Friday, August 27, 2010

Banhada pelo rio

A importância do rio Arade tornou-a ponto de partida para o mediterrâneo, numa época de esplendor fabulosamente grande. No alto da colina, situa-se o castelo que em tempos a defendeu, contemplando a ponte com cinco arcos que, ninguém sabe se data da antiguidade romana, ou se é medieval. Silvesdas mais remotas raízes, reconhece no seu passado islâmico a mais valia de uma civilização atraída pela posição estratégica de então, perfumada pelas flores de laranjeira, e pela memória poética que canta o amor e a luxúria.

“O teu aroma tomou-me conta do olfacto
E o teu rosto lindo preencheu meus olhos:
És minha mesmo depois de me deixares
E só por isso me chamam poderoso.”

Al-Mutamid (poesia luso-árabe do século XI)

Monday, August 23, 2010

Imperfeições

«Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados.»

Herberto Helder
Photomaton & Vox
Assírio & Alvim, 1995

Saturday, August 21, 2010

Noite Brilhante

Em noite quente de Verão, Albufeira tornou-se palco de um grande concerto de música clássica com o apoio da Câmara Municipal. Em plena Praça dos Pescadores, com o mar a servir de inspiração, a escolha das músicas incluiu um conjunto de obras seleccionadas que contou com a exibição da Orquestra do Algarve e o envolvimento da soprano Eduarda Melo, que de uma forma ambígua demonstrou que apesar da aparente fragilidade, a sua voz possui toda a pujança do poder feminino, atraindo milhares de turistas e residentes. À dimensão visual do espectáculo contribuíram ainda os holofotes, os surpreendentes efeitos especiais de luzes, as projecções nos ecrãs, e o fogo de artifício numa produção absolutamente notável. Embarcando numa viagem de sonho, entre melodias e abstracções, difícil foi destrinçar o mundo da ilusão da realidade. Sem dúvida que o momento pertenceu aos sons ardentes, que nos ensinou a todos a ver e a ouvir melhor, numa iniciativa de excelência que já vai na sua 4ª edição.

Thursday, August 19, 2010

Praia

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ao Longe os Barcos de Flores

Wednesday, August 18, 2010

Momentos deliciosos

Fáceis de confeccionar, servem-se em copos, cones de baunilha, taças, ou em pauzinhos. Os ingredientes são naturais, e os sabores impossíveis de resistir, quer sejam crocantes, com pedaços de polpa, adicionados de natas ou chantilly, mesclados de baunilha, ou polvilhados de frutos secos, ou de aparas de chocolate guarnecidas com folhinhas de hortelã. Gelados, cremosos e coloridos, ajudam-nos a refrescar no Verão, até que se dissolvam.

Monday, August 16, 2010

À beira mar

Mesmo que não conheças nem o mês
nem o lugar caminha
para o mar pelo Verão

Ruy Belo

Sunday, August 15, 2010

Combinação de sabores

Enquanto almoço ou janto, na brisa tórrida do Verão, rectifico o tempero das refeições, com o toque delicado de ervas frescas, que uma a uma, vou colhendo dos meus vasos. Em tapas, baguetes, sanduíches, saladas ou pastas, salpico manjericão a gosto, utilizo folhas de poejo ou hortelã, pico coentros e cebolinho, ou simplesmente guarneço com salsa.
O seu teor calórico é baixo ou nulo, e com os ingredientes ali mesmo à mão, tiro partido da sua frescura saudável e acrescento um leve sabor, apenas com um mero raminho de tomilho fresco, que se revela a ligação ideal. Acompanhado de um vinho de qualidade refrescante, saboreio o entardecer, adicionando paladar, e um irresistível aroma às minhas criações culinárias!

Saturday, August 14, 2010

sambando

Friday, August 13, 2010

Ilusão

Lançamos o barco.
Sonhamos a viagem;
quem viaja é sempre o mar
.

Mia Couto

Thursday, August 12, 2010

Sobre o fundo azul

Apresenta-se brilhante, e carregado de expectativas. O silêncio é grave, e em noite de vigília, torno-me testemunha de um processo que, emergindo da noite poderá ser tão luminoso quanto fugaz. De olhos abertos, abro caminhos a olhar o céu povoado de estrelas, e o que poderá estar para além delas. Tento adiar o momento, encenando lances saídos da imaginação, que rodopiam com nitidez, sob a ameaça iminente da luz com a erupção do dia a qualquer instante.

Temos de possuir um caos no íntimo para dar à luz uma estrela dançarina.

Nietzsche

Friday, August 6, 2010

O mar

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Monday, August 2, 2010

À espera

Tudo começa quando oiço chamar pelo meu nome. Do lado de lá do muro, mãos estendidas fazem-me chegar um cesto de figos frescos, sedutoramente carnudos e sumarentos sobre folhas recortadas. «Acabados de colher», dizem-me. Agradeço, e penso que se ao menos ela já cá estivesse, teria com quem os repartir, ao mesmo tempo que, transportada pelo sonho a sua presença quase ganha visibilidade num encontro tão enigmático quanto fugaz. Mas, ainda falta um mês e meio para que ela chegue, quando um a um, vagarosamente me delicio com toda a sua doçura.

