Friday, June 13, 2014

Santo popular

Ó meu rico Santo António
És um santo popular
Na tua festa não falta
Sardinha para assar.

Santo António, Santo António
Que bonito que tu és
Vou-te comprar um manjerico
E vou pô-lo a teus pés.

Há festa em Portugal
São os santos populares
Da sardinha ao manjerico
Os cheiros andam pelos ares.

Em Junho todos bailam
Assim é a tradição
As ruas estão enfeitadas
Lá de cima até ao chão

De manjerico na mão
Uma quadra a namorar
E com arquinho e balão
Vamos todos a bailar.

Ó meu rico Santo António
Tu estás muito calado
Quando estás à minha beira
Fico todo envergonhado.

A treze temos Santo António
A vinte e quatro São João
A vinte e nove São Pedro
E recebemo-los com uma grande emoção.


quadras populares

Thursday, June 12, 2014

Sem conto


Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apertei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.


Fernando Pessoa in Cartas para Ophélia

Wednesday, June 11, 2014

A nova Primavera

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera


Ruy Belo in Aquele Grande Rio Eufrates

Tuesday, June 10, 2014

Quando as saias rodam





Ao som do acordeão e do telintar de ferrinhos o ritmo é ligeiro e apressado. Sete passos para a frente, seguidos de três para a direita e mais três para a esquerda, até ir de roda num impulso. Assim se perde o fôlego, no Algarve, e se mantém a tradição.

Monday, June 9, 2014

Revelação

Sempre que penso em ti estás a dançar levemente num clima de canela despenteada, ó aroma vagaroso, desordem aérea, mas a memória tem pressa, o sangue tem pressa interna, e antes de pensar tremo, e depois tremo, pelo meio desenvolve-se o pavor de uma beleza maiúscula, o coração corre entre iluminuras rápidas, é uma criança sucessiva nas pautas da musica, assim escrevo uma nação simultânea, desapareces na respiração do teu vestido, entretanto a revelação anuncia-se pelo medo, curvas-te como as aldeias devoradas pela lua, mais tarde sempre que penso em ti estás com um lenço escrito nas duas mãos, e a tua velocidade abranda junto aos espelhos, expandes-te assim lentamente gravada, és uma floresta de silêncios visíveis, sempre que penso penso sempre ao contrário do fim, estás cada vez mais no princípio de ti mesma, então vejo que nesse lugar é o meu começo eterno, quando danças é um corpo rodeando a brancura rodeada ou de novo qualquer coisa criminal entre o cuidado e o espaço, nas linhas puras da solidão arde a cabeça, arde o vento, atrás de ti as imagens assassinas da noite - estrelas: subversão da noite, sempre que penso em ti danço até à ressurreição do tempo.


Herberto Helder in Vocação Animal - Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1971

Sunday, June 8, 2014

Presença física


Saturday, June 7, 2014

Como vencer o stress





As tensões não são causadas pelas pessoas, eventos, pressões ou ambientes, mas pela forma como respondemos a tudo isso. Para uma vida livre de tensão precisamos entender que não podemos controlar os outros. A única coisa que podemos controlar são os nossos pensamentos, as emoções e o comportamento. Isso irá ajudar-nos a aceitar as pessoas e as situações como elas são e assim iremos parar de resistir ou controlá-las. Esse entendimento fará com que nossa atenção vá para onde a mudança realmente precisa acontecer – dentro de nós. Quando prestamos atenção no nosso crescimento pessoal e nos alimentamos com pensamentos positivos, sabedoria espiritual e meditação tornamo-nos fortes o suficiente para enfrentar situações adversas com calma e sentimentos positivos.

Purity Bureau, Tension free life, Purity, New Delhi, January 2012

Friday, June 6, 2014

Em tempo real

Observando com mais nitidez que nunca, pensava ir descobrir, no lado errado, uma nova esperança expressiva. Cansada da realidade, entrega-se à ilusão à procura de espantar as angústias que tanto a atormentavam. Porém, o espaço imediato nunca é o que julgávamos ser, em contraste com a intensidade do imaginário em todo o seu ambivalente esplendor. Provavelmente, não era só o que não esperava, também não era aquilo que lhe agradava.

