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Monday, July 4, 2016

O mar largo

Passavam pelo ar aves repentinas,
 O cheiro da terra era fundo e amargo,
 E ao longe as cavalgadas do mar largo
 Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
 Era a carne das árvores elástica e dura,
 Eram as gotas de sangue da resina
 E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
 Eram as mãos profundas do vento
 Era o livre e luminoso chamamento
 Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
 Era o peso e era a cor de cada coisa,
 A sua quietude, secretamente viva,
 E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
 Cuja voz, quando se quebra, sobe,
 Era o regresso sem fim e a claridade
 Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner Andresen in Paisagem

Tuesday, May 17, 2016

O teu vulto


Dei-te a solidão do dia inteiro....
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, March 12, 2016

Para ti


Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas


Sophia de Mello Breyner Andresen 

Tuesday, March 8, 2016

Para além do tempo

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
 Não pela cor
 Mas pela vastidão da alma
 E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
 Ficam para além do tempo
 Como se a maré nunca as levasse
 Da praia onde foram felizes
 Há mulheres que trazem o mar nos olhos
 pela grandeza da imensidão da alma
 pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
 Há mulheres que são maré em noites de tardes
 e calma.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Wednesday, May 7, 2014

É Primavera!

O muguet é uma flor escondida. É uma flor pequenina e branca e tem um perfume mais maravilhoso e mais belo do que o perfume dos nardos.
Durante o Inverno ela dorme na terra debaixo das folhas secas e desfeitas das árvores. Dorme como se tivesse morrido. Mas na Primavera as suas longas folhas verdes furam a terra e crescem durante alguns dias até terem um palmo de altura. Então muito devagar as folhas vão-se abrindo e mostram à luz maravilhada as campânulas aéreas, brancas e bailarinas da flor do muguet. E o vento da tarde toma em si o perfume do muguet, leva-o consigo, e espalha-o no jardim todo.
Então tudo no jardim estremece e as grandes tílias e os velhos carvalhos e as flores recém-nascidas e as relvas e as borboletas dizem:
- É Primavera! É Primavera!


Sophia de Mello Breyner Andresen in O rapaz de Bronze

Tuesday, November 26, 2013

A nudez da alma

Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.

Sophia de Mello Breyner Andresen in Tempo Dividido, 1954

Sunday, September 25, 2011

Maresia


Mar, metade da minha alma é feita de maresia

Sophia de Mello Breyner Andresen