Wednesday, April 4, 2012

Beleza de morrer

De muitas coisas se pode morrer
em
Veneza
de velhice de susto
de peste

ou de beleza

poema de Jorge Sousa Braga

Tuesday, April 3, 2012

À beira-mar

Por uns dias, percorro outras paragens, e adiciono-lhes latitudes onde o mar é a principal atracção. Dividida por diversas imagens, torno-me espectadora da coreografia das ondas que, demasiado longe se desfazem contra as rochas, na região litoral de Cascais.

Sunday, April 1, 2012

A chuva que cai

Em Abril águas mil.


Ditado popular

Friday, March 30, 2012

Leitura da cidade

Abro as janelas
e num exercício do olhar
procuro imagens no horizonte
que se perfila pelo espaço público
em meu redor.
Observo o fluxo dos que circulam
de forma livre e espontânea
que se relacionam e articulam
e se aproximam para falar da vida
compondo movimentos
na pluralidade de gestos
que dinamizam a cidade
até ao entardecer.

Monday, March 26, 2012

Caminhos

Perder-se também é caminho.

Clarice Lispector

Sunday, March 25, 2012

O peso triste

Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos


Gastão Cruz - Orgão de Luzes, Im
prensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1990

Thursday, March 22, 2012

Mundo morto


Cada vez que oiço um comboio à noite sinto que a vida não acaba. Passam por trás das casas, no fim do bairro, uma fitinha de janelas iluminadas, rápidas, que estremecem as árvores, estremecem as molduras na parede, me estremecem a mim, e a seguir as árvores, as molduras e eu a recompor-nos, e a seguir nada. Uma espécie de vento, talvez, antes de tudo quieto de novo. Na fitinha de janelas iluminadas nunca há pessoas: os comboios, à noite, não transportam ninguém, dirigem-se não sei para onde, não chegam nunca a parte alguma: viajam interminavelmente, sem destino, indiferentes aos apeadeiros vazios, com uma balança, um relógio e uma máquina automática de cigarros, por vezes cães enrolados entre os bancos desertos, por vezes um pedaço de jornal às cambalhotas nas plataformas onde nenhum passageiro espera: os comboios, à noite, viajam insones num mundo morto, com as insígnias dos pronto-a-vestir apagados e os olhos dos manequins ocos nas vitrinas, os dedos delicados, de pasta, imóveis numa linguagem de surdos-mudos que o escuro não entende: um pedido de socorro, um cumprimento, um aviso? (...)

António Lobo Antunes in “Meu menino, ino, ino” - Visão, 18 de Agosto de 2005

Tuesday, March 20, 2012

Primavera entre luas

Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
E enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça -
e as palavras nascem.
- Límpidas, amargas.




Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.




Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.




Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria -
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.




Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.




- Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, degrau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.




É primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. - É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.


Herberto Helder in poesia toda (assírio & alvim - 1996)

Saturday, March 17, 2012

Sol de Março

O sol de Março queima a menina no palácio.

ditado popular

Wednesday, March 14, 2012

Antes

Antes de um lugar há o seu nome. E ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável

Lembro-me


do quadriculado verde das colinas,
do sol entretido pelos telhados ao longe,
dos rebanhos empurrados nos carreiros,
de um cão pequeno que se atreveu à estrada.


Íamos ou vínhamos?


Maria do Rosário Pedreira

Saturday, March 10, 2012

A desconstrução do poder


Podia ser um guião dum filme, de acordo com Luísa Monteiro, que apresentou o 2º romance de Sandro William Junqueira – Um piano para cavalos altos. Um olhar distorcido sobre a realidade pós moderna, no seu lado mais assustador, onde só os animais escapam, e se exige a reinvenção dos seres humanos.

Thursday, March 8, 2012

Festa de anos

Em mais um aniversário, a Lurdes reuniu um grupo de familiares e amigos com quem mantem uma relação mais próxima. A boa disposição, a alegria, e uma mesa farta proporcionaram um ameno final de tarde.

Wednesday, March 7, 2012

Uma vida

«(...) Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.»

Jorge de Sena

Tuesday, March 6, 2012

Quando a poesia se contagia

Esta manhã, voltei á escola, e com 2 turmas do 8º e 9º, mergulhei num estado de encantamento ao ouvir a justeza das palavras ao som da guitarra de Afonso Dias. Poemas e fragmentos declamados, rodeados de canções essenciais à vida, e que nos dão a capacidade de sonhar.

Sunday, March 4, 2012

Escolhas

Não há outros paraísos senão os paraísos perdidos.

Jorge Luis Borges (1899-1986)

Friday, March 2, 2012

Palmos de terra

Assim como as flores
uma a uma se despem das suas pétalas
também nós nem por milagre
conseguimos escapar
à perda dum fôlego
face a um fatídico quotidiano
que não se furta
em nos vergar pelo peso da culpa
e ao qual só os mortos são imunes

Thursday, March 1, 2012

O regresso

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:
pois por longos que sejam os caminhos
eu regresso


Sophia de Mello Breyner Andresen

Wednesday, February 29, 2012

Em trânsito


Ao passear o meu fiel amigo
cruzo os gestos com o olhar
e colho do chão da terra
todas as flores brancas do tempo
e do espaço por onde passam
os dilemas do meu dia a dia.
A felicidade constrói-se ali
em improvisação permanente
que brota da inacessibilidade
de uma paisagem mais agreste.

