Sunday, December 14, 2008

Reclamando um outro rumo

Quando o peso energético é cada vez mais carregado, e a aceleração do planeta evolutiva, causando muitas das actuais epidemias, convém fazermos algo com as informações que pouco a pouco adquirimos. As ondas magnéticas, as irradiações, a poluição orgânica, e as antenas que proliferam por todo o lado, constituem parte do problema. Se continuarmos a insistir neste processo de destruição, a Natureza continuará a reagir, e na pior das hipóteses a sua ira conduzir-nos-á à explosão final, dando início a uma nova era de sobrevivência, como reacção às nossas irresponsáveis atitudes. Segundo a Nicole, em mais uma das suas conversas, o poder divino só se alcança sem mentira, sem medos, em clima de total desapego, vivendo apenas com o essencial, e em pleno conhecimento.
Trabalhando, observando, sentindo e compreendendo, com a finalidade de evitar estragos, e consequentes futuras catástrofes, é o maior exemplo que podemos dar quer aos inconscientes, como a todos aqueles demasiado amarrados a determinadas filosofias de vida, que os condicionam. Tanto as crianças índigo, como as cristais são seres maravilhosos, muito mais evoluídos, cuja missão (nem sempre bem sucedida) é exactamente auxiliar-nos a descobrir uma nova verdade neste processo de crescimento. O reiki é outra das vias para nos curarmos a nós próprios, limpando-nos das acumulações que ao longo do passado semeámos. Através dele desenvolvemos as nossas capacidades, recebendo outros esclarecimentos, que nos permitem chegar aos outros em equilíbrio.
O poder divino, e o amor incondicional deste novo mundo, onde a energia irá fluir entre todos, só será alcançado quando o crescimento nos levar a outros níveis de consciência, traduzindo-se na harmonia plena.

Saturday, December 13, 2008

A abelha-mestra

Dona do seu próprio estilo, e de um enorme fôlego, ela salta obstáculos, e desenvolve como ninguém uma dinâmica de grupo. O seu espaço alterna entre o tertúliano, e o registo teatral. Em qualquer deles a Zizi congrega energias, e retira e dá prazer, pela sua ousadia e determinação, arriscando até final. Na longa travessia do deserto, onde a ausência de estímulos salta à vista, ela é voz discordante, e colocando as causas acima das tricas, acrescenta, belisca, e sobressaíndo-se exibe todo o seu criativo talento. Esta tarde, num encontro de vontades, em que ela me convidou a estar presente, e eu com o maior prazer acedi ao seu pedido, assisti aos dois teatros, o do «sol e da lua» e suas estrelinhas, e ao da «dança da vida», sem lugar para inocentes, cujos actores entram e saem das personagens criando jogos, em animado folhetim de traições, dum mundo que se reparte entre o imaginário e o real.

Ding dão ding dão dão
Ding dão ding dão dão
Estamos a festejar
ding dão ding dão dão…

Friday, December 12, 2008

Nostalgia da alma

Era meio-dia, e passava a ferro. Subitamente a tarefa é interrompida, para responder ao apelo, que me chegava do outro lado do mundo. Do interior da sua sala, ela desejava mostrar-me a neve, que às 6 da manhã inesperadamente precipitava. Com ambas as web câmaras ligadas emprestou-me o olhar, e da sua janela assistimos juntas à queda leve e singela de pequeninos flocos, que de forma intensa, se foram acumulando, como que por magia. Ainda há dois dias estavam 20 graus, e usava um vestido de alças, continuava ela, e desde a última ocorrência que há notícia, vinte anos passaram!? Porém, logo pela manhã, um manto branco cobria-lhe o horizonte, e servia de pretexto para encurtarmos distâncias, e nos voltarmos a unir. Na apatia dos dias, da estação mais fria do ano, o Natal chegou mais cedo para ambas, num exercício de contemplação conjunta, em genuíno sentimento de partilha entre mãe e filha.

Thursday, December 11, 2008

Harmonia interna


Quando a vida urbana se torna demasiado agitada, é lá que me refugio para libertar emoções, retemperar forças, e aproveitar o momento ao máximo. Agradeço à Célia (aqui retratada na fotografia), e a todo o staff das Piscinas Municipais de Albufeira, os agradáveis instantes, que me reduzem o stress, proporcionando-me uma inimaginável energia ao longo de todo o ano.

