Wednesday, February 8, 2012

Expansão de horizontes

Tudo está lá. Nas imagens perfeitas, que nos esvaziam, e fazem perder o sentido da distância. Advinha-se muito mais do que se vê, dando lugar ao espaço abstracto atrás do qual se esconde no decurso dos dias.

Sunday, February 5, 2012

O lugar de silêncio

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder

Friday, February 3, 2012

Uma manhã

A manhã é um leque
branco
desdobrado até
aos quatro pontos cardiais

Sol branco
imperador fraterno
do azul muito ténue

Alberto de Lacerda in Átrio (1997)

Thursday, February 2, 2012

A estreiteza dos dias

Fevereiro, o mais curto mês e o menos cortês.

provérbio popular

Monday, January 30, 2012

Lugar surpreendente

Todos os anos, por esta altura, sou reconduzida ao mesmo espaço de magia. Quando, caindo na tentação de repetição, regresso ao local que, ultrapassa todas as expectativas, num percurso marcado pela subtileza e exuberante intangibilidade.

Sunday, January 29, 2012

Ao domingo




Para aconchegar o final das manhãs de domingo, nada melhor do que uma versão light de brunch, à sombra das buganvílias. À mesa, não falta o sumo de laranja natural, os ovos escalfados ou mexidos com cebolinho, o cesto com vários tipos de pão, e o mel da minha cunhada Patrícia, para degustar sem pressas.

Saturday, January 28, 2012

A incerteza dos dias


Num momento em que a austeridade tem um efeito devastador, e o presente compromete o futuro, falta criatividade a um país que, de dia para dia, parece diminuir. Porque a reestruturação da economia não se faz afundando-a, e sem qualquer visão de crescimento, dificilmente ultrapassaremos a crise. O que se esvaziou ao longo dos tempos, e poderia agora servir-nos para ao menos nos sustentar, esfumou-se num projecto europeu falhado sem soluções colectivas à vista.

Friday, January 27, 2012

O outro lado do tempo



As nuvens sobrevoaram os poemas. Os poemas desapareceram. Submersos no limbo. Ou ocultados por uma folha amarelecida, quase ao rés da terra, na floresta nocturna de repente incognoscível. Os poemas foram deslizando para o outro lado do tempo. Quem os escreveu deu-os por perdidos, dolorosamente ignorante da viagem secreta.

Os poemas desapareceram.

Contradizendo o abismo irremediável, os poemas emergiram na manhã seguinte. Cobertos de orvalho.

Alberto de Lacerda in O Pajem Formidável dos Indícios (Assírio Alvim
)

Thursday, January 26, 2012

Na solidão da noite


(…) E ele atravessa a rua, passando pelo tempo, de pedra em pedra, com um cigarro na mão para pedir lume ao cigarro alheio, que brilha no outro lado, ao cimo dos três degraus.
Vai ser assim: dá-me lume, por favor?, e o cigarro encostar-se-á ao seu, o lume passará de um para outro, de uma pessoa para outra pessoa, e então, no meio da eternidade deserta, será sim o dia de hoje.
Mas a noite é imensa, quer dizer: a noite do lugar e do tempo, a noite da nossa solidão — é imensa, e apenas um pequeno órgão vivo palpita algures, vibra rapidamente, e amortece-se, e desaparece.
Então, uma vez mais a noite se levanta de nós, e o que estremece é a carne, a nossa, cega e desamparada — mas fremente na sua cegueira e desamparo.
Sabes que estás só? — pergunta a carne à carne —, sabes que a noite se ergueu de ti, como se fosses o seu próprio e único talento, e que esse talento te cerca como uma atmosfera, o morto clima que transportas em ti, de um lado para outro, ao longo das pedras, ao longo de todos os
lugares do homem?
Ela sabe, ou pelo menos sabe que sabe.
E é demasiado.
Por isso, olha e espera.
E vê de novo a brasa que estremece na escuridão como uma planta que crescesse e florescesse na terra negra, ou um animal cujo calor abrisse uma brecha no tempo frio.
A carne embriaga-se com imprecisas metáforas de salvação — que salvação?! — com um movimento subterrâneo de analogias, e ele diz: vou pedir-lhe lume.


Herberto Helder in Apresentação do Rosto - editora ulisseia 1968

Monday, January 23, 2012

Despertar

(...)Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada!



Florbela Espanca in Vaidade

Saturday, January 21, 2012

Estado puro






A terra em Monchique é pedregosa, os arbustos enormes, e toda a demais vegetação é densa e exuberante. Particularmente notória é a transparência da água, e o misterioso contorno das rochas que, lhe imprimem uma infinita grandeza. A chegada a Fóia permite-me um outro fôlego, que elimina quaisquer palavras. Suspensa do topo, acima de qualquer compreensão, reflicto sobre o que realmente me é indispensável, ou terá utilidade futura, no final dum tempo, que ascende à redescoberta de outros horizontes.

Wednesday, January 18, 2012

Apelo


Como a nuvem,
a deslizar no infinito
a fazer-se e a desfazer-se
em outras formas,
tu não esperas por mim.

Guarda por um instante
a fantasia
segura as minhas mãos
e atende-me.

Maria Alexandre Dáskalos in Jardim das Delícias

Sunday, January 15, 2012

A debandada


Neste espaço sem espaço
a incógnita dos dias
de tons frios e sombrios
e luta contra o infortúnio
há quem transponha fronteiras
atravessando o tempo
lado a lado
sem deixar rasto

Thursday, January 12, 2012

A travessia


Na sequência dos dias que se combinam e entrecruzam, é o olhar que me guia pela esfericidade do mundo, entre reflexões e divagações gerais num exercício de liberdade plena.

