Thursday, February 28, 2008

Irresistíveis paladares

A culinária de New Orleans é das mais ricas dos Estados Unidos, e oferece como principais tipos de cozinha, o cajun e o crioulo. Embora às vezes se confundam, as suas diferenças residem basicamente nas suas origens distintas. Estas manifestações gastronómicas constituem uma das mais estimulantes cozinhas do mundo, profundamente ligadas à história e cultura dos povos que colonizaram as margens do Mississippi, alguns de passagem rumo ao golfo do México. A cajun foi introduzida por imigrantes franceses, e seus descendentes, que adaptaram os seus pratos preferidos usando ingredientes locais, desenvolvendo uma culinária de subsistência baseada nos recursos naturais. Os índios da região trouxeram também a sua contribuição através do milho, da caça e dos produtos dos pântanos locais. Os pratos tendem a ser à base de andouille (chouriço), pato, aves, porco, e camarão e lagostim-de-água-doce, bastante condimentados, e servidos com arroz. Uma das suas características é a preparação da refeição num único caldeirão preto, o chamado "one pot meal" onde toda a família, ou mesmo uma comunidade se servem. Desses caldeirões saem molhos picantes, fricassés, sopas de tartaruga, e uma infinidade de refogados de vegetais da região adicionados de enchidos.
A culinária crioula foi desenvolvida por franceses e espanhóis, descendentes da aristocracia europeia, que por não serem os primogénitos, não tinham direito à herança das terras de família no velho continente. Geralmente eram lavradores ricos, e a sua cozinha tinha grandes aspirações. Adoptavam receitas francesas e espanholas, e o aproveitamento dos ingredientes locais acabou por produzir uma nova cozinha. A posterior chegada de imigrantes alemães ao Louisiana acrescentou à já rica culinária emergente toda a tradição germânica da charcutaria. Há dois tipos: o haute Creole, e o low Creole. Os primeiros são pratos com molhos delicados aos quais é dada uma atenção especial à apresentação, já os segundos consistem de feijão encarnado e arroz, e tendem a confundir-se com os pratos cajun. De um modo geral a comida crioula pode ser classificada como picante, e a cajun como bastante condimentada. Nos dois casos são usados com frequência carne de tartaruga e jacaré, cebola, cebolinha, cravo-da-índia, pimenta-de-caiena, salsa e outros. Os frutos do mar, em particular ostras, camarão e lagostins, utilizam-se ainda de todas as formas, e em várias combinações imagináveis. Um dos pontos definitivos na sua caracterização foi a inclusão de ingredientes africanos, e indígenas na sua composição. O quiabo, originário de África, passou a ser um verdadeiro símbolo da culinária crioula, e o nome da sua mais famosa sopa - o "gumbo". A maneira tradicional de o engrossar é com o roux (que significa vermelho ou ruço) e consiste de farinha de trigo “queimada” em óleo. É fácil traçar um paralelo entre alguns pratos clássicos franceses e espanhóis, e aqueles da cozinha crioula. Assim, os gumbos guardam semelhanças com a bouillabaisse marselhesa, e as jambalayas lembram as paelhas, embora o seu nome derive dos pedacinhos de presunto (jambon), que integram obrigatoriamente a receita. A influência francesa ainda é muito nítida no sul do Louisiana, e em nenhum outro lugar dos Estados Unidos é possível tomar ao pequeno-almoço café com leite e croissants! O gastrónomo interessado tem muito com que se divertir na cidade que segue à risca um de seus lemas "laissez les bons temps roulez", ou "let the good times roll"!


foto tirada no restaurante Ralph & Kacoo's em Baton Rouge, La (www.ralphandkacoos.com)

Sunday, February 24, 2008

SINAIS DE VIDA

Atraída por ela, atravessei fronteiras, e fui até ao seu encontro, ao mesmo tempo que esquecendo as horas, me lancei à descoberta de um mundo mais vasto, por vezes em exercício comparativo. Em viagem, o meu olhar ganha outro fôlego, e alonga-se nas pequenas coisas, tornando-se sensível à sonoridade. De cada ocasião a visão é diferente, e serve para me reencontrar através de novas memórias. Por mais de uma vez me inclino sobre o Mississippi, consumindo o rio de águas turvas, até à ultima gota. De atenção redobrada, parto à descoberta de New Orleans, em toda a sua complexa teia, cuja sequência fotográfica já aqui deixei registada. Impossível não destacar o colorido, a presença da música sem tempo, e os aromas crioulos. São estas cores e imagens, que retenho como um turbilhão de emoções. Num momento de viragem, o ano é certamente de incertezas. Desenvolvem-se discursos de alternativa, e lá como cá, esboçam-se promessas, constroem-se ilusões, e o melhor actor em palco colecciona seguidores. A minha preferência vai para a adrenalina da competição, e qualquer previsão, neste momento, é puramente especulativa! Uma vez cumprido o sonho, e quando a linha do horizonte se começa a esbater, lentamente me vou retirando de cena. Além de guardar o máximo prazer das paisagens, e de realidades culturais diferentes, nalgumas das quais não me revejo nada, traço caminhos de volta a casa. O que ficou? Diferentes interpretações do mundo, partilha de muitos afectos, e um pedaço de mim, que lá deixei, em estreita ligação com ela.

Friday, February 22, 2008

All that Jazz!

Monday, January 28, 2008

Travessia oceânica

SmileyCentral.comAmanhã romperei o ciclo, através de um ponto de passagem absolutamente obrigatório. Às vezes é necessário olhar para outro tipo de realidade, e assim, por umas semanas vou deixar de ouvir falar na ASAE, na CMVM, no BCP, ou do País que se joga em Lisboa, quando o que estará em causa será somente o Poder. Mas o verdadeiro, porque aqui tudo não passa de uma brincadeira. Afinal o mundo é um palco, e tudo se resume a uma encenação. E eu irei espreitar bastidores, jogos de estratégia, e tácticas eleitorais, para sustentar uma opinião através de novas descobertas, de outras sensibilidades, e interpretações muito mais longínquas. Mas, separados por milhares de quilómetros, como que por magia, estarei arredada, embora aqui!? Hasta la vista!

