Saturday, April 18, 2015

Memórias de palco


Friday, April 17, 2015

O núcleo mais íntimo

Entre um estado apaixonado e o melancólico, desejos em catadupa levavam-na a aguardar, em intranquilidade, pelo passo seguinte. Na transitoriedade das horas, mais discreto para não atrair as atenções, toca-lhe ao de leve conseguindo surpreendê-la, quando o mundo passa a ser deles. 

Thursday, April 16, 2015

Sem registo vocal

Por vezes, o que a impedia de falar por medo ou pudor calava-a. Não admira, pois, que na maior parte dos casos a linguagem fosse muda, sem qualquer simples frase. Mais meio-tom e a matéria tornar-se-ia audível, embora não fosse destinada a perdurar. 

Wednesday, April 15, 2015

Habitando-te

Se existisses, serias tu,
talvez um pouco menos exacta,
mas a mesma existência, o mesmo nome, a mesma morada.

Atrás de ti haveria
as mesmas duas palmeiras, e eu estaria
sentado a teu lado como numa fotografia.

Entretanto dobrar-se-ia o mundo
(o teu mundo: o teu destino, a tua idade)
entre ser e possibilidade,

e eu permaneceria acordado
e em prosa, habitando-te como uma casa
ou uma memória.



Manuel António Pina in o caminho familiar da saudade

Monday, April 13, 2015

Do outro lado das palavras

Olhou à sua volta, e com a cabeça pendente, rendeu-se a um beijo que a faz perder os contornos de tudo que a rodeava. Leve e indissociável, surge como resposta a um instinto e a um aparente entendimento comum que, com simplicidade, se prolonga para além do sol descente. Nunca a linha do horizonte estivera tão perto. Depois, ele dá umas braçadas e, ao afastar-se, ela fica de novo só com os seus demónios.

Sunday, April 12, 2015

Cruzamentos





Concerto dos Al-Mouraria de fusão entre o fado e o tango, no Auditório de Vale do Lobo, em 11 de Abril.

Saturday, April 11, 2015

Mil cores


Friday, April 10, 2015

História familiar

Pense-se o que se pensar era uma família igual a tantas outras. Dialogava-se, discutia-se, confrontava-se com questões, aparentemente, irresolúveis, e o olhar sobre o mundo era distinto para cada um. Porém, uma coisa era certa, e em momento algum, teria de se confinar à disfuncionalidade ou intimidade encenada. Nada disso. Assim, não surpreenderá a possibilidade de entendimentos e a resolução de conflitos, a longo prazo, com destaque para a capacidade de um reencontro com contornos de compromisso, sujeito ao tempo, em que cada um continue a ser como cada um, mas, mesmo assim, se propicie o reorganizar do olhar.

Thursday, April 9, 2015

Colhe

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

Eugénio de Andrade



Wednesday, April 8, 2015

Aconteceu

A intenção podia ter sido favorável, contudo, a falta de envolvimento não sustentou o espectáculo. Ainda que a presença fosse intensa tornou-se mínima, e sentindo-se sozinha, subtilmente, estendeu as pernas e, à-vontade recostou-se e deixou-se deslizar. Em vez disso, o guião, a cenografia, a entrega, o guarda-roupa, os efeitos de luz e toda a harmoniosa sonoridade ficaram, ao abandono, para 2º plano. 

Tuesday, April 7, 2015

Até agora

Começou por ser doce e delicada, e quase tudo depois se lhes seguiu. A memória do choro e do riso, as desilusões, alguns desgostos e tudo o mais que a vida escondeu e causou inquietude. Por último, a existência provara uma vez mais ser efémera. E ainda que nostalgia e futuro continuassem a dar as mãos, amanhã era um pouco tarde demais.

Monday, April 6, 2015

É primavera

É primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. - É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.


Herberto Helder in «A Colher na Boca», 1961

Sunday, April 5, 2015

À volta da mesa

Criar o ambiente propicio para receber a família e amigos foi o desafio de muitos de nós que, hoje, nos reunimos com quem mais gostamos. O jantar cá em casa foi simples, mas especial, onde não faltaram as flores campestres colhidas no passeio com o Rico, os pormenores de decoração alusivos à Páscoa e os ovos de chocolate!

Saturday, April 4, 2015

Mutações

Este é o tempo de silêncio e espera de conotações bíblicas, quando as vigílias abrem a porta à renovação. Não haverá meio caminho a ocupar-nos o espírito. Através de uma recondução, somos despertados para um novo sentido que, nos reabilita e sustenta as vidas.

Friday, April 3, 2015

Processo criativo


Thursday, April 2, 2015

Embarcando na aventura

Em menos de nada, e sem o menor desacerto, sentir é entender a Primavera. Entrelaçadas, somos parte dela quanto mais não seja no valor absoluto do olhar que, se dispersa pelo horizonte e só termina com o Estio.

Wednesday, April 1, 2015

À espera

O tempo vai um encanto,
 A Primavera está linda,
  Voltaram as andorinhas…
    E tu não voltaste ainda!…



 Florbela Espanca

Monday, March 30, 2015

Círculo de pétalas

Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
Enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça -
e as palavras nascem.
                                            - Límpidas, amargas.

