Após um período de adolescência, em que até a carteira do colégio partilhámos, seguindo diferentes rumos, os encontros passaram a ser fugazes, e na maioria das vezes apenas por ocasião de algum casamento, ou morte de um familiar. Porém, o acaso levou a que a voltasse a procurar, decorridos todos estes longos anos. Assim, quando pelo S. Martinho lhe bati à porta do seu novo apartamento citadino, foi num amplo open-space, com zonas distintas, que me recebeu. Numa breve visita guiada, espreitei-lhe os quartos, sinónimos de conforto e bem-estar, a banheira de hidromassagem, e o corredor transformado em galeria, com quadros de cada um dos filhos pendurados nas paredes. Regressamos à sala, onde um segundo olhar me remete para alguns móveis carregados de memória, de uma avó materna em comum. Seguidamente evocamos a juventude, na partilha dum tempo que já lá vai. Entrelaçamos episódios da vida, e falamos das inseguranças do que parecia seguro, do que aprendemos através da dor, do que faz sentido e da irracionalidade, e onde passámos a repousar as esperanças, sucumbindo de novo ao amor, quando Lisboa começa a anoitecer. Levantamo-nos seguindo a luminosidade que nos chega do exterior. É dum enorme terraço que entra pelo Tejo, com o infinito do céu sobre ambas, que me confidencia dialogar com o pai, que já partiu, em noites mais contemplativas. De dia recupera ânimos com a visita dos netos, que ali mesmo se dedicam às suas actividades favoritas, e tal como nós, perseguem sonhos daquele mesmo local. Mesmo aqueles desejos que nunca alcançaremos são os que na marcha do tempo nos farão continuar a caminhar. Antes de a deixar, ainda me oferece umas tartelettes de cebola e espinafres, que saem douradas do forno, da sua cozinha imaculadamente branca. E consolidando a tradição, o fim de tarde termina com castanhas cozidas em erva-doce, e a imprescindível água-pé. «Pelo S. Martinho prova o teu vinho, ao cabo de um ano já não te faz dano».
Showing posts with label As primas. Show all posts
Showing posts with label As primas. Show all posts
Thursday, November 20, 2008
Viradas para o rio
Após um período de adolescência, em que até a carteira do colégio partilhámos, seguindo diferentes rumos, os encontros passaram a ser fugazes, e na maioria das vezes apenas por ocasião de algum casamento, ou morte de um familiar. Porém, o acaso levou a que a voltasse a procurar, decorridos todos estes longos anos. Assim, quando pelo S. Martinho lhe bati à porta do seu novo apartamento citadino, foi num amplo open-space, com zonas distintas, que me recebeu. Numa breve visita guiada, espreitei-lhe os quartos, sinónimos de conforto e bem-estar, a banheira de hidromassagem, e o corredor transformado em galeria, com quadros de cada um dos filhos pendurados nas paredes. Regressamos à sala, onde um segundo olhar me remete para alguns móveis carregados de memória, de uma avó materna em comum. Seguidamente evocamos a juventude, na partilha dum tempo que já lá vai. Entrelaçamos episódios da vida, e falamos das inseguranças do que parecia seguro, do que aprendemos através da dor, do que faz sentido e da irracionalidade, e onde passámos a repousar as esperanças, sucumbindo de novo ao amor, quando Lisboa começa a anoitecer. Levantamo-nos seguindo a luminosidade que nos chega do exterior. É dum enorme terraço que entra pelo Tejo, com o infinito do céu sobre ambas, que me confidencia dialogar com o pai, que já partiu, em noites mais contemplativas. De dia recupera ânimos com a visita dos netos, que ali mesmo se dedicam às suas actividades favoritas, e tal como nós, perseguem sonhos daquele mesmo local. Mesmo aqueles desejos que nunca alcançaremos são os que na marcha do tempo nos farão continuar a caminhar. Antes de a deixar, ainda me oferece umas tartelettes de cebola e espinafres, que saem douradas do forno, da sua cozinha imaculadamente branca. E consolidando a tradição, o fim de tarde termina com castanhas cozidas em erva-doce, e a imprescindível água-pé. «Pelo S. Martinho prova o teu vinho, ao cabo de um ano já não te faz dano».
Subscribe to:
Posts (Atom)