Saturday, October 4, 2008

Friday, October 3, 2008

Em bicos de pés

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.


Eugénio de Andrade

Thursday, October 2, 2008

Atlantis

A ilha submersa

Ninguém tem a certeza de que existiu, mas há 2.400 anos Platão mencionou-a pela 1ª vez, e ainda hoje continua a encantar a humanidade. Segundo a sua descrição uma civilização teria habitado um continente a oeste do Mediterrâneo, no meio do oceano para além do estreito de Gibraltar. De acordo com a lenda, nos primeiros tempos, os deuses terão feito entre si a partilha do mundo passando a Atlântida a pertencer a Poseidon que ali terá vivido na companhia da jovem Clito. Platão descreveu-a como anéis alternados de terra e mar, com um palácio ao centro, cercado por muros cobertos de ouro que brilhavam à luz do sol. A região terá sido dividida em partes, cabendo cada uma delas a cada um dos dez filhos do casal, obedecendo todos ao primogénito Atlas. Este tornou-se a personificação das montanhas ou pilares que sustentavam o céu, significando Atlântida (do grego Atlantis) a terra de Atlas, e Atlântico o seu oceano. Explorando os seus recursos desenvolveu-se de tal forma que o grau de riqueza alcançado por esta cultura avançada não encontra paralelo em mais lado nenhum. Porém, crê-se que os atlantes tenham sido vítimas das suas ambições de conquistar o mundo ao serem dizimados pelos atenienses, que os afastam através de um poderoso exército. Ter-se-ão ainda entregue aos seus próprios vícios e perversões, o que terá suscitado a cólera de Zeus que terá causado a sua destruição há 12.000 anos, por meio de grandes maremotos e tremores de terra. No auge da sua era dourada Atlântida acaba engolida pelo oceano, desaparecendo para sempre nas profundezas dum mar povoado por sereias. Algumas pessoas acreditam até que os Açores poderão ser os cumes das montanhas do submerso continente da Atlântida. O que é certo é que a tradição oral foi sobrevivendo ao passar dos séculos. Até durante a Renascença, que procurou nos mitos realidades, foram várias as tentativas de explicação racional desta história. A Atlântida inspirou centenas de pintores, escritores e poetas, seduzidos pelo romantismo e vigor da narrativa, não sendo difícil que a terra submersa se transformasse em musa para artistas do mundo inteiro. Ainda nos dias de hoje desperta a imaginação dos homens, que debatem as mais diversas interpretações possíveis sobre o desaparecimento da misteriosa ilha.

Tuesday, September 30, 2008

Monday, September 29, 2008

Restrições



Confidências que fazia outrora
Ao seu amigo Sol
Só as faz agora à sua amiga Lua

Saturday, September 27, 2008

Tópicos de conversa

Afazeres levaram-me lá perto, aproveitando para a visitar de novo. É com um sorriso e um brilho nos olhos que sempre me abre a porta de casa, partilhando comigo todo o saber de uma vida. Como faz calor abre a portada da sala permitindo-me avistar a relva de um verde que me revitaliza. Sobre a mesinha em frente ao sofá poisa um exemplar do Rio das Flores, que o filho lhe ofereceu, quando lá passou o mês de Agosto com a família. Apesar de calhamaço já pouco lhe falta para chegar ao fim, e assegura-me não ter dificuldades de visão na leitura. Pergunta-me se de momento também estou a ler. Respondo-lhe afirmativamente, e que por acaso até é um livro sobre astros que tanto me fascinam, confidenciando-lhe ter aprendido que em tempos a Terra terá rodado muito mais depressa que agora, durando os dias apenas uma dezena de horas. Sorri, e com um humor deveras perspicaz responde-me que naturalmente a idade avançada do nosso planeta também já não lhe possibilita as mesmas correrias!
Conta-me ainda que durante todo o Verão foi muito mimada pela nora que lhe executou as tarefas domésticas, sem a deixar mexer uma palha. Mas a Tininha é uma fonte inesgotável de energia, com uma capacidade inata de realizar múltiplas e mais variadas lidas. Pintar é absolutamente vital para ela, quando através de uma sensibilidade libertadora se supera a si mesma. Os seus quadros e o seu talento transmitem-nos toda a sua realidade imaginativa. Antes de partir ainda há tempo para me mostrar duas fotografias do casamento do sobrinho Hugo a que assistiu faz quinze dias, e da ementa do copo de água que me desperta o apetite.
O mundo que a envolve é sem dúvida um desafio às minhas capacidades sensoriais, e de cada vez que a revisito, renovo-me e reinvento-me, olhando o que ela me aponta, muito para lá do horizonte.