Saturday, July 31, 2010

Aniversariante


O Hotel Paraíso foi o espaço ideal para no passado dia 29, se assinalar mais um aniversário da Teresinha Barros, contando com a presença de amigos e familiares. Visivelmente feliz, a anfitriã contribuiu em grande parte para o colorido da festa, onde não faltou um pé de dança, e até alguns momentos mais emotivos ao sabor de um óptimo jantar.

Saturday, July 24, 2010

Em direcção ao mar

Passava eu naquela rua havia muito tempo.
Logo a seguir à colchoaria
vi uma sereia sentada no cabo da ilha.
A cauda de peixe brilhante deslizava em direcção
ao mar e
o corpo levemente inclinado apoiava-se no cotovelo.
Sorria, as pálpebras verdes/azuis, as unhas
escarlates gritavam
Era uma sereia real e luminosa.
.
Maria Alexandra Dáskalos

Tuesday, July 20, 2010

A olhar para trás

Acolhedoras e aconchegantes, abarcam toda uma vida. Tendem a elevar-se de baixo para cima, em lugares próprios, tornando-se no único refúgio nos domínios da memória. No meio das cidades, suburbanas, ou absortas na paisagem em estados de silêncio que não nos conduzem a coisa alguma. Por vezes, deixo-me captar pela simplicidade do seu traçado e, enredada no tempo evoco momentos de maior afeição. Sensível à sua beleza. Intacta. Intensamente real. E, tão carregada de memórias.

Thursday, July 15, 2010

A magia do entardecer

Há as que optam pela sombra, ou as que preferem a radiação solar intensa. É em vasos que as cultivo, ao lado umas das outras, no terraço em frente à relva densa. Descalça, pelo jardim, é no final dos dias quentes e ensolarados, que lhes retiro as folhas secas, e as rego utilizando um regador, não faltando cores, formas, perfumes, e as texturas mais suaves ao tacto, para me amenizarem os dias e garantirem flores o ano inteiro!

Tuesday, July 13, 2010

O Verão

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,
e a noite se faz barco,
e minha mão marinheiro
.

Eugénio de Andrade

Wednesday, July 7, 2010

Céu nocturno

Despeço-me do sol, e à medida que a noite avança, quanto azul e quanto céu! Entre a abstracção e o espaço, o que sobra do dia não passa de restos de uma visão. À escala real, o mundo expande-se no horizonte a um pequeno passo de ruir. O que não vejo, por estar encoberto, sucede à narrativa dos dias, quando o tempo persiste em trazer-me a alvorada duma nova claridade.

Tuesday, June 29, 2010

O percurso das aves

Moram num ninho à minha porta. O bater de asas, soa-me a uma música delicada, ponderada por pausas quase imperceptíveis. O canto é límpido, aberto e radioso. À luz do sol se autonomizam, em perseguição de outro lugar de temperaturas abrasivas. Os rituais mecanizados e a autenticidade dos gestos, ampliam-lhes a beleza, na rota inevitável em cumprimento de um destino. Anos após anos, apenas me visitam no meu mundo tão devastador quanto incompleto, quando os ventos lhes são mais favoráveis. E, no meu exercício de olhar, vejo-as ganhar uma veloz altitude, atravessando os céus para o misterioso silêncio. No espaço vazio, não passam de meros vislumbres isolados, semi-apagados numa sequência de sombras.

Saturday, June 26, 2010

Os diálogos

Integrado no programa de encerramento do 5º Ciclo de Leituras, a Cláudia e a Patrícia do Bica Teatro, permitiram uma leitura cómoda e eficaz de fragmentos de textos de várias obras de Lídia Jorge, com dramaturgia e encenação de Neto Portela. A construção das personagens tal como as imaginaram, e a expressividade e narrativa corporal intensas, serviram o propósito de traduzir sentimentos tão fortes quanto os da partida e da chegada, ou a intimidade dos seres naquilo que de mais silencioso possuem através do domínio do gesto, ou de pássaros de papel distribuídos pelo público no final.
Interpelada pela a assistência na segunda parte, a escritora fala-nos primeiramente do convívio com José Saramago, falecido recentemente, e da sua notoriedade, à qual acrescento a coragem de contrariar. Depois, revela-nos que ao contrário da maioria dos autores, não é disciplinada nem arrumada, e que até gere mal a sua vida, limitando-se a escrever no tempo que sobeja sob a inspiração dum quotidiano vasto. Sem cadeiras vazias, e sem vácuo, a reacção de todos só poderia ser surpreendente e calorosa. Parabéns à coordenadora deste projecto, Paula Miguel, que na hora de criar soube ganhar mais uma aposta.