Thursday, January 24, 2008

Prazeres da Serra

Sempre que posso refugio-me lá. Apenas sigo os caminhos que ali me levam, repletos de curvas e contracurvas ladeadas de árvores frondosas, cujos tons da folhagem castanha e laranja, tão bem se identificam com a paisagem de Outono. Alcanço o miradouro junto à água da nascente, límpida e cristalina, e em pleno coração de Monchique deixo-me deslumbrar pela magnitude da vista. Continuo a escalada até Fóia, onde a paisagem ampliada me faz sentir a olhar o mundo, e me corta a respiração. Ao descer a encosta observo o parque eólico, e uma vez mais aproveito a pausa para me deliciar com a gastronomia regional na «Rampa». A beleza envolvente, e o vinho alentejano retêm-me um pouco mais. O brilho do sol imprime-lhe reflexos violeta, e a sua textura marcante parece bem combinar com aquele perfeito final de tarde. Digo adeus à infatigável Paula, e prometo voltar muito em breve, um destes dias.

Sunday, January 20, 2008

O album

O nó

Tal como uma princesa saída dum conto de fadas, surge-nos passo a passo, fulgurante e esbelta. Pelo braço do pai avança ao encontro do noivo, que transborda de alegria difícil de conter. Ao som de notas melódicas parte-se da igreja para o copo d’ água, que se prolonga até ao final do dia, enquadrado num cenário natural, com Sintra a perder-se de vista. É o início de uma nova caminhada a dois, e o compromisso com o amanhã, quando a vida passa a ser dividida. Felizes para sempre? Porque não?! Basta a vontade de cada um, saber sempre colocar-se no lugar do outro. À minha sobrinha Carolina, e ao André, brindo a um futuro risonho e duradouro.

Wednesday, January 16, 2008

Refrescante

Fora de portas

Duas ou três vezes na semana desvio-me do labirinto do meu pensamento, assento os pés na terra, e estou lá, na linha da frente reivindicando o meu bem-estar. Uma vez equipada e preparada para actuar, começo por dar umas braçadas, que não só me ajudam a livrar do excesso de gordura na região abdominal, como me revitalizam a nível de empenho, alcançando metas com reflexos práticos. Dali, mergulho, e deixo-me massajar suave e relaxadamente pela água morna que borbulha – recurso medicinal utilizado desde a antiguidade. Ainda longe da agitação enclausuro-me numa atmosfera saturada de vapor de água, em plena semiescuridão, que me desobstrui os poros, pulmões, e vias respiratórias. Já antes de Cristo mercadores turcos recorriam às termas depois de atravessarem o deserto, fazendo nascer assim o banho turco que se espalhou pelas civilizações até aos nossos dias. Após este encontro com a própria, num mundo à parte, amigo do ambiente, moderno e minimalista sinto-me como que suspensa no tempo, revigorada para ir mais longe.

Sunday, January 13, 2008

Trajectória

Sonho alucinante

Separa-nos a imensidão do Atlântico, e nada mais. A tudo o resto estamos ligadas. Quando me levanto, ela ainda dorme, e quando adormeço, ela gira em roda-viva. Ainda que desencontradas há sempre algo que nos une, e que nos afasta também. Fecho os olhos e a sua imagem esbatida ganha contornos, quando a vida adquire novo sentido. É como se o mundo estivesse perto e longe, em simultâneo, e em permanente mutação. Visiono-a parada no tempo, correndo contra o mesmo, quebrando barreiras. Tacteio, e quase lhe alcanço os cabelos de oiro. Respiro fundo, e sinto-lhe a fragrância, como se fosse uma flor. Mas, varrida pelo vento, acabo por a perder entre os dedos. Resta-me o vazio da ausência, num universo findo de se esboroar. De um só fôlego, desperto do meu sono, perdendo toda a profundeza. Enfrentada a veracidade, torno-me incapaz de ultrapassar distâncias, sem que por um segundo o amor se esgote.
No outro dia, na praia, uma criança loira chamava pela mãe, e por escassos segundos, penso que é por mim que implora. Não, não pode ser. Os seus olhos não são claros, nem da cor do céu como os dela, e entretanto ela cresceu.

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, January 12, 2008

Friday, January 11, 2008

Pura magia

A viagem é iniciada cedo, quando a neblina ainda paira no ar. À medida que vamos avançando, o sol desperta, e o arvoredo prende-me o olhar, que se cruza com uma nova descoberta. Logo a seguir à passagem pela Ribeira, sou invadida por uma sensação de liberdade, ao contemplar a paisagem vasta, e o infinito do horizonte. Não há vento, e apenas uma leve brisa toma conta de mim, trazendo-me sossego, e tranquilidade. Tento esquecer as horas, e consumi-las vagarosamente, para não fugir à realidade que me envolve. Inclinadas sobre o rio, as vinhas das encostas não são mais do que um rasgo de emoção. Ao encontro das expectativas, o vinho da região demarcada anda por todas as bocas do mundo fora. Passamos por baixo de pontes, por pequenos aglomerados aqui e ali, pela barragem de Crestuma-Lever, por outros barcos, e outras gentes, que das margens nos acenam em sinal de paz. Só o pássaro que sobrevoa quebra o silêncio que nos fala mais alto. Um dia no Douro não me chega, e a memória e a nostalgia pedem-me para quanto antes lá voltar.