Friday, September 26, 2008

Sem nada


Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.


Eugénio de Andrade

Thursday, September 25, 2008

Wednesday, September 24, 2008

Destino e Fortuna

Todos os homens estão destinados a morrer
E ninguém sabe se amanhã estará vivo.
Certo de que é assim, homem, entrega-te ao prazer
E procura no vinho o esquecimento da morte.
Goza também do Amor enquanto arrastas a tua vida efémera.
Deixa que a Fortuna decida o resto.

Tuesday, September 23, 2008

Imprevistos/Unpredicted circunstances


O Capuchinho Vermelho desfrutava o dia quente de verão sem se aperceber que uma sombra negra vinda da floresta se aproximava por trás dela… De repente, o lobo aparece ao seu lado. «O que fazes por aqui, menina?», perguntou-lhe o lobo na voz mais amistosa possível. «Estou a caminho de visitar a minha avó, que vive na floresta, perto do ribeiro», respondeu-lhe o Capuchinho Vermelho. Realizando já ir atrasada rapidamente se justifica, apressando o caminho para a casa da avó. O lobo, entretanto, tomou um atalho...

Little Red Riding Hood was enjoying the warm summer day so much, that she didn't notice a dark shadow approaching out of the forest behind her...
Suddenly, the wolf appeared beside her.
"What are you doing out here, little girl?" the wolf asked in a voice as friendly as he could muster. "I'm on my way to see my Grandma who lives through the forest, near the brook" Little Red Riding Hood replied. Then she realized how late she was and quickly excused herself, rushing down the path to her Grandma's house. The wolf, in the meantime, took a shortcut...

Monday, September 22, 2008

Nuvens passageiras

A vida é uma viagem onde existências se cruzam. Algumas marcam-nos para sempre. Na passada semana perdi duma assentada dois amigos de longa data, e as nuvens coloridas que flutuavam no céu, imediatamente mudaram de tom. Embalada por lembranças, tenho vindo a recuperar memórias, até que um vento forte varra as nuvens cinzentas de vez, e um novo sopro me ajude a retomar o caminho. É tempo de seguir em frente, e pouco a pouco avançar. Sem dúvida que continuarei a percorrer paisagens, transpondo o fosso e recuperando o ânimo, sem nunca perder de vista a concretização de aspirações. Afinal, nem um nem outro gostariam que fosse de outra forma.

Sunday, September 21, 2008

Saturday, September 20, 2008

Passagem/Passageway


O êxtase do ar e a palavra do vento
Povoaram de ti meu pensamento.


The delight of the air and the word of the wind
Inhabited my thoughts of you


Sophia de Mello Breyner Andresen

Thursday, September 18, 2008

Mil e cem

Há mil e cem anos
de poesia num só dia,
mil e cem palavras
numa só sílaba,
mil e cem páginas
numa linha


- quando abro o livro
do teu corpo, e provo mil
e cem receitas num só
amor.


Nuno Júdice

Wednesday, September 17, 2008

Cantarolando

Inspirado nas canções dos ABBA e num dos maiores êxitos da Broadway a versão cinematográfica Mamma Mia, que só ontem fui ver, fez-me reviver os clássicos dos finais dos anos 70 e início dos 80 como «Dancing Queen», «Chiquita», «SOS», ou «Super Trouper», entre outros que nunca me chegaram a sair da cabeça. Filmado numa paradisíaca ilha grega, além de romântico e divertido Mamma Mia tornou-se uma verdadeira fórmula de sucesso.

