É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
que fala com a nossa voz?
É então a isto que chamam "livro",
a este coração (o nosso coração)
dizendo "eu" entre nós e nós?
Manuel António Pina In Uma Luz de Papel, Edições Eterogémeas, 2007
Tudo começa nas histórias de colo, em cenários repletos de castelos e príncipes de encantar, antes da hora de adormecer. E, vestidos de sonhos, em torno da palavra e dos afectos, pouco a pouco desenvolvemos uma consciência crítica, que de outra forma nunca chegaria a existir. A descoberta de autores desperta-nos assim emoções que nos levam a prender ao texto, que simultaneamente se prende também a nós. Os livros ganham então uma maior dimensão, recolocando-nos tudo com muito mais perspectiva. Do romance à poesia, do ensaio à procura da verdade histórica, da obra de ficção ao drama que nos faz sentir vivos, do conto à tragédia, ou à narrativa mais ensombrada, não só nos marcam o imaginário, como nos alteram o conhecimento fazendo-nos reflectir.