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Tuesday, December 15, 2015

Umas gotas de chuva

É apenas o começo. Só depois dói,
 e se lhe dá nome.
 Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
 acontecer da maneira mais simples:
 umas gotas de chuva no cabelo.
 Aproximas a mão, os dedos
 desatam a arder inesperadamente,
 recuas de medo. Aqueles cabelos,
 as suas gotas de água são o começo,
 apenas o começo. Antes
 do fim terás de pegar no fogo
 e fazeres do inverno
 a mais ardente de todas as estações.


Eugénio de Andrade

Wednesday, May 20, 2015

Lá dentro

Creio que foi o sorriso,
 sorriso foi quem abriu a porta.
 Era um sorriso com muita luz
 lá dentro, apetecia
 entrar nele, tirar a roupa, ficar
 nu dentro daquele sorriso.
 Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

 Eugénio de Andrade

Tuesday, November 25, 2014

Inventar alegria


É urgente o amor. 
É urgente um barco no mar. 

É urgente destruir certas palavras, 
ódio, solidão e crueldade, 
alguns lamentos, 
muitas espadas. 

É urgente inventar alegria, 
multiplicar os beijos, as searas, 
é urgente descobrir rosas e rios 
e manhãs claras. 

Cai o silêncio nos ombros e a luz 
impura, até doer. 
É urgente o amor, é urgente permanecer.


Eugénio de Andrade in Até Amanhã, 1956 

Tuesday, October 28, 2014

Eras tu somente

Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal e do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.

Eugénio de Andrade in Os Sulcos da Sede 

Sunday, September 7, 2014

Esperarei por ti

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade

Friday, April 18, 2014

Os sinais do desejo

Estende um pouco mais a mão
 recolhe um a um os sinais do desejo
  fogo de abelhas o sexo
 espera a insurreição da cal
 a espessa ondulação do vento
 é sobre o corpo a própria exaltação
morrer nos flancos do amor é um dizer
 repara como brilham os limoeiros.


Eugénio de Andrade in Véspera da Água -  Assírio & Alvim

Friday, March 21, 2014

Vem do rio

Vem dos lados do rio, as mãos fresquíssimas, algumas gotas de água ainda nos cabelos.
Com a manhã chega o anónimo respirar do mundo. Um cheiro a pão fresco invade o pátio todo.
Vem dos lados do rio: para levar à boca, ou ao poema.

Eugénio de Andrade

Thursday, February 27, 2014

Grito de alegria

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:

o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade in As Palavra Interditas


Thursday, July 25, 2013

Fogo de Verão


A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.


Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?


Eugénio de Andrade

Tuesday, February 5, 2013

Atravessado na garganta


Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade




Tuesday, October 23, 2012

A cada gesto


Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio de Andrade

Thursday, April 7, 2011

Flores abertas


Só as tuas mãos trazem os frutos.

Só elas despem a mágoa

destes olhos, choupos meus,

carregados de sombra e rasos de água.


Só elas são estrelas penduradas nos meus dedos.

- Ó mãos da minha alma,

flores abertas aos meus segredos


Eugénio de Andrade



Monday, October 20, 2008

Projectando

Sei que estou vivo e cresço sobre a terra.
não porque tenha mais poder,
nem mais saber, nem mais haver.
Como lábio que suplica outro lábio,
como pequena e branca chama de silêncio,
como sopro obscuro do primeiro crepúsculo,
sei que estou vivo,
vivo sobre o teu peito,
sobre os teus flancos,
e cresço para ti.



Eugénio de Andrade