Tuesday, September 16, 2008

Curar pela alegria


Há quem diga que rir é o melhor remédio, e para tirar teimas fui espreitar uma sessão de risoterapia com a Mafalda - uma jovem bem-humorada, cheia de espontaneidade e uma autêntica lufada de ar fresco no meio dum grupo de cerca de 18 pessoas bastante menos jovens que ela. O riso exercita e relaxa os músculos, e faz com que libertemos endorfinas repletas de propriedades analgésicas e calmantes. Por vezes será difícil sorrir nas adversidades, mas há que concordar que quando certas situações mais cómicas nos fazem dar uma boa gargalhada, esse vislumbre de felicidade momentânea nos traz um sentido positivo à vida. Ora é isso mesmo que se pretende. Cultivando esta terapia não só melhoramos o estado emocional, como nos prevenimos de enfermidades, vivendo o presente com outro entusiasmo.
Se é carrancudo, impaciente, e tem tendência a se irritar com facilidade saiba que tudo isso lhe dá predisposição a doenças coronárias, bloqueios e medos. Faça como eu, e deixe-se contagiar pelo magnetismo irradiante da Mafalda, e a sua mente criativa, e faça desta uma etapa de partida para um estado geral energético absolutamente inquestionável.

Monday, September 15, 2008

Em busca do enriquecimento pessoal

Atenta e exigente é com expectativa que aguardo pelo novo programa da universidade sénior. Ao contrário dos dois últimos anos lectivos, acalento esperanças pela criação de novas condições, que visem a melhoria da satisfação dos alunos, que tanto tarda em sedimentar. Aliás, renunciando preconceitos institucionalizados, seria urgente que estes mesmos alunos passassem a ter um papel activo contra um conformismo que julgo não ser irremediável.
É preciso que as partes se envolvam através de discussões e fóruns que nos agilizem o pensamento, e que através de uma estratégia conjunta de propostas e sugestões alternativas surja uma maior eficácia na resposta. Certamente que haverá outros recursos didácticos, conhecimentos menos redutores e mais precisos, o suporte tecnológico necessário, modelos pedagógicos inovadores, que a realização de inquéritos e sondagens poderiam também ajudar. Pessoalmente consideraria absolutamente prioritário promover acções de divulgação que atraíssem a fidelização de mais, e melhores alunos, e professores.
Alguns verão na universidade da terceira idade uma forma de preencher o vazio das suas vidas, porém eu pertenço ao grupo maioritário que sonha com o dia em que ela nos servirá para abrir horizontes, nos trazer pontos de visão mais altos, nos mobilizar e suscitar uma sabedoria muito mais crítica. Imaginamo-la tudo menos mediana, e até gostaríamos que por vezes nos ajudasse a sair da pequenez das nossas perspectivas. Seria importante que nos despertasse a sensibilidade artística, e a iluminação, e que em vez de nos asfixiar passasse a dar espaço a outras interpretações. Em suma, que o seu cariz fosse essencialmente formativo, nos garantisse qualidade, e nos permitisse saborear uma infinidade de momentos verdadeiramente eloquentes. Mais do mesmo, não muito obrigada.

Saturday, September 13, 2008

Só às vezes/Only sometimes

às vezes gostaria de estar no sítio onde as ondas
morrem na areia e desfazer-me em espuma.
aí perder-me para sempre como se não existisse
nada senão a altura das árvores

sometimes I would like to be where the waves die
in the sand and to vanish in foam.
to get lost forever as if nothing would exist
except for the height of the trees

Francisco José Viegas

Friday, September 12, 2008

Wonderland - a cup of tea

A mesa era grande, mas os três encontravam-se amontoados uns nos outros a um canto; «Não tens lugar! Não tens lugar! Gritaram eles quando viram Alice a chegar. «Há imenso espaço!» respondeu-lhes a Alice indignada, sentando-se numa poltrona numa das cabeceiras da mesa. «Queres vinho?» perguntou-lhe a Lebre de Março num tom encorajador. Alice olhou para a mesa, mas não viu mais nada senão chá.

