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Thursday, August 20, 2015

Em direcção incerta


O tempo dilatou-se ainda agora
quando te olhei nos olhos e me vi.
Em direcção incerta, dilatou-se
e depois implodiu, solene e devagar

Nunca visão alguma observada assim:
a quarta dimensão toda em avesso,
eu reflectida e refractada em luz,
assombrosas fracções mileneares

Fenómeno maior, mais do que super nova
ou que quasar: tempo aos espasmos
Tudo porque os teus olhos se afastaram
da órbita vulgar


Ana Luísa Amaral

Thursday, July 9, 2015

Pássaro nulo

Pássaro nulo
a configuração da tua ausência
o corpo a preencher-se
em ressalvas de medo
ao meu lado
doìdamente longe

Dir-te-ia do sólido
confronto que imagino
ou do conforto de te poder ter
em figura de estilo


Ana Luisa Amaral

Friday, May 15, 2015

Em direcção a tudo

Se me pedisses de repente e aqui:
«fala das luas e dos dias», eu
nem falaria, diria só que estar contigo
é estar-me:
ofício de tanto tempo,
e natural,
ajustado como pequeno girassol,
ao sul: uma paisagem

Nem saberia por onde começar:
se no olhar, se na palavra,
ou se no teu sorriso
que me devastou o equilíbrio do igual

Não sei, meu amor,
como entender este pequeno girassol,
explicar-lhe o movimento certo,
a rotação completa e tão
perfeita,
as folhas muito verdes
de uma tal filigrana delicada
Sobretudo, este seu hino
em direcção a tudo

e já nem sei falá-lo,
porque lhe basta o tempo, e esse
- sem palavras



Ana Luisa Amaral in Se fosse um intervalo

Monday, April 20, 2015

Pelos campos mais longos

Um toque leve,
e eu perder-me-ei
- pelas planícies todas do azul,
pelos campos mais longos
que quiseres,
em direcção a leste, a norte,
a sul

Um toque tão macio de rouxinol
que a tortura se apague,
um nome se incendeie
junto ao chão
e expluda com a tarde

Desliza-me na pele
o fio incandescente dos teus dedos,
que eu entrarei de frente
pelo sol,
e arderei no sol,
sem medo


Ana Luísa Amaral

Thursday, October 30, 2014

Sem janelas

As nuvens não se rasgaram
nem o sol: só a porta
do meu quarto

A abrir-se noutras
portas dando para outros
quartos e um corredor ao fundo

Não havia janelas nem
silêncios: sinfonias por dentro
a rasgar o silencio

A porta do meu quarto
já nem porta: madeiramento
para o fogo

Ana Luisa Amaral

Tuesday, September 30, 2014

Uma ausência de nome

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades


Ana Luisa Amaral in Se fosse um intervalo

Friday, June 27, 2014

A sul

Um toque leve,
e eu perder-me-ei
 pelas planícies todas do azul,
pelos campos mais longos
que quiseres,
em direcção a leste, a norte,
a sul

Um toque tão macio de rouxinol
que a tortura se apague,
um nome se incendeie
junto ao chão
e expluda com a tarde

Desliza-me na pele
o fio incandescente dos teus dedos,
que eu entrarei de frente
pelo sol,
e arderei no sol,
sem medo


Ana Luísa Amaral

Monday, May 19, 2014

Olho-te

Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite
E o meu desejo de ti
São lágrimas por
dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:
o tempo de viver;
e a gente em social
desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu
lado
fosse alta e
oportuna,
invadia de amor o teu
reflexo
e em estilhaços de
vidro
mergulhava em ti.
Ana Luísa Amaral In Anos 90 e Agora - Quasi Edições