O ritmo é sincopado, com
tanto de subtil quanto de intensidade dramática, quando os movimentos do corpo
adquirem um estilo coreográfico próprio produzindo o som que tão bem conhecemos
de tantos filmes, de uma determinada época. O resultado do sapateado só poderia
ser surpreendente para quem vê e escuta!
Friday, July 12, 2013
Thursday, July 11, 2013
As escamas sem brilho
mente, na fosforescência da sua nudez. Nos inters-
tícios, uma luz rugosa deixa rolar as
escamas sem
brilho dos peixes mortos.
A tarde é um relâmpago apagado, sem fulgor. São
as vésperas da noite, dizem, mas o espaço volatilizou-se,
as estrelas, móveis, tombaram em cascata no fundo
do poço.
É o vazio do círculo, a sua face excêntrica.
Albano Martins in O Mesmo Nome - Campo das Letras, 1996
Wednesday, July 10, 2013
Tuesday, July 9, 2013
Uma beleza maiúscula
Sempre que penso em ti estás a dançar levemente num clima de canela despenteada, ó aroma
vagaroso, desordem aérea, mas a memória tem pressa, o sangue tem pressa
interna, e antes de pensar tremo, e depois tremo, pelo meio desenvolve-se o pavor de uma beleza maiúscula, o coração
corre entre iluminuras rápidas, é uma criança sucessiva nas pautas da musica,
assim escrevo uma nação simultânea, desapareces na respiração do teu vestido,
entretanto a revelação anuncia-se pelo medo, curvas-te como as aldeias
devoradas pela lua, mais tarde sempre que penso em ti estás com um lenço
escrito nas duas mãos, e a tua velocidade abranda junto aos espelhos,
expandes-te assim lentamente gravada, és uma floresta de silêncios visíveis, sempre
que penso penso sempre ao contrário do fim, estás cada vez mais no princípio de
ti mesma, então vejo que nesse lugar é o meu começo eterno, quando danças é um
corpo rodeando a brancura rodeada ou de novo qualquer coisa criminal entre o
cuidado e o espaço, nas linhas puras da solidão arde a cabeça, arde o vento,
atrás de ti as imagens assassinas da noite - estrelas: subversão da noite,
sempre que penso em ti danço até à ressurreição do tempo.
Herberto Helder in Os animais carníveros
Monday, July 8, 2013
Reveses dum jogo
Os dias confundem-se
alimentando desconfianças
num espaço sem espaço
onde a noção do tempo se diluiu
Espartilhados pela rigidez
há um certo sentimento de colapso
no ar
onde os sonhos se perderam
por aí além
resignados à fatalidade
de intensidade dramática
que só acrescenta
mais desespero às nossas vidas
Sunday, July 7, 2013
Coisas de Verão
Só pelo prazer,
mergulho, vagarosamente, neste mar imenso. Dispenso a exposição ao sol, e a
angústia de pensar de dimensão trágica. Tendo em conta que se tornou difícil
aceitar tanta realidade, e perante um vazio ainda maior, opto por multiplicar
as retrospectivas, porque o caminho também se faz flutuando.
Saturday, July 6, 2013
A semente do fruto
Os navegadores gregos espalharam-nas
pela região mediterrânica, e em Fevereiro e Março as inúmeras árvores
proporcionam-nos um deslumbrante espectáculo, ao mesmo tempo que nos anunciam a
Primavera. Nos meus passeios com o Rico, episódios destes repetem-se inscritos
na natureza do olhar. Para o mês que vem, estarão prontas a colher para a
confecção de doçaria e utilização de óleos e essências. Uma autêntica dádiva
dos deuses e verdadeira fonte de inspiração.
Então Israel, seu pai, disse-lhes:
«Se tem que ser assim, que seja! Coloquem alguns dos melhores produtos da nossa
terra na bagagem e levem-nos como presente ao tal homem: um pouco de bálsamo,
um pouco de mel, algumas especiarias e mirra, algumas nozes de pistache e amêndoas.»
Génesis 43:11
Friday, July 5, 2013
Thursday, July 4, 2013
Uma guerra civil
O poema pode conter:
coisas certas, coisas incorrectas, venenos para
manter fora do alcance
excursões campestres, falhas de memória
uma bicicleta caída junto às primeiras paixões
sombrias
Pode conter Le matin, Le midi, Le soir
audácias típicas de um visionário
uma guerra civil
um disco dos Smiths
correntes marítimas em vez de correntes literárias
José Tolentino de Mendonça in O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim
coisas certas, coisas incorrectas, venenos para
manter fora do alcance
excursões campestres, falhas de memória
uma bicicleta caída junto às primeiras paixões
sombrias
Pode conter Le matin, Le midi, Le soir
audácias típicas de um visionário
uma guerra civil
um disco dos Smiths
correntes marítimas em vez de correntes literárias
José Tolentino de Mendonça in O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim
Wednesday, July 3, 2013
O estado de irrealidade
E de repente chegou a Rainha. Quis jogar críquete com Alice,
e foi uma confusão.
O gato fez cair a Rainha...!
Porém, ao levantar-se... ela gritou que lhe faltavam os
brincos!
- Eu não os tirei! Disse a Alice assustada.
- O meu carrasco vai-te cortar a cabeça - anunciou a Rainha.
- Levem-na para a cela! - gritou furibunda.
Nesse momento Alice voltou ao mundo real...!
Tinha tido um pesadelo?
Olhando em volta descobriu o coelho branco junto a uma árvore
florida.
O coelho afinal existia mesmo!
Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas
Tuesday, July 2, 2013
O cenário
Obediente e submisso, ignorou
realidades e acreditou que a austeridade seria a solução, ultrapassando tudo o
que estava previsto, por mera opção ideológica. De crise em crise, e
insatisfeito com os seus próprios resultados, partiu. Exige-se um pouco de
folga, e uma mudança de rumo que permita que a economia, finalmente, cresça.
Monday, July 1, 2013
Sunday, June 30, 2013
Saudade
O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.
Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.
Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que
te ergues.
Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.
Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.
O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no
meu,
um rio se vai aguando até
ser mar.
Saturday, June 29, 2013
Visões
Crescem selvagens, em várias
direcções, cobertos de espinhos, de onde também surgem flores deslumbrantes com
pétalas amarelas ou alaranjadas. No meu caminho dos cactos, os frutos, quando
maduros, são alongados e carnudos, apresentando cor roxa de polpa refrescante e
sabor exótico aos quais se atribuem não só propriedades curativas como afrodisíacas!
Aqui, nas mais quentes e áridas regiões, onde eu e o Rico nos encontramos, os
cactos (de altura média de uma pessoa) têm servido, até aos nossos dias, para
demarcar os terrenos uns dos outros, e nos deliciar com todo o seu colorido e
magia.
Friday, June 28, 2013
Thursday, June 27, 2013
Se te pedirem
Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha
história
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não
contes
que o mar és tu
e a nau sou eu.
Fernanddo Namora
Wednesday, June 26, 2013
Pedaço de vida
Vulgarmente designada por orquídea
selvagem, a anacamptis pyramidalis não se restringe a um maravilhoso colorido
arroxeado. Ao seguir-lhe o rasto pelo ligeiro aroma adocicado, observo como a fragilidade
da sua singular forma de pirâmide, se projecta num jogo de imagens de sonho, na
lentidão do tempo.
Tuesday, June 25, 2013
Experiência gastronómica
Visualmente muito apelativa, a
cozinha japonesa não se limita ao sushi. Elaborada com arte, sofisticação e
requinte, desperta-nos os sentidos mais adormecidos, através das suas cores,
aromas e delicados sabores. A não perder.
Monday, June 24, 2013
O bafo no rosto
Quero um erro de gramática
que refaça
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
Herberto Helder in Ofício Cantante - Poesia Completa, 2009
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
Herberto Helder in Ofício Cantante - Poesia Completa, 2009
Sunday, June 23, 2013
A nu
Irá surgir-nos diferente, de uma beleza inusitada, quebrando
a monotonia de outras noites. Tantas vezes esquecida, entre a luz e as trevas a
sua proximidade será maior, e iremos redescobri-la, através de mil e um olhares
que, sobre ela incidirão lançando sobre o mar a sua gigantesca sombra.
Saturday, June 22, 2013
Aprender a meditar
A energia da alma está
relacionada com os nossos valores originais. É ela que nos guia e dá qualidade
aos nossos pensamentos. Para que eu me possa recolher é crucial entender que
não preciso ficar apegado aos acontecimentos rotineiros ou às marés da vida. A
meditação ajuda-me a construir esse poder. Aprendo a ficar mais quieto. Desenvolvo
uma disciplina interior. Distancio-me da influência das situações externas que
me prendem nas teias dos sentimentos e emoções. Ao alcançar esta dimensão
interna, desfrutarei de liberdade e da verdadeira essência do ser.
Friday, June 21, 2013
Thursday, June 20, 2013
Todos os sonhos
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Fernando Pessoa in Tabacaria
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Fernando Pessoa in Tabacaria
Wednesday, June 19, 2013
À tona de água
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.Luís Miguel Nava
Tuesday, June 18, 2013
Noite de jazz
Para atrasar a morte vamos abrir a noite
com música de
jazz Percorrê-la depois
num barco de borracha Celebrar o segredo
num barco de borracha Celebrar o segredo
Enforcar a
memória Descobrir de repente
uma ilha que nasce
dentro do teu vestido
Chamar-lhe
Madrugada Adormecer contigo
David Mourão-Ferreira
Monday, June 17, 2013
Sunday, June 16, 2013
Feitas as contas
Mais do que um convívio, um dia de aniversário é
sempre um trunfo. Com sorte, pensamos, superaremos mais um ano, que tal como
este se tornará alvo de comparações. Entre vários registos de reflexão, por
vezes, fala mais alto a fascinante sequência de eventos, antigos sentimentos e
emoções, e memórias de ao longo dos tempos. A meio caminho, a dinâmica vai dissipando
fulgor, aquela frescura desarmante perde expressão, mas quando julgamos que tanto
o mundo como nós próprios nos começamos a despedaçar, debruçando-nos sobre nós
mesmos, há como que uma reconstrução a partir deste diálogo com a eternidade. Superando
erros, tomo consciência que cheguei aqui! Mais cerebral, a nova realidade
apresenta-se mais intensa do que nunca, e o que me move e inspira é um novo olhar
em articulação com o que me rodeia.
Saturday, June 15, 2013
A malva-de-três-meses
Saltam à vista,
exactamente, pela pálida cor rosada de perceptíveis e vistosas risquinhas. Nascem espontaneamente, algumas rasteiras, outras mais ousadas, trepando e enrolando-se cheias de subtileza,
aqui e ali, nos campos e nas bermas dos caminhos que, na companhia do Rico
continuo a percorrer com prazer.
Friday, June 14, 2013
Na imaginação das aves
Por ti desço até ao fundo da noite,
desenraízo o tempo, culmino numa estrela,
vivo na imaginação de todas as aves
e acendo o futuro, num gesto antecipado.
Albano Martins in O Futuro em Anos-Luz
Subscribe to:
Posts (Atom)




