The table was a large one, but the three were all crowded together at one corner of it: «No room! No room!» they cried out when they saw Alice coming. «There’s plenty of room!» said Alice indignantly, and she sat down in a large arm-chair at one end of the table. «Have some wine» the March Hare said in an encouraging tone. Alice looked all round the table, but there was nothing on it but tea.

Lewis Carroll

Thursday, September 11, 2008

Inquietações

Não consegui nunca ver-me de fora. Não há espelho que nos dê a nós como foras, porque não há espelho que nos tire de nós mesmos. Era preciso outra alma, outra colocação do olhar e do pensar. Se eu fosse actor prolongado de cinema, ou gravasse em discos audíveis a minha voz alta, estou certo que do mesmo modo ficaria longe de saber o que sou do lado de lá, pois, queira o que queira, grave-se o que de mim se grave, estou sempre aqui dentro, na quinta de muros altos da minha consciência de mim.

Wednesday, September 10, 2008

Frustração/Frustration

Muito infeliz
Quando não consegue extrair,
Da espuma de cada dia,
Algum despojo menos efémero:
Uma concha, uma alga, um sabor a sal.

Very unfortunate
When you do not manage to find,
Of the foam of each day,
More than pickings as short-lived as:
A shell, seaweed, or the taste of salt.



David Mourão-Ferreira

Tuesday, September 9, 2008

Reclassificação

A palavra é curva. Nunca atinge
O alvo. Só o silêncio
É recto.
Mas a chama de um e de outro
Limpa a lepra do tempo
E descobre a fonte branca
Como o desenho latente que na página respira


António Ramos Rosa

Monday, September 8, 2008

Biliões de estrelas


Ao observar o céu, na maioria dos casos é o passado que se contempla. As estrelas da nossa galáxia, e as galáxias que vemos, terão talvez desaparecido, desde há anos, ou mesmo milhares de anos. Entretanto, a partir do gás interestelar outras nasceram em seu lugar, cuja luz não nos chega ainda. Porém, a longo prazo, todas acabarão por se fossilizar, prosseguindo a sua divagação no imenso vazio do espaço intergaláctico.

Sunday, September 7, 2008

Saturday, September 6, 2008

The best of times

Someday he'll come along/The man I love/And he'll be big and strong/

The man I love/And when he comes my way/I'll do my best/To make him stay

He'll look at me and smile/
I'll understand/And in a little while/He'll take my hand

And though it seems absurd/I know we both/Won't say a word


George Gershwin/Ira Gershwin

Friday, September 5, 2008

Flutuando

Um nenúfar flutua
na mesma água
que a Lua.


Jorge de Sousa Braga

Thursday, September 4, 2008

Postos à prova

Tinham o paraíso ao seu alcance, mas perderam-no porque infringiram a ordem que Deus lhes dera de não comerem da árvore do conhecimento do bem e do mal. A noção de pecado está ligada à liberdade, porque se ela existe imediatamente se coloca a possibilidade de transgressão. O Deus da Génese é o criador dessa mesma autonomia, e a ideia de que a vida poderia ser um paraíso ocorre-nos frequentemente, mas parece que acontece sempre qualquer coisa que tudo faz desaparecer. Afinal a história de Adão e Eva também se aplica à nossa condição de pais, quando a queda é inevitável, por mais perfeitos que desejemos ser.

Wednesday, September 3, 2008

Esvoaçante






Onde te encontrei: pomba
que pousa por instantes, que procura
uma saída sobre os muros, e
se perde por entre varandas e cordas.



Nuno Júdice

Monday, September 1, 2008

Saturday, August 30, 2008

Prende-me

prende-me aos teus braços com fios de água
e cordéis da tarde de prata. esqueci os ferimentos
mais dolorosos, as noites de neblina quando o barco
rompia as águas do mar. agora quero que
me prendas aos teus braços até que sequem as
romãs e venha a chuva a água mais pura tocar
o rosto, rememos juntos pelo rio até à casa
mais branca das suas margens

vi já os melhores espíritos da minha geração
morrerem de orgulho e de fome vi já a tempestade
levar muitos corpos até ao mar
vi gerações inteiras morrer de orgulho

agora prende-me aos teus braços.

