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Monday, July 6, 2015

O exercício da magia

Por isso ele era rei, e alguém
 se punha diante da realeza para ter um pensamento, uma palavra
súbdita: dá-me um nome, uma
 baforada
 desfere o ceptro contra a minha testa para eu ver
 uma constelação maior que onze varas,
 enche de hélio o espaço reservado à minha glória quando me volto
 na escuridão com toda a potência
dos raios, dizia, o torso envolto pelas ramagens
 do fogo,
 bate-me na testa e que eu seja a minha luz, onze
varas de luz para os braços torcidos,
uma camisa aos rasgões brilhantes por força
da entrada e saída
do ar, porque de ti recebo a soberania e lanço pela boca
 petróleo a arder como no circo dos prodígios
 fazem os reis terríveis,
 por isso também eu tenho o poder e o sítio e o exercício
 desta magia: a realeza de uma combustão,
acto, verbo,
e em estado natural os elementos:
 madeira, cristal e ouro, e o ar movendo
 o poema número a número.
  


 Herberto Helder in Poesia Toda, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996

Wednesday, May 13, 2015

Ser ímpar

até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar,
ser escolhido,
e lampejando do ar à volta,
na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos
como para escrever cada palavra:
pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:
um copo de água,
tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima
tão súbito e implacável na vida administrativa


Herberto Helder, in «Servidões», Assírio & Alvim, 2013.

Monday, March 9, 2015

O mês das musas

Eu teria amado esse destino imóvel, esse frio
poço de canções. Contudo, ela não dormia, estava partida
a meu lado, era uma gruta onde a música
um instante se torna infinita.
Durante um mês viveu em mim, e não dormia. Foi o mês
das musas, a penumbra da sua vida
estava coberta de ervas puras.
Ela não dormia (como dizer que era assim?). Durante
o espantoso mês das musas, eu despertava como um espelho
onde as brasas da cabeça principiaram a girar.

Estava iluminada por dentro, e a noite ia e vinha
sobre os arcos e os tanques da sua testa.
Eu cantava junto a esse sonâmbulo instrumento,
eu era infeliz e fecundo, o sangue
passava pelos arbustos do corpo e os pensamentos
ardiam, em mim, nessa monstruosa
noite da criação.

Sinto que tocaria esse intenso violino, e a vida
mudaria, as grandes estações do ano passariam devagar
na minha confusão. Eu era um homem
e tinha na boca o profundo ofício de sorrir
o fluxo encantado e irónico
das mensagens. E tinha as palavras de piedade que um homem
tem para acender, como fogueiras,
nas margens cantantes e frias das águas
do mundo.

Vejo a minha vida agitada, as pequenas faúlhas
do rosto, a minha piedade e desgraça
de homem,
debruçados sobre esse objecto misterioso e triste,
e poderoso e vazio
como uma guitarra, como uma coluna de obscuridade
que dormia, que não podia jamais dormir
entre uma onda que vem do céu e da terra, e uma noite
que iria e viria sobre a paisagem
de arcos e pontes e torres e poços tenebrosos
e ocos.

Às vezes eu levantava um braço que deixava arder
ou pensava como era forte
a torrente do meu silêncio. Pensava
como poderia desfazer-se a carne sem que eu
gritasse. A minha voz era esplêndida,
os mortos poderiam erguer um pouco os seus ombros
submersos na grande ideia
universal, poderiam ouvir alguma coisa da minha voz
tão límpida de desgraça, de terrível
alegria.

A meu lado, aquele ser levitava e por ele
as aves passavam, os montes atingiam
as corolas celestes, nunca deixavam de correr
as águas que atravessam os povos mais puros do mundo.

Era tenebroso e doce que a loucura me viesse
deste lugar, que fosse uma árvore a sustentar
a minha juventude.

