Há pessoas assim cuja existência, cuja carne é
matéria literária. Não falo já de qualidade. Falo, sim, da quantidade de poema
que há num corpo. Da combustão que é feita de palavras em lugar de oxigénio.
Falo daquele que, se não escreve, mata alguém. Daquele que não aceita um
aparelho de cognição capaz de o proteger com o vulgar conforto do real. Que se
educou para a alucinação. O que descreve o brilho intenso que há na noite e é,
no entanto, a fonte do fulgor, dessa fosforescência com que os mortos que o tocam,
de visita, o contaminam.
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Monday, August 11, 2014
Existências
Thursday, February 21, 2013
O presente
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda.
Hélia Correia in A Terceira Miséria, Relógio d'Água, 2012
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