Friday, August 29, 2008

Proximidade e distância

No mito, Dafne é uma encantadora jovem que gosta de correr pelos bosques, caçando, porém, atrai a atenção do grande deus Apolo, que imediatamente se apaixona por ela. Este persegue-a, tentando convencer a linda ninfa a não fugir, no entanto ela não reage, tornando-se ainda mais aliciante. É como se existisse uma certa atracção em escapar à intimidade, não apenas para quem foge, mas também para quem persegue.
Quando Apolo parece estar prestes a apanhá-la, ela pede ajuda ao pai, Peneu – o deus do rio, e ouvida a sua prece, fora do alcance de Apolo gradualmente se vai metamorfoseando numa frondosa árvore, sublimação da natureza, que se ergue para o céu, ramificando os braços em direcção à pureza e transcendência. A resistência de Dafne - intocável, em segurança dentro da sua casca, e sem ligação ao mundo, surge-nos como a ressurreição da vida vulgar em poesia.
Quando Apolo finalmente a apanha, decide colher as folhas de louro – ramos dessa mesma árvore, que passam a representar uma espécie de celebração após a luta. A sua luxúria acaba por se realizar simbolicamente, em vez de fisicamente. Quanto a Dafne poderá ter escapado a Apolo optando pela fuga como forma de vida, mas não deixa de perder a sua liberdade, ao tornar-se num ser com raízes na terra, e sujeito ao seu clima. Oscilar entre estas duas reivindicações do coração pode por vezes ser um combate frustrante e infindável. Perseguir e fugir, ou ser sensual e casto acabam assim por ser contradições da própria vida.

Tuesday, August 26, 2008

Os pássaros/The birds

Ouve que estranhos pássaros de noite
Tenho defronte da janela:
Pássaros de gritos sobreagudos e selvagens
O peito cor de aurora, o bico roxo.
Falam-se de noite, trazem
Dos abismos da noite lenta e quieta
Palavras estridentes e cruéis.
Cravam no luar as suas garras
E a respiração do terror desce
Das suas asas pesadas

Hear what strange birds I have
In the night outside my window.
Birds with wild and shrill cries,
Dawn-coloured breasts and purple-red beaks,
They talk at night, they bring
Strident, cruel words
From the depths of the slow, still night,
They sink their claws into the moonlight,
And the breath of terror descends
From their heavy wings

Sophia de Mello Breyner Andresen
Translated by Richard Zenith

Sunday, August 24, 2008

À volta do ego

Eu não fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento.

Saturday, August 23, 2008

Ingenuidade/Naive

Foi aí pelos doze anos,
E era Verão: durante alguns dias
Cometeu a imprudência
De pensar que o Mundo
Poderia ser perfeito.

He was about twelve years old,
And it was summer: for a while
He was naïf enough
To think that the World
Could be perfect.

David Mourão-Ferreira

Friday, August 22, 2008

O peso do ouro/ The golden weight

Somos tão poucos, mas à distância tantos foram os que ontem o seguiram como a última esperança. E levado pela ambição e exigência própria dum super atleta, num espectacular triplo salto de mais de 17 metros, voou para o ouro, alcançando o pódio, numa competição digna de um campeão.
Os primeiros saltos da escola secundária serviram-lhe de impulso, desenvolvendo depois um árduo trabalho ao longo dos anos, quando ultrapassou adversários, sem nunca deixar de acreditar. Tal como Carlos Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro, Nelson Évora fica também para a História com o seu positivo desempenho. Que todos vibremos, com a próxima missão olímpica de Londres, já com 2012 em mente.


Nelson Evora won yesterday the first gold medal for the country, by edging his opponents in men's triple jump at the Beijing Olympic Games. His 17,67 metre result has made the top performance of all Portuguese athletes so far.

Thursday, August 21, 2008

Rumor/Murmur


Acorda-me
Um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
A querer voar.