Tuesday, January 10, 2012

A magia de um instante

Da flor de Janeiro, ninguém enche o celeiro.

provérbio popular

Monday, January 9, 2012

Fragilidades


A vida é nuvem que voa

João de Deus

Sunday, January 8, 2012

O minúsculo sol


Longe de mim querer corromper a juventude,
É um trabalho que sobreleva as
Minhas capacidades.
Antes cicuta.
Mas tenho que explicar o sentido
Da palavra “desesperança”.

É uma esperança negativa.
A gente senta-se num cais
E deixa o sol trabalhar.
O sol minúsculo, isto é, o calor na pele.
Chamo a isto a experiência mínima.

Feito isto:
Venha de lá então
Essa catástrofe.

Manuel Resende, O mundo clamoroso, ainda (2004)

Saturday, January 7, 2012

Pontos de reflexão

Uma a uma retiro cada uma das decorações natalícias. Começo com as da árvore, seguidas das figuras do presépio, que cuidadosamente armazeno em caixas.
Desmanchar, desfazer, desconjuntar, e voltar a arrumar preenche-me toda a manhã, para daqui a um ano voltar a montar, colocar, e dispor, cativa da disciplina do tempo.

Friday, January 6, 2012

O dia de todos os reis

Marcaram-nos o ritmo da História, através de lutas internas e unificação de territórios, esbatendo as mais longínquas fronteiras. Imagino-os de elmos e armaduras e espadas em riste, ou em manjares com música, danças, e cantigas de amigo. Heróis indestrutíveis do nosso imaginário, são tanto do que somos, que deles não podemos deixar de ser, confundindo-se tempos e lugares que nos prolongam uns nos outros.

Sunday, January 1, 2012

Logo se vê

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Saturday, December 31, 2011

Passas e desejos


Interpretar as mudanças, e aceitá-las, é o desafio que nos é proposto, após o ano que se despede. Para trás fica a desmontagem de ilusões através do declínio político. Perder para a China, Brasil, ou Índia tornou o mundo economicamente muito mais justo.
Menos virados para os interesses materiais, e valorizando o que realmente é mais importante para as nossas vidas, saudemos 2012, reorganizando a sociedade, desenvolvendo a criatividade, e sobretudo investindo na entreajuda.

Monday, December 26, 2011

Uma questão de equilíbrio


O homem é feliz enquanto o seu desespero for igual à sua esperança.



Maria Gabriela Llansol (1931-2008)

Sunday, December 25, 2011

Curta metragem


Este foi o Natal que nos convidou a reflectir no bem comum, como se duma vida colectiva se tratasse. Cultivar o amor numa festa que pretende ser interior, é o grito de alma para que uma nova humanidade floresça.

Saturday, December 24, 2011

Força e luz




Dai vida pura, dai força e luz
A quem procura Cristo Jesus.

Tem piedade, ó Mãe das dores,
De nós, teus filhos os pecadores.

Santa Maria, Mãe de Jesus (excerto de cântico de Nossa Senhora)

Thursday, December 22, 2011

Festividades




Foi em espirito de confraternização, em ambiente informal e descontraído, que teve lugar um lanche de Natal com as especialidades tradicionais desta quadra.

Tuesday, December 20, 2011

Árvore da vida

Nos dias que antecedem o Natal, o pinheiro e tudo o que dele possa vir tem um papel crucial na decoração das nossas casas. O aroma que se espalha pelos quatro cantos alerta-nos para o espírito de união e solidariedade desta época festiva.

Monday, December 19, 2011

Caudas dos pavões


Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.


Herberto Helder in Ou o poema contínuo (Assírio & Alvim)

Saturday, December 17, 2011

Uma rua qualquer

(…)
«Nome de rua quieta
onde à noite ninguém passa.
Onde a sombra de um poeta
de repente nos abraça.
Nome de rua secreta
onde à noite ninguém passa.
Onde o ciúme é uma seta,
onde o amor é uma taça.»

David Mourão-Ferreira in Nome de Rua

Wednesday, December 14, 2011

Nada mais quero



Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas de outros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau

Eugénio de Andrade in Lisboa

Friday, December 9, 2011

Um saltinho


Até ao Natal um saltinho de pardal.

Thursday, December 8, 2011

Quem me dera


Quem me dera ter raízes, que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar um passo que fosse em vão.
Que me deixassem crescer silencioso e erecto, como um
pinheiro de riga, uma faia ou um abeto.
Quem me dera ter raízes, raízes em vez de pés.
Como o lodão, o aloendro, o ácer e o aloés.
Sentir a copa vergar, quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado, pelas raízes, ao chão.

Jorge Sousa Braga in Herbário

Wednesday, December 7, 2011

A substância do tempo



A viagem é curta, e de barco depressa se chega do leste de Londres a Greenwich, na margem sul do Tamisa, quando o vento cessa de soprar. Greenwich, uma absoluta referência ao afirmar-se entre as datas de todo o mundo!

Tuesday, December 6, 2011

Cruzando o Tamisa



London Bridge is falling down,
Falling down, falling down.
London Bridge is falling down,
My fair lady!

Monday, December 5, 2011

A sós com o Outono




Por entre a vegetação, perco-me nas cores mais profundas das folhas que, o vento sopra e faz rodopiar. Sigo-lhes o rasto, lá, onde o Outono me desestabiliza infinitamente.