Wednesday, December 10, 2008

O deleite da água

Após o interregno dos feriados, e do campeonato mundial de natação de síndrome de down, reiniciei a rotina. Ao chegar, fui surpreendida pela majestosa árvore de natal à entrada, e pela farda dos funcionários, que num ápice, de laranja passou a azul!? O mergulhar na piscina, subitamente alivia-me das tensões, e faz esquecer-me um pouco dos problemas do dia-a-dia. Ao entrar no jacuzzi, alguém que me diz chamar-se Paula cumprimenta-me, e revela-me que uma dor insuportável lhe prende a perna, e que enquanto aguarda pela aula de hidroginástica tem esperança que «aquilo» lhe faça bem. Uma vez só, semi-cerro os olhos deliciada com o movimento e a temperatura da água, e deixo-me deslumbrar pela vista panorâmica, através do envidraçado que vai duma ponta à outra, de toda aquela enorme extensão. Do local onde me encontro vislumbro o topo das bancadas do campo da bola, e junto ao cantinho direito, as hastes superiores das bandeiras, que ao sabor do vento desfraldam. No centro, o meu olhar incide no avançar do casario, que em desenfreada e feroz corrida contra o tempo, engole o verde da paisagem, como se o amanhã não chegasse a existir. Dali entro no turco, onde o ambiente de penumbra e humidade tantas vezes me trouxe inspiração, além da amizade da Marta, que me é tão especial. Ao entrar na sauna, inverto a ampulheta num gesto ritual, que me impede perder-me no tempo. Já nos balneários, uma criancinha sem sotaque, cuja mãe é brasileira, faz uma birra infernal. Mas, após esta revigorante sessão, não há stress, nem nada que me perturbe. Daqui a dois dias estou lá caída outra vez.

Monday, December 8, 2008

Cedências

Oito da noite, numa avenida movimentada. O casal já está atrasado para jantar em casa de amigos. O endereço é novo, bem como o caminho que ela consultou no mapa antes de sair. Ele conduz o carro. Ela orienta e pede para que vire, na próxima rua, à esquerda. Ele tem a certeza de que é à direita. Discutem. Percebendo que além de atrasados, poderão ficar mal-humorados, ela deixa que ele decida. Ele vira à direita e realiza, então, que estava enganado. Embora com dificuldade, admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz marcha-atrás. Ela sorri e diz que não há problema se chegarem alguns minutos atrasados. Mas ele ainda quer saber: - Se tinhas tanta certeza de que eu não estava a ir pela rua certa, devias ter insistido um pouco mais... E ela diz: - Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz. Estávamos à beira de uma discussão, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite!
MORAL DA HISTÓRIA: Inspirei-me neste facto, que recebi por e-mail, que por sua vez terá sido contado por uma empresária, no Brasil, durante uma palestra sobre simplicidade no mundo do trabalho. Aparentemente, ela terá usado este incidente do dia a dia, para ilustrar quanta energia nós gastamos, apenas para demonstrar que temos razão, independentemente de a termos ou não. Desde que ouvi este episódio, tenho-me questionado com mais frequência: «Quero ser feliz ou ter razão?»

Sunday, December 7, 2008

Ampliar visões

Qual a causa do permanente mau estar, nos dias que correm? Porque há sempre uma saída, e para tudo há solução, fomos ouvi-la em mais uma intervenção, para desvendarmos mistérios, e recolhermos testemunhos, de outro entendimento para o mundo. Viver experiências aprendendo com elas, e reconhecendo-as, passar a agir em plena consciência. E porque nada acontece por acaso, ao criarmos a nossa realidade individual convém acautelarmo-nos com as negatividades e toxinas, que por aí andam, que indesejavelmente nos poderão invadir as células. Se até aqui acreditava na existência do bem e do mal, enganou-se redondamente. Nesta perspectiva o que conta é tão-somente as energias. Neste caso a positiva denominada yin, e em oposição a negativa, à qual chamamos yang, representativas do princípio da dualidade. Ambas são os extremos da mesma energia. E porque estas fluem e até têm cores, fazem-nos vibrar os chacras, verdadeiros espirais de luz. No momento em que o planeta Terra se encontra em acelerada progressão, é preciso ouvir a voz interior, e seguir a nossa própria consciência, em vez de nos deixarmos influenciar pela dos outros. Segundo a Nicole, a aceitação faz parte da prática do crescimento, e a sua expressão máxima traduz-se no ser perfeito, que todos aspiramos um dia abraçar.