A levantar do chão
Qualquer coisa que vive,
E é como um perdão
Que não tive.

Talvez nada.
Ou só um olhar
Que na tarde fechada
É ave.

Mas não pode voar.


Birds awaken me,
A rumour of light.
Perhaps it is the afternoon
Wishing to take flight.

Rising from the ground
Something that is living,
Just like the forgiveness
That I was never given.

Nothing in the room.
Or just a gaze
That in the sinking afternoon
Is a bird.

That cannot soar or blaze.

Eugénio de Andrade

Wednesday, August 20, 2008

O outro lado

Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a ninguém.

Mark Twain

Tuesday, August 19, 2008

Pela manhã


Monday, August 18, 2008

Everytime

Everytime we say goodbye, I die a little,

Everytime we say goodbye, I wonder why a little,

Why the Gods above me, who must be in the know.

Think so little of me, they allow you to go.

When you're near, there's such an air of spring about it,

I can hear a lark somewhere, begin to sing about it,

There's no love song finer, but how strange the change from major to minor,

Everytime we say goodbye.

Cole Porter

Saturday, August 16, 2008

Olhares indiscretos

«Com ambrósia, começa por apagar do seu corpo desejável todas as impurezas. Unta-o a seguir com um óleo gorduroso, divino e suave, cujo perfume é feito por ela; quando ela o agita no palácio de Zeus na entrada de Bronze, o seu aroma inunda a terra e o céu. Unta com ele o seu belo corpo, depois penteia os cabelos com as próprias mãos e entrança-o em tranças luzidias, que pendem, belas e divinas, do alto da sua fronte eterna»
Ilíada de Homero, XIV, 170-177 (sobre Hera)
«Após o que veste um vestido divino que Atena para ela havia feito e polido; juntando-lhe grande número de ornamentos. Com broches de oiro prende-o no colo. Cinge-se com um cinto de cem franjas. Nos lóbulos furados das suas orelhas enfia os brincos, de três gemas cada, grandes como amoras, de um brilho infinito. A cabeça, por fim, cobre-a a divina com um belíssimo véu, ainda por estrear, branco como o sol. Nos formosos pés, calça belas sandálias»
Ilíada de Homero, XIV, 178-186 (sobre Hera)

Friday, August 15, 2008

Wednesday, August 13, 2008

Nem grande nem inteligente

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país,
talvez nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Tuesday, August 12, 2008

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga

Monday, August 11, 2008

Poente

Como sempre, o vento
caiu ao fim da tarde, com a calma
branca dos muros; e as horas
estendiam-se pelo campo,
como os pássaros do poente.
Mas doíam-me as dúvidas
que trouxe deste dia; e
colei-as às flores de uma árvore,
para que delas nasçam
os frutos luminosos de amanhã.
De noite, quando me esquecer
da ondulação verde da terra,
ouvirei o silêncio - e nas suas palavras
contarei as sílabas mudas do amor,
enquanto o mundo não acorda.

Nuno Júice

Friday, August 8, 2008

Desígnios da Universalidade


Já 2500 anos antes de Cristo, que a cada quatro anos, centenas de atletas se reuniam para disputar um conjunto de modalidades desportivas. Ainda hoje os Jogos Olímpicos reflectem a disciplina de toda uma sociedade, mantendo a sua dimensão religiosa pela pacificação, tal como na civilização grega se promovia a amizade e a unidade helénica. Esta forma desportiva ritualista teve hoje dia 08-08-08 a sua cerimónia de abertura, na China, que através dos 29º Jogos Olímpicos de Verão projectam o país no futuro, quando os grandes atletas irão ficar na nossa memória colectiva para todo o sempre.

Tuesday, August 5, 2008

Brisa de Verão

«…… De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.»

