Friday, August 14, 2015
Thursday, August 13, 2015
Vento
"Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."
Wednesday, August 12, 2015
Reconhecer
O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a
existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os
dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos.
O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte
dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma tenção e uma
aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o
que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.
Italo Calvino in As Cidades Invisíveis
trad. José Colaço
Barreiros -Editorial Teorema, 2002
Tuesday, August 11, 2015
Plantado
Quanto mais longe
vou, mais perto fico
De ti, berço
infeliz onde nasci.
Tudo o que tenho,
o tenho aqui
Plantado.
O coração e os
pés, e as horas que vivi,
Ainda não sei se
livre ou condenado.
Miguel Torga in diário XII
Monday, August 10, 2015
Sunday, August 9, 2015
Wednesday, August 5, 2015
Tudo
O
voo sinuoso das aves
As
altas ondas do mar
A
calmaria do vento:
Tudo
Tudo
cabe dentro das palavras
E
o poeta que vê
Chora
lágrimas de tinta.
Ana
Hatherly (1929-2015)
Tuesday, August 4, 2015
Lento e alto
Algo se me assemelha
e me quer para si
quando menos espero
Distorção do espírito
para a morte
como o corpo num salto
irremediavelmente
lento
e
alto
Luiza Neto Jorge in Terra Imóvel - Poesia
Monday, August 3, 2015
Sunday, August 2, 2015
O mundo
Nesse verão nenhum de nós buscava terra firme
parecia-nos caminhar há séculos sobre as águas
Donde viemos nós? Como chegámos a esta luz
austríaca sobre as colinas
ao fumo lento no anfiteatro do golfo
à ordem aleatória do tempo?
Talvez nos caiba viver por cidades estranhas
em casas que esconderão sempre o seu medo
e a sua glória
sós diante dos céus
sem a certeza culminante
parecia-nos caminhar há séculos sobre as águas
Donde viemos nós? Como chegámos a esta luz
austríaca sobre as colinas
ao fumo lento no anfiteatro do golfo
à ordem aleatória do tempo?
Talvez nos caiba viver por cidades estranhas
em casas que esconderão sempre o seu medo
e a sua glória
sós diante dos céus
sem a certeza culminante
Vemos a tarde perder-se na direcção do molhe
o mundo é aquilo que nos separa do mundo
o mundo é aquilo que nos separa do mundo
José Tolentino de Mendonça in A Poesia em 2009 [de O Viajante sem Sono] - Assírio & Alvim Lisboa,
2010.
Saturday, August 1, 2015
Friday, July 31, 2015
Thursday, July 30, 2015
Quem diria?
Wednesday, July 29, 2015
Clube das Letras III
«A desejada noite deslizou envolta no repousante silêncio dos homens e dos insectos»
Alexandra Inês in Mel e Propólis
Monday, July 27, 2015
As vagas do mar
Que é que se muda em nós quando mudamos? De idade, de uma condição, às vezes mesmo de um local? Podem manter-se os mesmos valores, ideologia, relação com a vida. e todavia, aí mesmo, alguma coisa pode mudar. É a mudança que se opera no indizível de nós, onde mora a organização disso tudo, ou seja, o equilíbrio disso tudo. Os valores reordenam-se numa outra ordenação, num outro escalonamento, num modo diverso de os perspectivarmos. Os valores podem permanecer, mas não na face que era a sua ou o lugar que era o seu. E com isso em nós a porção de alma que lhes démos. Ou a aceleração do ritmo da nossa excitação. Não se entenderá assim que a mesma obra seja diferente como a arrumação diferente dos móveis de uma sala? Porque uma obra é o que é, mais o modo de a fazermos ser o que nela somos nós. Mas esse modo é o que ela é afinal. Que é que muda em nós quando mudamos? Uma forma diferente de sermos o mesmo. As vagas do mar. Um céu que se descobre. A pele que se enruga. O ângulo do olhar.
Vergílio Ferreira in pensar - bertrand editora - 2004
Sunday, July 26, 2015
Saturday, July 25, 2015
Friday, July 24, 2015
Sem fuga
Nunca ela pensou viver
esse momento ou sequer vir a transmiti-lo a quem quer que fosse. Mas, quando
aquela criança passou a partilhar o mesmo espaço que ela, ocasionalmente, este
parecia redimensionar-se num sentido muito mais amplo. Não sei se seria da transparência
do olhar, da sua voz doce ou da verdade absoluta das palavras que a cativavam e
remetiam, do fim para o princípio, quando um outro menino, em tudo igual a
este, lhe pertencia em exclusivo.
Wednesday, July 22, 2015
Sonho
Extravasou pro meu dia
Encheu minha
vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre.
Adélia Prado
Sunday, July 19, 2015
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