Saturday, July 23, 2011

Cantar para a lua


Quero cantar para a lua
Deixem-me cantar na rua
Pois foi da rua que eu vim;
Vim da rua, vim das pedras
Nada sei das vossas regras
Regras não são para mim.

Deixem-me chorar ao vento
Deixem andar meu lamento
Pode ser que chegue ao céu;
Deixem-me o meu pensamento
Que embora seja tormento
Que seja, mas seja meu…

AMÁLIA RODRIGUES

Friday, July 15, 2011

O poder da aceitação










Os poderes dão-nos a capacidade interior de ultrapassar obstáculos. Frequentemente, a falta de paz e harmonia, levam-nos a negar a realidade que recusamos ver. Nessas ocasiões, são os nossos aspectos mais negativos que surgem à flor da pele, através das máscaras que colocamos nos diversos papéis que vamos desempenhando ao longo de várias vidas. Trazer à consciência quem realmente somos, focando o olhar para além de tudo o que nos rodeia, somente aceitando aquilo que é, só nos traz tranquilidade. Qualquer registo de resistência afasta-nos da felicidade, dependendo a nossa qualidade de vida apenas do que temos e do consequente sentimento de gratidão. Aceitar a impermanência dos ciclos de vida dando espaço a que tudo se renove, devolve-nos a referência do ser, do qual a paz é a sua essência mais profunda. Ao promovê-la, irradio-a, preenchendo cada ser do universo, e despertando-lhe a verdadeira natureza eterna.

Thursday, July 14, 2011

Em viagem








A pouco e pouco
o sol torna-se abrasador
quando na espessura dos dias
revisito o que não passa duma miragem.
A persistência do olhar
imobiliza-me o tempo
naquele trilho certo
onde as flores de tom rosa
se começam a esbater
e tanto revelam
quanto ocultam
arrancando-me uma a uma
todas as certezas
do que estará para além delas.

Sunday, July 10, 2011

Exemplos


Desde pequena, via o Tarzan andar quase todo nu pela selva...
A Cinderela chegava à casa depois da meia noite...
O Pinóquio mentia...
O Aladino era ladrão...
O Batman dirigia a mais de 320 km/h ...
A Bela Adormecida era uma preguiçosa...
A Branca de Neve morava com 7 homens e foi beijada por um estranho para acordar...
O Zé Colmeia e o Catatau eram cleptomaníacos e roubavam cestas de piquenique,
A Olívia Palito tinha bulimia e o Popey fumava erva!!!
Agora pedem pra eu me comportar ???
Tarde demais...!!!



autor desconhecido

Wednesday, July 6, 2011

A serra


Um estrangeiro muito rico e um português muito pobre tinham cada um o seu filho.
O estrangeiro muito rico levou o filho ao ponto mais alto da Serra da Estrela e mostrou-lhe com um gesto a portentosa paisagem em redor e disse-lhe:
- Olha, um dia todo este país será teu. Eu vou compra-lo amanhã ao preço de lixo.
O português muito pobre, levou o filho ao cimo da mesma serra, mostrou-lhe a paisagem em redor e disse-lhe, simplesmente:
- Olha. – Enquanto podes!

(inspirado numa uma fábula do Oriente)

Publicada por http://livrariapodoslivros.blogspot.com/

Saturday, July 2, 2011

Horas mortas


No limiar da consciência
um deus espreita. É impalpável
e frio e não é omnipotente
ou omnipresente. Espreita
e facilmente se vence
ou ilude. Não promete
a vida eterna mas lembra
a silenciosa certeza
da morte eterna.
É lúcido e não metafísico,
não existia antes de nós,
mas em nós germina,
em nós vive e connosco
perecerá.
É um deus com que retomamos
diariamente o diálogo interrompido
de Ulisses. Um deus que
surge a horas mortas na
memória do que somos
e não é um deus, mas
o julgamento dos actos que, somados,
somos. É um outro
ser que somos e sendo outro
nos olha com outros olhos
que nossos são. Nos olha
e fita, nos olha e fita
e faz significar olhando.
No limiar da consciência
é um deus que espreita.
E eu, irreligioso,
me confesso ao deus
que em mim assoma.


Rui Knopfli -- [Luz & sombra]

Thursday, June 30, 2011

Recriar memórias








Distante do urbanismo difuso, há um tempo em cada dia que, ao sabor de impulsos, uma a uma, vou colhendo arbitrariamente as flores dos campos que percorro. Já em casa, coloco-as em diferentes jarras, que reflectem o perfume campestre e a exaltação poética da dança das borboletas que estendo até ao infinito.

Monday, June 27, 2011

Cumplicidades


Às vezes vêm de muito longe:
de fatigadas viagens,
de mortes prematuras,
de excessivas solidões.
Mas vêm.
E trazem a inicial pureza das fontes.
E a lâmina do silêncio.
E a desordem da noite.
E a luz extenuada do olhar.
Tão cúmplices, as palavras.

Graça Pires

Friday, June 24, 2011

Festas e santos


Santo António é o primeiro
A trazer a gente à rua,
Santinho casamenteiro,
Juntou o Sol e a Lua.