António Ramos Rosa

Monday, August 4, 2008

Existências

Quem me lá levou foi uma amiga em comum. Surpreendi-a no seu recôndito recanto, entre o colorido de mil flores, e alguns dos seus animais de estimação. A saber as cadelas Diana, e Carlota, o coelho Nini, e a galinha Nandinha. Com isto espero não estar a cometer nenhuma inconfidência, pois afinal foi há pouco tempo que me aproximei da Mécia, a propósito do seu fantástico quadro «Outono no Canal». Fui em busca de mais obras-primas, mas surpreendentemente constatei, que apenas pinta há 2 anos, e é na salinha da máquina de costura que me deparo com os arcos de Faro, Lagoa, e Albufeira, executados a lápis de aguarela, quando se inicia. Por cima da lareira encontra-se o seu quadro das «Papoilas» em pastel seco, enquanto que a «Rosa» tem lugar de destaque no quarto, ambos de 2006. O ponto de cruz é também o seu forte, e já em 1998 o jeito lhe é reconhecido através duma menção honrosa, num concurso a que terá participado em Vila Nova de Gaia. Mas os seus talentos não ficam por aqui, e apesar de lhe notar uma certa reserva, inesperadamente prolonga-nos a tarde partilhando connosco um momento poético. Os sons, e as cadências despertam um passado adormecido amargurado, que em nada se parece já com o seu presente. Actualmente, os dias para a Mécia decorrem na tranquilidade da sua casa térrea, na companhia dos que lhe são mais fiéis, reproduzindo da sua marquise repleta de luz, uma a uma, as maravilhosas flores que a rodeiam.

No poema ficou o fogo mais secreto
O intenso fogo devorador das coisas
Que esteve sempre muito longe e muito perto

Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, August 2, 2008

Cantar o dia

De palavra em palavra
a noite sobe
os ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

Friday, August 1, 2008

Opções

Não vale a pena contar. Quem teve a sorte de viver, sabe do que falo; quem não viveu, não consegue sequer imaginar. Porque esse Sul que chegava a parecer irreal de tão belo, esse litoral alentejano e algarvio, não é hoje mais do que uma paisagem vergonhosamente prostituída. Sim, sim, eu sei: o desenvolvimento, o turismo, a balança comercial, os legítimos anseios das populações locais, essa extraordinária conquista de Abril que é o poder local. Eu sei, escusam de me dizer outra vez, porque eu já conheço de cor todas as razões e justificações. Não impede: prostituíram tudo, sacrificaram tudo ao dinheiro, à ganância e à construção civil. E não era preciso tanto nem tão horrível.
Podiam, de facto, ter escolhido ter menos turistas em vez de quererem albergar todos os selvagens da Europa, que nem sequer justificam em receitas os danos que em seu nome foram causados. Podiam ter construído com regras e planeamento e um mínimo de bom gosto. Podiam ter percebido que a qualidade de vida e a beleza daquelas terras garantiam trezentos anos de prosperidade, em vez de trinta de lucros a qualquer preço.
E todos os anos, por esta altura, percorrendo estas terras que guardo na memória como a mais incurável das feridas, faço-me a mesma pergunta: Porquê? Porquê tanta devastação, tanto horror, tanta construção, tanta estupidez? Tanto prédio estilo-Brandoa, tanto guindaste, tanto barulho de obras eternas, tanta rotunda, tanta 'escultura' do primo do cunhado do presidente da câmara, e sempre as mesmas estradas, os mesmos (isto é, nenhuns) lugares de estacionamento, os mesmos (isto é, nenhuns) espaços verdes?
Miguel Sousa Tavares

Wednesday, July 30, 2008

Pic-nic

Naquele “pic-nic” de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, indo o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde

Tuesday, July 29, 2008

Um pouco de si

Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso.

Sunday, July 27, 2008

Riqueza da palavra


De há 30 anos a esta parte, é sempre assim, durante o verão. Quem cá passa férias, e quem como eu tem o privilégio de residir no Algarve, vai até à Qta da Balaia, neste período de estio, ouvir a palavra de Deus, em pleno ar livre. Neste domingo tivemos a honra da visita do nosso cardeal patriarca – D. José da Cruz Policarpo, que tentando corrigir-nos a visão do Pai, nos apresentou um projecto, através do qual se glorifica o Filho. Só poderemos evocar o poder, e misericórdia de Deus, através da descoberta da centralidade de Jesus, com quem nos devemos identificar. Na parábola de hoje é realçada esta ideia, comparável a um tesouro escondido, que resistindo a tudo, nos acompanha na etapa definitiva das nossas vidas. Afinal ninguém o alcança, sem uma relação directa com Jesus - o rosto de Deus, e o caminho, que ao cruzar-se connosco nos transmite toda a sua bondade, e beleza.

