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Friday, November 7, 2014

Depois de ti

Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda

Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome

José Tolentino Mendonça in O Viajante sem Sono - Assírio & Alvim, 2009

Thursday, April 10, 2014

Um mês ou um século

O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria

Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam

Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam

José Tolentino Mendonça, in Estação Central, Assírio & Alvim, 2012


Wednesday, March 26, 2014

Instantes

Nem sei como me interessa
o que resplandece nos instantes
as impressões difíceis que nos arrastam
as palavras que leio no escuro

Se um amor passa por nós
tão perto já de perder-se

 José Tolentino Mendonça in De Igual Para Igual - Assírio & Alvim 

Sunday, February 16, 2014

Pintura perdida

Faltam aos planos das cidades
esfinges aladas
palmas fora de tempo, matagais
pequenos acrescentos a vermelho

Faltam atlas com algum detalhe
para as emissões nocturnas
nos agudos da nossa incerteza
falta uma beleza
a olhar para nós
indiscernível, entreaberta ainda

Talvez a nós próprios falte
essa grande medida
insondáveis cordas na travessia
uma juventude que o mundo possa
documentar

os teus olhos são o que resta
dos livros sagrados
e da grande pintura perdida


José Tolentino Mendonça in O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim

Sunday, October 20, 2013

O barco que a aurora leva


Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado

na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só

José Tolentino Mendonça in A noite abre meus olhos - poesia reunida, Assírio & Alvim 

Thursday, September 19, 2013

Uma vida a naufragar

Depois de ter fechado tudo, abro de novo a porta
e corro cambaleante para a vazia escuridão
assusta-me a certas horas a companhia
do que não adormece
a resistência disso no nosso espaço
movido por outra forças

Mas também me ocorre acender primeiro a luz
e só depois
sentir um medo louco da casa que me acolhe
dos seus redemoinhos imperceptíveis
que julgo cada vez mais perto
como se estivesse para ser morto
às mãos do próprio Deus

Não sei bem acordar vivo destas coisas:
aproveito o ruído do entardecer e grito muito alto
deixo-te um instante só (um instante só)
para fechar os olhos que tanto ardem
ou atiro das margens folhas ao rio
para medir o tempo de uma vida
a naufragar

José Tolentino Mendonça in A Noite Abre Meus Olhos - Assírio & Alvim, 2006

Tuesday, November 13, 2012

Uma questão de incerteza


de repente todos os caminhos parecem de regresso
a vida por si mesma não se pode escutar demasiado
a vida é uma questão de tempo
um sopro ainda mais frágil

a rapariga desce à pequena praça,
compra uma flor para ter na mão
uma forma intemporal de conservar
a perfeição ou a incerteza

 José Tolentino Mendonça

Tuesday, October 9, 2012

Esquecer quem nos olhou


como viveremos no esquecimento
se perdemos repentinamente a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos conservar.
mas levamos anos a esquecer alguém
que apenas nos olhou

José Tolentino de Mendonça