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Saturday, March 5, 2016

Um café num dia de inverno

o inverno avançava
 nessa tarde em que te ouvi
 assaltado por dores
 o céu quebrava-se aos disparos
 de uma criança muito assustada
 que corria
 o vento batia-lhe no rosto com violência
 a infância inteira
 disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
 com frio e medo
 apagavas cigarros nas palmas das mãos
 e os que te viam choravam
 mas tu não, nunca choraste
 por amores que se perdem

os naufrágios são belos
 sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
 E temos saudades desse mar
 que derruba primeiro no nosso corpo
 tudo o que seremos depois

«pago-te um café se me contares
 o teu amor»

Jose Tolentino Mendonça


Thursday, January 28, 2016

O que não é

O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é 


José Tolentino Mendonça

Tuesday, January 19, 2016

As minhas mãos traziam

Lembro-me da música dos lugares a oeste
dos planos para esse reino amado
que pretendemos tanto tomar de assalto
antes dos brados do fogo

Mas as minhas mãos traziam já
uma sina mais escura, nem a noite

Qualquer penumbra serviu
ao meu coração oculto
a miséria do inverno
o treino dos falcões nas escarpas
a glória iludida
em que se consumiu o tempo



José Tolentino Mendonça in A noite abre meus olhos 

Tuesday, October 6, 2015

A outra verdade

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

José Tolentino Mendonça


Wednesday, June 24, 2015

Pássaro

um coração é sempre um pássaro

evadido à censura da penumbra

José Tolentino Mendonça

Monday, June 23, 2014

A procura


O que buscamos
uns nos outros
é sempre a noite



José Tolentino Mendonça in A Papoila e o Monge - Lisboa, Assírio & Alvim 2013

Wednesday, May 21, 2014

A estranheza do ser

Nós somos imprevisíveis. Às vezes olhamo-nos ao espelho e, mesmo sem dizer, recuperamos aquele verso de Rimbaud, "eu sou um outro". Quem é este que me olha ao espelho? Olhamos para nós e há uma estranheza de ser que nunca se cura: mas sou assim? que caminho é este? que tempos são estes que me habitam? Somos também um segredo para nós mesmos e temos de aceitar-nos assim. Somos um enigma, uma pergunta e temos de aceitar isso. Caso contrário nunca teremos paz. Habitaremos sempre a divisão e o conflito. Há, portanto, um momento em que é preciso dizer: "está bem, é assim; eu não explico, eu não concebo, eu não programo, mas é assim, e vou fazer alguma coisa com isso.


José Tolentino Mendonça in Nenhum caminho será longo