Thursday, June 5, 2014

A mise en scène

Na verdade, um simples encontro para um chá pode ser visto como uma atitude social ou subentendido como uma reunião irrelevante ao mesmo tempo que tão cheia de significados. Entre um gole e outro, há ainda, um desfiar de segredos e queixumes, algumas confissões e breves relatos de pequenas histórias do dia-a-dia, nem todas com um final feliz. À partida, não só, uma a uma se vão esvaziando as chávenas, mas se vão revelando fraquezas e incertezas, e frequentemente a disseminação de uma certa culpa.

Wednesday, June 4, 2014

Como se fosses outra

Há uma música mas não a ouço. Debruço-me sobre o som do mar.
Depois sobre o teu sono, como se fosses outra.


Casimiro de Brito

Tuesday, June 3, 2014

A borboleta

A borboleta pousada
Ou é Deus
Ou é nada.


Adélia Prado in Artefato nipônico

Monday, June 2, 2014

Memórias

 De que são feitos os dias?
 De pequenos desejos,
 vagarosas saudades,
 silenciosas lembranças


Cecília Meireles

Sunday, June 1, 2014

A dado passo


Saturday, May 31, 2014

Sem deixar rasto

A cada Primavera, cantam, intensamente, as árias mais doces. A serenidade que projectam, rumo ao desconhecido, reveste-se de espectacularidade ao atravessar um tempo ainda por resgatar.

Friday, May 30, 2014

Suporte visual

Não sabemos com exactidão quanto duram. Talvez, não mais que uns dias, e depois disso o que porventura fica? Dir-se-á, a exaltação da cor, ou o que nos deteve o olhar, desencadeando uma forma de harmonia que, eventualmente acaba por se diluir.

Thursday, May 29, 2014

Do quotidiano

A imensidão do oceano permitia-lhe fugir aos lugares-comuns. Em especial, quando flutuava, por um período de tempo mais ou menos prolongado, criando espaço para reflexões, achando solução para as situações mais ingratas. No fim de contas, era uma longa viagem através da expansão de horizontes que, lhe permitia usufruir de uma outra perspectiva. 

Wednesday, May 28, 2014

Apenas figurantes

Às 10 e meia, dividia os dias com o resto da gente sem rumo ou identidade. O sol da Primavera aquecia-lhe a nuca num universo de personagens caóticas que, apareciam e desapareciam. Tudo estava lá. O sofrimento social, a dificuldade de financiamento, a tragédia económica e a política suicida. A dado passo afastavam-se horrorizados.
 As vozes irrompiam. Descontínuas e desordenadas, oscilando entre o grau de incerteza e a quebra de solidariedade, sobrepondo-se aos pecados que lhes foram atribuídos e que era compulsivo expiar. Mal sonhavam eles que as consequências futuras viriam a ser ainda mais graves.

Tuesday, May 27, 2014

A pobreza

     A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e
de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos
sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país
e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e
morremos. 

Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio & Alvim - 2ª edição - 2001

Monday, May 26, 2014

Visita guiada




Da margem do Arade avisto a serra de Monchique, a marina de Portimão e o encontro entre o rio e o mar em permanente convívio com a vila e a população de turistas e pescadores, onde também descubro becos e ruas estreitas, deixando-me encantar por cada um destes lugares.

Sunday, May 25, 2014

Outro rumo

Porque a minha mão infatigável
 procura o interior e o avesso
 da aparência
 porque o tempo em que vivo
 morre de ser ontem
 e é urgente inventar
 outra maneira de navegar
 outro rumo outro pulsar
 para dar esperança aos portos
 que aguardam pensativos


Mia Couto in Confidência