Saturday, July 26, 2008

Resistência

A minha mente recusou-se a sucumbir aos males
E elevou-se invencível empregando as suas forças;
E esquecendo-me de mim próprio e da vida levada pelos ócios
Tomei com mãos desacostumadas a força do tempo
E afrontei tantos perigos, pela terra e pelo mar
Como estrelas há entre o firmamento visível e invisível.

Ovídio

Friday, July 25, 2008

Troca de Olhares/Eye Contact

Nunca me canso de ouvir, ou trautear «Com açúcar, com afecto, fiz teu doce predilecto…», que nas vozes de Nara Leão, e Chico Buarque, sempre me enlevaram o espírito. É daquelas melodias intemporais, que me fala para dentro, reinventando as magias do quotidiano, e valorizando sentimentos, num verdadeiro processo de renovação. Não deixem de ouvir.

I never get fed up of listening or humming «With sugar and affection, I’ve cooked your favourite desert …» that in the voices of the Brazilian singers Nara Leão, and Chico Buarque, always enlighten my spirit. It’s just one of those timeless melodies, that touches my heart, recreating our daily lives, and talking about feelings in a truly renovation process. Make sure you don’t miss it.

Thursday, July 24, 2008

A olho nu


O tempo de uma vida, mesmo que totalmente dedicado ao estudo do céu, não seria suficiente para a investigação de tão vasto tema […] Por isso, esse conhecimento terá de desenvolver-se ao longo de gerações sucessivas. Tempo virá em que os nossos descendentes se surpreenderão por não sabermos coisas que são tão óbvias para eles […] O nosso universo seria uma coisa insignificante se não houvesse sempre nele algo a ser investigado por todas as gerações que vão surgindo […] A natureza não revela os seus mistérios de uma só vez.

Séneca, Questões Naturais, livro 7, século I

Tuesday, July 22, 2008

Smart Parade


A transformação de carros Smart em obras de arte, partiu da iniciativa da CADin – instituição de solidariedade social, que ajuda a promover a integração de cerca de cem mil crianças portuguesas com perturbações no desenvolvimento, na nossa sociedade, de cuja equipa faz orgulhosamente parte a minha sobrinha Carolina. Vinte destas viaturas oferecidas pela Mercedes-Benz Portugal irão ser leiloadas no Casino Estoril, numa cerimónia com Jantar de Gala, a ter lugar no próximo dia 30 de Outubro, com o objectivo de angariar fundos. Até lá, tal como eu, delicie-se com todo este colorido no exterior do Algarve Shopping.

The conversion of Smart cars into works of art, came from CADin - institution of social solidarity, that helps promoting the integration of approximately one hundred thousand Portuguese children with disturbances in the development, and of whose team my niece Carolina is proudly part of. Twenty of these vehicles offered by Mercedes-Benz Portugal will be auctioned at the Casino Estoril, at a Gala Dinner to take place on the 30th of October, seeking to raise funds. Until then, delight yourselves with this entire colour outside the Algarve Shopping.

Monday, July 21, 2008

Rotina

Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu – um outro dia, e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.

Sunday, July 20, 2008

Inevitabilidade cósmica

Elevemo-nos acima desta triste Terra, e vejamos do alto se a natureza esgotou todas as suas riquezas e belezas, neste pequeno pedaço de pó. Deste modo, tal como os que viajaram por países longínquos, poderemos avaliar melhor o que entre nós foi feito, e atribuir a cada coisa o seu justo valor. Passaremos a admirar menos o que neste mundo se considera grande, e desprezaremos mesmo essas ninharias às quais a maioria dos homens se prende, quando soubermos que existe um grande número de Terras habitadas como a nossa, e como a nossa tão belas.