Friday, August 29, 2014

O sentimento do efémero

O desejo de liberdade levava-nos estrada fora atrás dum Verão de ritmo demorado que, uma vez mais nos brindava intrigante porque fugia a quaisquer rotinas. Difícil de imaginar em todos os domínios, fica por dizer as mil e uma coisas sem pés nem cabeça num final de Agosto, pecados antigos e o que nunca aconteceu, além do adiantado das horas sem nunca se deixar de sonhar.

Thursday, August 28, 2014

Jogos infantis

 Espáduas brancas palpitantes:
 asas no exílio dum corpo.
 Os braços calhas cintilantes
 para o comboio da alma.
 E os olhos emigrantes
 no navio da pálpebra
 encalhado em renúncia ou cobardia.
 Por vezes fêmea. Por vezes monja.
 Conforme a noite. Conforme o dia.
 Molusco. Esponja
 embebida num filtro de magia.
 Aranha de ouro
 presa na teia dos seus ardis.
 E aos pés um coração de louça
 quebrado em jogos infantis.


 Natália Correia

Wednesday, August 27, 2014

No final

Daí a dias iria regressar a casa. As férias acabavam por ser o que sempre foram e, estava em crer que aqueles dias longos e lentos lhe proporcionariam os alicerces para, em breve, voltar a deitar mãos à sua agenda. Mas, ainda assim, interessava perceber até que ponto o seu confronto com o futuro se traduziria no exercício táctico que deixava antever. 

Tuesday, August 26, 2014

Cada palavra

E no seu rosto aberto
sobre o mar
cada palavra era apenas
o rumor
de um bando de gaivotas
a passar.


Eugénio de Andrade

Monday, August 25, 2014

As ruas velocíssimas

Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo
dos amantes. Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o
amor desonesto infinito feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras
onde as ruas são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos
únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas
que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.


Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio & Alvim - 2ª edição - 2001

Sunday, August 24, 2014

Saudade







Ai que saudade que eu tenho de ter saudade
Saudades  de ter alguém que aqui está e não existe
Sentir-me triste só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem só por eu andar tão triste

Saturday, August 23, 2014

O extâse do voo


Friday, August 22, 2014

Vida aérea

Se um pássaro cantar dentro da noite
extraviado,
pensa com ternura nessa vida aérea,
sem alfabeto nem calendário,
tão pura, tão pura,
entre flores e estrelas,
sem data de nascimento,

Cecília Meireles

Thursday, August 21, 2014

Por medo


Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.


António Lobo Antunes

Wednesday, August 20, 2014

Um pé de dança






Mês após mês, para o bem e para o mal, o melhor mesmo é dançar. Para assinalar mais um animado convívio na Casa Malembe, em Centieira, a presença assídua de muitos amigos e conhecidos serviu para contar mais uma história deste verão.

Tuesday, August 19, 2014

No solstício de um verão

Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento. Ou antes:
separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam
pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-
-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.



 Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio & Alvim - 2ª edição - 2001

Monday, August 18, 2014

O próximo refúgio

Os lugares por onde ia passando, tão-só lhe definiam o destino. Essencialmente estaria em jogo a expectativa de novas memórias. Porém, o seu olhar parecia dispersar-se por demasiadas direcções. Talvez por isso, o seu percurso se alargasse de forma tão descontrolada. Mais tempo era, afinal, o que lhe faltava, diante a difícil tarefa de superar o caminho percorrido.

Sunday, August 17, 2014

Saturday, August 16, 2014

Os dias mais quentes

O Verão impunha-lhe uma mudança de cenário que correspondesse plenamente aos seus anseios. A incursão a um território já conhecido deixava de fora quaisquer surpresas, e nesta perspectiva, a passagem do tempo fazia-a sentir-se livre e feliz na redescoberta de um novo poente.


Friday, August 15, 2014

O rio

Entre mergulhos
uma pedra rasa salta três vezes
na água.
E assim se divide
assim se parte
o rio. A infância
dum lado. Do outro
a terra firme
onde isto se passou.

Pedro Mexia in Colóquio/Letras n.º140/141, Lisboa -  Fundação Calouste Gulbenkian, Abril de 1996

Thursday, August 14, 2014

Não respondas

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
 E que nele posso navegar sem rumo,
 Não respondas
 Às urgentes perguntas
 Que te fiz.
 Deixa-me ser feliz
 Assim,
 Já tão longe de ti como de mim.


 Miguel Torgana maior solidão,
sem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!

Wednesday, August 13, 2014

Só o homem morre

O verão passa e o estio se anuncia
que o outono se há-de ser e logo inverno
de que virá nascida a primavera.
Mais breve ou longo se renova o dia
sempre da noite em repetir-se, eterno.
Só o homem morre de não ser quem era.


Jorge de Sena in Exorcismos, 1972. Republicado na compilação Poesia III, Lisboa: Editorial Presença, 1989.

Tuesday, August 12, 2014

Vida de árvore

cego
de ser raiz
imóvel
de me ascender caule
múltiplo
de ser folha
aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo

Mia Couto in Raiz de orvalho e outros poemas

Monday, August 11, 2014

Existências

Há pessoas assim cuja existência, cuja carne é matéria literária. Não falo já de qualidade. Falo, sim, da quantidade de poema que há num corpo. Da combustão que é feita de palavras em lugar de oxigénio. Falo daquele que, se não escreve, mata alguém. Daquele que não aceita um aparelho de cognição capaz de o proteger com o vulgar conforto do real. Que se educou para a alucinação. O que descreve o brilho intenso que há na noite e é, no entanto, a fonte do fulgor, dessa fosforescência com que os mortos que o tocam, de visita, o contaminam.

Hélia Correia in Revista de artes e Ideias n.º 8 - «O Medo», Coimbra - Alma Azul, 2006. p.51

Sunday, August 10, 2014

Eu e a árvore

Hoje, passada a madrugada, continuei o dia com a minha parte mais sombria; soltaram-se-me as minhas recordações, presentes, passadas e futuras, e não encontrava caminho linear entre elas.
Não só importa escrever sucessivamente, mas saber quem me sucederá numa constelação de sentidos.
O que é a descendência?
A seiva sobe e desce numa árvore, estende-se pelos ramos, e é regulada pelas estações; eu e a árvore dispomo-nos uma para a outra, num lugar por nomear. Este lugar não tem significação de dicionário, não transmigrou para nenhum livro.
Agora o sol, o solo, a solo, encadeiam-me nas palavras      Esta madrugada aproximei-me da certeza de que o texto era um ser.


Maria Gabriela Llansol in um falcão no punho - diário I, Lisboa: Edições Rolim, 1985