Monday, February 27, 2012

Sem tempo

O nevoeiro envolve devagar
Casas e almas
Entranha-se na escrita e molha-me
As palavras
Que nascem da manhã num trabalho de parto
Suave e melancólico.

Sinto nas vértebras a indecisão
Da vida,
A memória encoberta,
Todo o meu corpo se dissolve
Numa cinza líquida.
Morrer assim, seria a despedida do meu signo,
Água na água,
Assim como era no princípio.
Sinto o passado fluir
Por entre sombras que o presente
Não quer interpretar.
Fluidos são também os prédios que me deixam
Num mar de leite aéreo,
Droga feliz, sem álcool, sem química,
Sem ressaca.

Futuro? Que futuro?
São as próprias palavras que já nascem
Sem tempo.

Agora nada me devora.
Se eu próprio erguesse os braços como um espectro,
Quem me apontaria o caminho,
Aqui,
Neste país submerso?


Armando Silva Carvalho

Sunday, February 26, 2012

Êxito e lucro

O mundo é conduzido por loucos e ambiciosos, que só têm em mira o êxito e o lucro, estão-se nas tintas para as preocupações dos poetas, que são, como toda a gente sabe, seres da utopia, essa utopia sem a qual não há progresso.

Eugénio de Andrade

Saturday, February 25, 2012

Trago nas mãos

Trago nas mãos um búzio ressoante
Onde os ventos do mar se reuniram,
e das mãos, ou do búzio murmurante,
alastra em cor e som irradiante
A beleza que os olhos despiram

José Saramago in Os Poemas Possíveis(Portugália, 1966)

Friday, February 24, 2012

Destaque

Decorreu neste fim de tarde, na Biblioteca Lídia Jorge, mais uma sessão integrada no ciclo de literatura de língua inglesa, pelo professor António Lopes da Universidade do Algarve. Invocando palavras e imagens, homenageou-se Oscar Wilde, dos êxitos à polémica da homossexualidade, que o terá levado à queda. Segundo este autor de linguagem acessível, humor refinado, exibicionista, e vaidade sem paralelo, a arte deveria transformar-nos o olhar e guiar as nossas vidas. Difícil seria mesmo imaginar melhor.
«A certeza é fatal. O que me encanta é a incerteza. A neblina torna as coisas maravilhosas.»
Oscar Wilde

Tuesday, February 21, 2012

Retratos vivos

Ocultos de nós próprios, vivemos como se usássemos máscaras. Debaixo delas tudo se oculta e inventa a cada passo como forma de libertação, manipulando na sombra a transparência que a realidade omite.

Sunday, February 19, 2012

Procura-se futuro

Primeiro abatem-nos o sistema produtivo. Destruído o consumo, com o andar da carruagem, o empobrecimento torna-se de igual modo enigmático, generalizado. Crescemos pouco, sem que um novo caminho nos seja apontado, e com uma economia tão pequena e sem protecção, tudo o mais parece resvalar. A crise não pode resultar duma culpa moral, e a preocupação com o amanhã, infelizmente, não depende apenas da nossa vontade. As hesitações numa solução, e uma moeda demasiado forte mergulharam-nos no início do fim da Europa.

Saturday, February 18, 2012

Outras há

Vem ver a vida
passar silenciosamente
como a ave no ar claro.

Vê-a que desce. Prende-a.
Nas tuas mãos em concha
fica um instante.

Deixa-a fugir. Outras há.


Ruy Cinatti in O Livro do Nómada Meu Amigo (1981)

Wednesday, February 15, 2012

Interlocuções

E quando o céu se torna tenebrosamente nublado, tento recolher o maior número de imagens meio esquecidas. Por esse caminho, elas quase ganham voz, emergindo num diálogo que guardo em silêncio do que pode vir a ser fatídico.

Tuesday, February 14, 2012

Quando fecho os olhos

Em longa e exultada sequência de passos, vou avançando para um terreno de curvas e contracurvas. Numa fase de aproximação de incontrolável ímpeto, troco segredos e confidências, e dou e recebo afectos cedendo ao inevitável.

Sunday, February 12, 2012

Sopro

A vida é sopro suave.

João de Deus

Saturday, February 11, 2012

Abismo interior

Há um raio de sol que nem sempre nos aquece. Ao alcance de todos, escapa-se-nos, e regressa de igual modo enigmático para lá de todas as suas qualidades.

Friday, February 10, 2012

A esperança

(...) Estava para lá da desilusão. Era cada vez menos a mãe dele. Sentia-se condenada e não abençoada. A maternidade abençoava. Aquilo não. O rapaz limpou-se às mangas, tentou talvez abraçá-la, mas ela fugiu-lhe, e ele pensou que estava obrigado a conquistar tudo de novo. Tudo o que seria seu por natureza, e que a natureza se esforçara por lhe levar, ele teria de reconquistar. Era como encontrar modo de regressar a uma máe. Voltar ao interior que tudo imagina e renascer perdoado, um filho perfeito. Os filhos perdoados são outra vez perfeitos. Ficou com essa esperança.
Valter Hugo Mãe in O filho de mil homens - Alfaguara 2011