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Wednesday, July 1, 2015

O mar

tanto me faz, doido de nada
ou doido de tudo, no pasto
do vento, os olhos magros
a recusar imagens, uma
palavra eleita pela boca, um
nome impossível de atribuir, já
deus reclamando a posse do
mundo, já eu na rama do
passado, só um fogo pálido
onde o mar se vem aquecer


 valter hugo mãe in três minutos antes de a maré encher - quasi 2000


Monday, September 8, 2014

Tudo será perfeito

Imagina que deus te fez para mim.
como se a maravilha que vivo fosse só a
consequência da sua vontade.
imagina que tudo será perfeito, mesmo que, tão
precipitadamente, entendamos ter encontrado o que não existe.


valter hugo mãe

Sunday, March 30, 2014

Caminham

caminham sobre a
terra rápida, e quando
morrem são anjos em
eterna muda de penas, feitas
só pássaros sem bico, engolidas
por grande morte depois de
tão pequena vida, assistem
ao céu, pasmadas numa
lentidão eterna

 valter hugo mãe in a cobrição das filhas – quasi 2001

Friday, July 19, 2013

O Bruno

no início o bruno era o
verbo, depois, veio do fundo
da paisagem e depositou-se em
movimento por toda a parte, apenas
a seguir se criaram os animais e
as plantas e toda a evolução das
espécies aconteceu


Valter Hugo Mãe in Contabilidade 
Poesia 1996-2010 - Alfaguara (2010)

Monday, February 4, 2013

Do meu coração ao teu


vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim



valter hugo mãe in pornografia erudita