto, nas idades em que,
gramatical, carnalmente, me reparto.
Desequilibro-me para o lado onde trabalha a morte.
O lado em como isto se cala.
Herberto Helder
Saturday, May 16, 2009
De braços abertos
Assinalando o cinquentenário de Cristo-Rei recriaram-se os mesmos gestos de 1959, quando à beira rio o monumento foi inaugurado. Réplica de Cristo Redentor, com apenas 10 metros a menos de altura, contou então com um peditório nacional, no qual recordo ter contribuído em criança com uma pedrinha, no seguimento de uma promessa de gratidão e reconhecimento feita pelo episcopado, por Portugal ter sido poupado à II Guerra Mundial. Tal como ontem, as celebrações de hoje tiveram a presença da imagem peregrina de Fátima, que percorreu as ruas de Lisboa, seguindo depois o trajecto num cortejo de embarcações até ao lado de cá do Tejo.