Friday, December 5, 2008

Céu de palavras


Era irreverente, poeta e letrista. O seu universo era de esquerda, e com a determinação de protestar, trouxe-nos na época de 70, uma visão anticonvencional da realidade. A palavra sarcasmo é uma rosa rubra/A palavra silêncio é uma rosa chá/Não há céu de palavras que a cidade não cubra/não há rua de sons que a palavra não corra/à procura da sombra de uma luz que não há. Com Nuno Nazareth Fernandes, Fernando Tordo e Paulo de Carvalho realizou parcerias famosas para canções não menos populares na boca de toda a gente, como os temas «Desfolhada» e «Tourada», vencedores dos concursos da canção da RTP. Em 1971, foi atribuído a «Meu Amor, Meu Amor», também da sua autoria, o grande prémio da Canção Discográfica. Meu amor meu amor/meu nó e sofrimento/minha mó de ternura/minha nau de tormento. Este mar não tem cura este céu não tem ar/nós parámos o vento não sabemos nadar/e morremos morremos/devagar devagar. O seu nome foi dado a um largo do Bairro de Alfama, descerrando-se uma lápide evocativa na casa da Rua da Saudade, onde viveu praticamente toda a sua vida. Deixou cerca de 600 textos destinados a canções, e inúmeros poemas que ainda nos dias que correm encontram um longo eco. Pela voz de Afonso Dias, animada de sentimentos humanos, aos quais já nos habituou, mergulhámos no íntimo de Ary dos Santos (1937 – 1984) num caloroso serão, de uma noite fria, na biblioteca municipal. Por mim ainda me sinto a cantarolar: - Parecem bandos de pardais à solta/Os putos, os putos/São como índios, capitães da malta/Os putos, os putos…

Wednesday, December 3, 2008

A janela da Rosinha

Sempre que comunicávamos ela dizia-me fazê-lo da cozinha. Quando o voltava a fazer, insistia novamente, para que não restassem dúvidas. Aliás, toda a sua existência parece girar em cerca dela. Contudo, apenas ontem compreendi porquê. Do ponto elevado onde esta se encontra, há uma rasgada janela debruçada para o mundo, donde dia a dia ela abraça todo o infinito. Dali, observamos a imensidão ofuscada pelo brilho do sol, e perdemos por completo a noção do tempo, que se desenrola lentamente, com variações melancólicas e serenas, de acordo com cada uma das estações. Distante do espartilho da cidade, e de tantas monstruosidades arquitectónicas, a serra de Monchique domina a paisagem, e reserva-nos espaço a sonhar. Mais além, formas abstractas saem da sombra salpicadas de luz, como se nos apontassem caminhos, e nos dissipassem incertezas. Ao lusco-fusco, quando a tarde se desfaz, parto ao som da cantilena dos pássaros, conseguindo imaginar o dia virando noite, e o manto escuro que em breve tudo cobrirá. Da próxima vez que lá for, atenta aos pormenores sem paralelo, na suspensão do tempo tentarei de novo ouvir o sussurrar da natureza, e sem nunca desviar o olhar partir em busca de outros horizontes.

Monday, December 1, 2008

Estilo de interpretação

A encenação da mulher das castanhas tem o seu interesse. Trabalha como num palco, agita o tacho; às vezes sacode-o para que as castanhas saltem, retira algumas com as mãos, queimando os dedos, chamuscando-os. Se alguém o solicita, vende as castanhas: as mãos tornam-se hábeis, esvoaçam para arrancar algumas folhas da lista telefónica, agitam-se para transformá-las num cone e nele embrulha as castanhas, meia-dúzia, uma dúzia, vinte. Quentinhas! Importa que, uma vez ou outra grite
- Quentinhas!
Com a sua voz quente de trovão, que o repita ainda, que sorria e pareça que fala sozinha.