Chegava um dia em que ela devia ser impura,
e o meu coração ressoava. Minha piedade de homem
de novo se inclinava sobre as formas mudas.
Porque a terra trabalhava talvez para acender
aquela tenebrosa cidade, porque ela mesma cantaria então,
humilde e iluminada,
debaixo da noite rolante, da estupenda noite
inspiradora. Mas somente para mim
o vento circulava com seus archotes
rápidos, rápidos;
só a minha cabeça estremecia contra a almofada
de fogo, e o sangue despedaçava as portas,
e ao alto os telhados transparentes incendiavam-se
batidos pelos raios.

Sabia-se agora
como havia razão no oculto
movimento da fantasia, como essa força
chegava de nada e era força no próprio e puro enigma
da minha vida. Porque a obra era então ―
mais do que o mundo e as fontes e os leitos
dos poderes ―
eu, o homem mesmo, disposto sobre si
como a luz se dispõe sobre a luz,
como as palavras são em si mesmas dispostas
no renovo das palavras.

Sobre a sombra de um mês confuso e rápido,
eu era um homem ―
e um homem beija a sua própria boca.


 Herberto Helder in A colher na boca - 1961

Tuesday, February 10, 2015

A mão que mexes ao alto

É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,

em baixo a outra mão

mexe num charco branco. Feridas que abrem,

reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.



                                                         Herberto Helder
Le poème continu
somme anthologique
Institut camões/chandeigne
Paris, 2002

Tuesday, January 13, 2015

Escondo a cara

Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas.
Rosas ascendem do coração trançado
 das madeiras.

 As caudas dos pavões como uma obra astronómica.

E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.

Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.

E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.

Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.
  

Herberto Helder in Ofício Cantante – Lisboa, Assírio & Alvim 2009 

Tuesday, November 4, 2014

Os dez dedos

queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena

poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima


Herberto Helder in A Morte sem Mestre - ed. Porto Editora, 2014

Wednesday, October 15, 2014

A luz que estremecia

tão fortes eram que sobreviveram à língua morta,
esses poucos poemas acerca do que hoje me atormenta,
décadas, séculos, milénios,
e eles vibram,
e entre os objectos técnicos no apartamento,
rádio, tv, telemóvel,
relógios de pulso,
esmagam-me por assim dizer com a sua verdade última
sobre a morte do corpo,
dizem apenas: igual ao pó da terra que não respira,
o que é falso, pois eu é que deixarei de respirar
sobre o pó da terra que respira,
entre o poema sumério e este poema de curto fôlego,
mas que talvez respire um dia,
ou dois, ou três dias mais:
quanto às coisas sumérias: as mãos da rapariga,
o cabelo da estreita rapariga,
a luz que estremecia nela,
tudo isso perdura em mim pelos milénios fora,
disso, oh sim, é que eu estou vivo e estremeço ainda


Herberto Helder in A Morte sem Mestre - ed. Porto Editora, 2014

Thursday, September 4, 2014

Espaço lunado

 Se perguntarem: das artes do mundo?
 Das artes do mundo escolho a de ver cometas
 despenharem-se
 das grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
 charcos entre elas.
 Quero na escuridão revolvida pelas luzes
 ganhar baptismo, ofício.
 Queimado nas orlas de fogo das poças.
 O meu nome é esse.
 E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
 caem dentro dos dias – e eu estudo
 astros desmoronados, mananciais, o segredo.

 Laranja, peso, potência

 Laranja, peso, potência.
 Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.

 A matéria pensa. As madeiras
 incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
 tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
 recebe soberania.
 E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
 A ferida que a gente é: de mundo
 e invenção. Laranja
 assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa
 inocência da terra.

 Não toques nos objectos imediatos

 Não toques nos objectos imediatos.
 A harmonia queima.
 Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
 são loucos todos os objectos.
 Uma jarra com um crisântemo transparente
 tem um tremor oculto.
 É terrível no escuro.
 Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
 A boca fica em chaga.

Herberto Helder