S. João é o segundo,
Que o Cristo baptizou,
Seus feitos correram mundo,
Mesmo onde não passou.

São Pedro é o terceiro,
Que também é pescador,
Vela pelo mundo inteiro,
É do Céu o guardador.

quadras populares

Thursday, June 23, 2011

Um relance de olhar

A areia é branca e fina, e a praia pequena e calma recebe o sol. Rodeada de arribas, salpicadas de arbustos e pinhal, as suas rochas ganham formas misteriosas que lhe acrescentam magia, e as águas azuis e límpidas convidam-nos a um mergulho neste maravilhoso troço da costa algarvia.

Saturday, June 18, 2011

Sonhar


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Cecília Meireles

Friday, June 17, 2011

Sinais externos

No mundo conturbado de hoje, ou nos deixamos arrastar pelo alarmismo, ou aprendemos a nos salvaguardar. A maior parte dos indícios que nos chegam do exterior influencia-nos ao ponto de nos deixarmos contagiar através de medos, doenças, dificuldades financeiras e todo o tipo de problemas do quotidiano. Activando uma consciência mais elevada, gradualmente diminuímos a velocidade dos pensamentos, focando-nos no aqui e no agora, que nos ajuda a recuperar a qualidade original. Olhar para dentro tentando desenvolver as virtudes do ser, não só nos proporciona boas energias, como beneficia tudo à nossa volta. E, ao investir na espiritualidade, não só me aproximo da verdadeira essência, como canalizo os outros para a sua natureza virtuosa.

Thursday, June 16, 2011

Destaque




Deus não lhe merece maiúsculas, e perante o sofrimento humano causa-lhe toda a revolta. Neste romance satírico o divino provoca-lhe até uma visão irónica da criação. Saramago volta a fazer em «Caim» uma crítica leitura da Bíblia, cujos textos têm suscitado ao longo dos tempos as mais variadas interpretações. Com a finalidade de procurar um sentido para a sua escrita a partir desta história da humanidade, a Biblioteca Municipal Lídia Jorge convidou a Dra. Carina Infante do Carmo - Professora Doutora da Faculdade das Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, no âmbito do seu 6º ciclo de leituras, a dois dias de se comemorar o 1º aniversário da morte de José Saramago. E, como é sua prática, uma vez mais encontramos aqui como que uma reorganização de episódios que, o autor transfere dos textos bíblicos para a contemporaneidade, ao serviço da narrativa que dinamiza o discurso e interpela o leitor. A visibilidade e a projecção da obra de Saramago, tal como a sua importância como humanista, são inequívocas e vão muito para além da sua qualidade literária.

Sunday, June 12, 2011

Nesta data querida

O encontro foi combinado para o final do dia no local escolhido - o Restaurante Fuji, e a ementa era simplesmente divinal. Passo-a-passo, mesmo ali à nossa frente, tudo foi cuidadosamente preparado com os produtos mais frescos servidos de imediato. Uma gastronomia que não cessa de me seduzir pelos seus aromas, cores e sabores. Na véspera de mais um aniversário, não quero deixar de agradecer às amigas presentes o jantar tão especial, que acaba sempre por se converter numa autêntica descoberta.

Saturday, June 11, 2011

Imprevisto


Dum momento para o outro pode entrar
um pássaro que levante o céu
e sustente o olhar.

Alexandre O'Neill
No Reino da Dinamarca

Monday, June 6, 2011

O amanhecer



À luz da alvorada
é o teu nome
que evoco
lentamente.
O que nos distancia
tem a mesma origem
num suave murmurar
onde as imagens e os sons
me entram nos sentidos
onde o teu sorriso
desfaz equívocos
e se estende
ao verde que extasia.

Sunday, June 5, 2011

Movimento verde


Fechar a torneira enquanto lavamos os dentes, ou nos ensaboamos no duche, evitar abrir constantemente o frigorífico, separar as embalagens pelos ecopontos, e dar preferência às lâmpadas económicas, são pequenos gestos do dia-a-dia com efeito à nossa volta. Este é, verdadeiramente, o nosso papel na protecção do planeta. E, porque tudo o que se fizer será pouco, ao adoptarmos tecnologias limpas e agirmos em conjunto utilizamos os recursos de uma forma muito mais sensata, preservando a natureza e respeitando a Terra viva.

Saturday, June 4, 2011

Sentir na pele


Os dedos com que me tocaste
persistem sob a pele,
onde a memória os move.



Luís Miguel Nava

Friday, June 3, 2011

Um olhar de fora



E, porque dizer a verdade é perigoso, foge-se da chuva e fica-se pela aproximação. Neste combate à liderança houve menos cartazes e menos conteúdo. Com alguma energia que resta mobilizável, mas sem interiorização da realidade, apenas a batalha verbal e questões secundárias vieram ao de cima. A solução que vai ser construída perdeu-se numa campanha igual a todas as outras.

… Oh! Se eu soubesse que o Inferno
não era como os padres mo diziam:
uma fornalha de nunca se morrer...
mas sim um Jardim da Europa
à beira-mar plantado...

A Cena do Ódio de Almada Negreiros

Wednesday, June 1, 2011

Durante a Primavera


Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, especialmente quando os teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima,
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

Não sei como dizer de Herberto Helder