Manuel Jorge Marmelo

Saturday, November 29, 2008

À saúde

… o melhor era reunirem todos os factos e todos os acontecimentos num livro, e depois reduzirem esse livro a metade do tamanho, e assim sucessivamente, até conseguirem pôr todos os conhecimentos do mundo numa frase de dez palavras.… depois cada um decoraria apenas esta frase, tendo tempo, então, para se divertir a sério e beber copos de absinto, uns a seguir aos outros, como os Deuses recomendam.


Gonçalo M. Tavares

Friday, November 28, 2008

Pequenos grandes luxos

De vez em quando sabe-me bem por lá passar. Inaugurado no início do Verão passado, na praia da Galé, há já alguns anos que uma vez por outra visitava a casa-mãe, em Almancil, de forma que no meu caso em particular não constituiu exactamente uma surpresa. Contudo, para quem desconheça a família, ou as lojas Apolónia, confesso que em tudo serão surpreendidos. Aliás, este foi um projecto de raiz, em que a superfície estudada ao milímetro, mesmo sem recheio poder-se-ia considerar perfeita! Porém, o que se torna num regalo para os olhos é exactamente o que lá dentro encontramos. Ao entrar deparamo-nos com uma atraente e extensa área, com uma sanca iluminada, ilustrada de imagens que indicam as diferentes secções. Depois, o atendimento faz questão em ser personalizado, numa altura em que na maioria dos casos somos frequentemente negligenciados, para que os funcionários ponham as suas conversas entre eles em dia!? Mas, o que verdadeiramente me encanta é a enorme diversidade, e a qualidade dos produtos, na sua maioria importados, e o modo como estão expostos, a fazer lembrar-me o Harrodds de Londres, da minha adolescência. Desde o talho, à charcutaria, ao sushi feito na hora, aos legumes e frutas fora de época, a toda a variedade de vinhos que se possa imaginar, aos queijos, foie gras, chocolates e doces, e tantos outros produtos gourmet, tudo nos leva a embarcar numa experiência - única para os sentidos! Especialmente na época de alegria festiva que atravessamos, não deixe de apreciar a excelência que a Apolónia nos proporciona, absolutamente inigualável nas redondezas.

Thursday, November 27, 2008

Colinas de Outono

Procuro num atlas de memória
a geografia do teu corpo, desenhando
os contornos de água, as colinas brancas
do Outono, os vales onde os viajantes
se perdem, rios que nascem de um abismo
de fonte. E a sombra de uma nuvem
cobre o segredo do teu mapa,
para que adivinhe os caminhos, e
a viagem se transforme
em descoberta.



Nuno Júdice

Tuesday, November 25, 2008

Monday, November 24, 2008

A origem dos males

No século VIII a.c., o poeta Hesíodo descreve-nos Pandora - a primeira mulher criada pelos deuses, que à semelhança da bíblica Eva, nos surge com a finalidade de punir o homem, num acto de plena vingança. Por ordem expressa de Zeus, Hefesto modela-a em pedra, Minerva atribui-lhe vida com um simples sopro, Afrodite encarrega-se de lhe dar beleza, e Apolo da sua voz suave e graciosa. As Graças adornam-na com colares de ouro, e finalmente Hermes dota-a de persuasão e astúcia. Antes de ser enviada à Terra, é-lhe entregue uma caixa com a advertência de que jamais seja aberta. Do seu conteúdo fazia parte uma série de maldições e desgraças, desde a discórdia, à guerra, e a toda a espécie de doenças, e somente um dom. Vencida pela curiosidade, acaba por a abrir, libertando de uma assentada todos os infortúnios do mundo. Fecha-a porém de seguida, antes de deixar escapar a esperança. Na mitologia grega, Pandora surge-nos desta forma, com o intuito de seduzir o homem, provocando-lhe a destruição. Esta narrativa mitológica continua a fascinar-nos nos dias de hoje, por estar directamente ligada à história da humanidade, com tudo o que nos atormenta. Esta terá sido a metáfora encontrada pelos gregos, para através dum enredo de fácil compreensão, nos demonstrar os conceitos relacionados com a natureza feminina, e consequentemente o poder da aniquilação, restando-nos a esperança, como único meio de não lhe sucumbirmos às tragédias.