Herberto Helder


Sunday, March 29, 2015

Inspiração urbana


Saturday, March 28, 2015

Uma tarde mágica








Cinderela com encenação de Tiago da Cruz, direcção musical de Josina Filipe e direcção artística de Miguel Ruivo Duarte interpretada pelos actores/cantores Carina Leitão, Carlos Gonçalves, Liliana Pereira, Inês Morais e Fábio Leitão.

Thursday, March 26, 2015

Silêncio

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe


Maria do Rosário Pedreira

Wednesday, March 25, 2015

A imensidão

Nos seus longos versos, existe um constante descer e subir de degraus que se reflecte num movimento de corpos. A paisagem é inclinada com luas que, nascem de fecundos campos, onde a sombra canta baixo, o mosto é aberto e o encanto liga a ave ao trevo. Há picos e crateras entre o começo e o fim do mundo que, nos seduzem a entrar na leitura em estado de pura assombração. A mãe que, perde aos 7 anos de idade, é uma referência permanente e representa o feminino em alusões absolutamente magistrais. De imaginação fértil e atormentada, a poesia de Herberto Helder que, nos deixou esta semana, é intensa, exuberante, vertiginosa e eterna.

E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das núvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

[...]

Herberto Helder in O Amor em Visita - Lisboa: Contraponto, 1958


Tuesday, March 24, 2015

O génio

A poesia de Herberto Helder é algo que nos transcende. Apesar das suas palavras se caracterizarem pela obscuridade, há todo um encadeamento, uma musicalidade, um ritmo e um erotismo na linguagem que, me deslumbram por completo. Não pode haver nada maior. Os seus livros tiveram edição limitada, e a quem não leu nunca nada, recomendo que o faça, mas em viva voz. Até o meu rottweiler Rico sabe metade deles de cor! A notícia da sua morte deixou-me tão abalada que esta tarde dirigi-me à biblioteca local para trazer um dos seus livros para casa e reler. Como me pareceu que tivessem mudado de lugar, solicitei a ajuda de um funcionário que me disse logo desconhecer a personagem e que, a poesia nada lhe dizia!? Desculpem, mas quando é que este país de pantanas se vai alguma vez virar? Compreendo que nem todos podemos ter a mesma sensibilidade, que os ordenados são miseráveis, mas confesso que estranhei uma pessoa trabalhar numa biblioteca sem se interessar pelo seu conteúdo!? E, então tentei «converter» o jovem, e quase o obriguei a jurar-me que uma vez em casa iria ao youtube procurar Herberto Helder, e prometi-lhe que seria impossível que não viesse a sentir qualquer coisa. Um abalo, um calafrio, uma pedrada ou o que lhe quiserem chamar.

Monday, March 23, 2015

O último alinhamento

Aparentemente, o desencanto ia-se, gradualmente, instalando nos seus dias. Se tivermos em conta as suas múltiplas áreas de acção, tornava-se necessário um volte-face que, lhe evitasse o desfazer de uma vida. Fugir das imagens do quotidiano como se, explorasse outros caminhos, parecia-lhe a alternativa certa na incessante procura da viragem. Chegara, finalmente, o momento, que a sobreporia a todas as vicissitudes. 

Sunday, March 22, 2015

Os seres cativos

22 de março - o meu carrasco é o anjo de uma outra pessoa; o uso continuado de dildos numa sociedade resulta em impostos acrescidos; london bridge is falling down…; somos sempre alguém que nos desconhece; os supermercados tornaram-se em espectáculos degradantes; o borda d’água sabe tudo, só não sabe de desertos; mãe significa lugar geométrico; continuamos nos 23% de iva; não há relação perfeita entre seres cativos; os alentejanos são sensatos: substituem os filhos da puta por filhos de um cabrão; se mais alguém me volta a dizer que faço poesia parto-lhe as ventas; cortar as unhas; os quintais estão cheios de velhas a olharem para o meu quarto; nos seres ambivalentes tudo se mistura; pim-pam-pum, cada bala mata um (ensinavam isto às criancinhas deste país; mas os ingleses têm uma educação terrorista pior – incentivam à destruição das pontes); as escadas de Jacob: era nessas escadas de pedra que as almas errantes procuravam esse algo onde fosse possível poisar as mãos e dizer: é isto; apanhar as framboesas maduras; trago nos braços as pernas todas partidas.


Luisa Monteiro in facebook 22.03.2015

Saturday, March 21, 2015

Depois do inverno

Depois do Inverno,
 morte figurada,
 A primavera,
 uma assunção de flores.
 A vida
 Renascida
 E celebrada
 Num festival de pétalas e cores.


Miguel Torgana maior solidão,
sem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!

Thursday, March 19, 2015

Enquadramento

Uma saudação especial a todos os pais, responsáveis por cada uma das nossas vidas, neste dia que, lhes é dedicado. Aos que tudo deram de si, num percurso longo, inesgotável e em constante mutação, e àqueles que deveriam, e não poderiam, estar ausentes e que, por qualquer razão, se desarticularam e afastaram para além do razoável, sem nunca descobrirem o seu papel.

Wednesday, March 18, 2015

Sem hesitações

Se perguntares
quando,
eu talvez diga
já.

Geir Campos in O Homem Novo

Tuesday, March 17, 2015

Presença

Nada era assim tão importante. Pelo menos para ela cuja presença era insanamente sensual. Sem quaisquer barreiras físicas, bastava-lhe um breve piscar de olho para com o seu ar expressionista se lançar e afirmar.   

Monday, March 16, 2015