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Tuesday, March 1, 2016

E o Verão nunca mais vinha

Sentaram-se na areia e descalçaram os sapatos
Puseram-se a contar pelos dedos os barcos
Que faltariam para chegar o verão

Nenhum deles falava. Tinham passado juntos
Algumas noites, num quarto sem vista. E, embora
Julgassem o contrário, não conheciam um do outro
muito mais que isso.

Estavam ali sentados para ver se acontecia alguma coisa.

No verão
Alguém viria forçosamente buscá-los.


Maria do Rosário Pedreira

Saturday, December 5, 2015

O amargo beijo

 
Acordo com o teu nome nos
meus lábios — amargo beijo

 esse que o tempo dá sem
aviso a quem não esquece.

 Maria do Rosário Pedreira

Thursday, March 26, 2015

Silêncio

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe


Maria do Rosário Pedreira

Monday, December 29, 2014

No compasso dos sonhos

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre - a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o

serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos - dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde se esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez que o queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã - as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.


  Maria do Rosário Pedreira in a casa e o cheiro os livros - gótica 2002



Tuesday, May 6, 2014

O bilhete

Saio da cama pela fenda do lençol e fecho-a sobre ti. Toco o chão ao de leve, como uma ave repousa na pele das ondas. Visto-me às escuras - tão mais discreta a blusa do avesso, a saia tão distraída nas costuras. Vou para a cozinha de sapatos na mão e escrevo-te um bilhete: deixei-te um beijo sobre a tua almofada antes de sair.

Não preciso assinar.


Maria do Rosário Pedreira

Wednesday, February 27, 2013

De ti


tudo o que vem de ti é um poema

Maria do Rosário Pedreira