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Saturday, May 14, 2016

Um homem

Em qualquer parte um homem
discretamente morre.
Ergueu uma flor.
Levantou uma cidade.
Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem.
Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri.


António Ramos Rosa in O Grito Claro

Tuesday, September 23, 2014

Estado de alma

Estou olhando os frutos repousados

e as pequenas sombras alongadas
sobre a mesa de madeira e pedra.
A brisa entra por uma porta antiga.
Uma pétala branca cai de uma flor branca.
Sou, mais do que sou, estou
na perfeição das coisas que me envolvem.
Repouso na sinuosa exactidão.


António Ramos Rosa in Poemas de A Rosa Esquerda - Leya - Lisboa, 2009

Friday, July 25, 2014

A nudez

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.


António Ramos Rosa

Tuesday, September 24, 2013

Entre aromas e cores

É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.

António Ramos Rosa (1924 - 2013) in Acordes, Quetzal

Friday, November 2, 2012

A folhagem e o espaço

Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.


António Ramos Rosa in corpo de argila de volante verde, 1986

Saturday, October 11, 2008

Insuficiências


Um gesto sem paisagem
Sem horizonte ou casa
Sem o outro
Não chega a ser um gesto
Será talvez um esgar
Um grito que sufoca
Tal como um rio se perde
Sem as suas margens



António Ramos Rosa

Tuesday, September 9, 2008

Reclassificação

A palavra é curva. Nunca atinge
O alvo. Só o silêncio
É recto.
Mas a chama de um e de outro
Limpa a lepra do tempo
E descobre a fonte branca
Como o desenho latente que na página respira


António Ramos Rosa