Saturday, November 22, 2008

No teu ombro

se eu te pedisse um verso apenas
que palavras dirias para fixar a sombra
dentro dos meus olhos? essa árvore
de onde nascem os pássaros quase azuis
de tanto poisarem no teu ombro


Francisco José Viegas

Friday, November 21, 2008

Thursday, November 20, 2008

Viradas para o rio

Após um período de adolescência, em que até a carteira do colégio partilhámos, seguindo diferentes rumos, os encontros passaram a ser fugazes, e na maioria das vezes apenas por ocasião de algum casamento, ou morte de um familiar. Porém, o acaso levou a que a voltasse a procurar, decorridos todos estes longos anos. Assim, quando pelo S. Martinho lhe bati à porta do seu novo apartamento citadino, foi num amplo open-space, com zonas distintas, que me recebeu. Numa breve visita guiada, espreitei-lhe os quartos, sinónimos de conforto e bem-estar, a banheira de hidromassagem, e o corredor transformado em galeria, com quadros de cada um dos filhos pendurados nas paredes. Regressamos à sala, onde um segundo olhar me remete para alguns móveis carregados de memória, de uma avó materna em comum. Seguidamente evocamos a juventude, na partilha dum tempo que já lá vai. Entrelaçamos episódios da vida, e falamos das inseguranças do que parecia seguro, do que aprendemos através da dor, do que faz sentido e da irracionalidade, e onde passámos a repousar as esperanças, sucumbindo de novo ao amor, quando Lisboa começa a anoitecer. Levantamo-nos seguindo a luminosidade que nos chega do exterior. É dum enorme terraço que entra pelo Tejo, com o infinito do céu sobre ambas, que me confidencia dialogar com o pai, que já partiu, em noites mais contemplativas. De dia recupera ânimos com a visita dos netos, que ali mesmo se dedicam às suas actividades favoritas, e tal como nós, perseguem sonhos daquele mesmo local. Mesmo aqueles desejos que nunca alcançaremos são os que na marcha do tempo nos farão continuar a caminhar. Antes de a deixar, ainda me oferece umas tartelettes de cebola e espinafres, que saem douradas do forno, da sua cozinha imaculadamente branca. E consolidando a tradição, o fim de tarde termina com castanhas cozidas em erva-doce, e a imprescindível água-pé. «Pelo S. Martinho prova o teu vinho, ao cabo de um ano já não te faz dano».

Wednesday, November 19, 2008

Dúvidas

Nunca chegará a saber
O que mais o inebria:
Se o cheiro e a música do Mar,
Se o cheiro e o silêncio da Terra.



David Mourão-Ferreira

Tuesday, November 18, 2008

Blindness

Há alguns anos li o livro, e ontem fui ver o filme, adaptado do romance de José Saramago. Ambos representam a metáfora sobre a realidade dos nossos dias, atraindo-nos para o centro da história, quando o distanciamento, e a incapacidade de ver o outro, e o que se passa à nossa volta, acaba por nos fragilizar. Um homem começa por perder a visão, alastrando-se a epidemia a toda uma cidade. Depois, à mercê de uma série de condicionantes em que tudo parece desabar, e os piores sentimentos sobem à tona de água, apenas nessa altura nos reconhecemos iguais, propondo-nos reorganizar como sociedade. Somente uma mulher vê, sendo a única a deparar-se com o terror a que a civilização humana está sujeita. Como testemunha, ela obriga-nos a reflectir sobre o que sentimos sobre a nossa própria cultura, ou a forma como a sociedade se encontra estruturada, alertando-nos as consciências para a falta de dignidade humana. Projecto amplo, e drama psicológico, que nos sugere uma alegoria política e filosófica, quando o medo toma conta de cada um de nós.

Não se orientavam, caminhavam rente aos prédios com os braços estendidos para a frente, continuamente esbarravam uns nos outros como as formigas que vão no carreiro, mas quando tal sucedia não se ouviam protestos, nem precisavam falar, uma das famílias despegava-se da parede, avançava ao comprido da que vinha em direcção contrária, e assim seguiam e continuavam até ao próximo encontro… Cegos que, vendo, não vêem.

José Saramago