Tuesday, April 17, 2012

Só a noite nos vê

Na penumbra dos ombros é que tudo começa
quando subitamente só a noite nos vê
E nos abre uma porta nos aponta uma seta
para sermos de novo quem deixámos de ser

David Mourão- Ferreira in Obra Poética (1948-1988)

Saturday, April 14, 2012

Pensamento positivo

Como os pensamentos são as sementes de todas as acções, plante somente aquilo que é bom. Ao plantar sementes positivas o fruto será o melhor.

Brahma Kumaris - Academia para um mundo melhor

Friday, April 13, 2012

Sexta-feira 13

Associado a superstições, há quem pense que pode trazer infortúnios, e nos influência a vida duma forma mais negativa. Para contrariar o que, por vezes, parece irracional, há que afastar uma série de símbolos de mau presságio, quebrando crenças que jogam com os nossos destinos.

Thursday, April 12, 2012

Os poetas

Imaginai que, subterrâneo e distante, vos corre sob os pés um regato, e donde em onde a terra se abre em bocas de verdura, falando o refrescante murmúrio das águas profundas. Assim são os Poetas.

Leonardo Coimbra (1883-1936)

Wednesday, April 11, 2012

Apressar

Tuesday, April 10, 2012

À espera

Não grito de desespero porque nem de desespero sou capaz.
A vida antiga tinha raízes, talvez a vida futura as venha a ter.
A nossa época é horrível porque já não cremos - e não cremos ainda.
O passado desapareceu, do futuro nem alicerces existem.
E aqui estamos nós, sem tecto, entre ruínas, à espera…



Raul Brandão in Memórias - I - prefácio

Sunday, April 8, 2012

Para além dos dias

Redescobrir a Páscoa, através de uma nova esperança, mergulhando num silêncio de luz.

Friday, April 6, 2012

Esvoaçar

Thursday, April 5, 2012

Alucinação

«…hoje é um dia muito estranho para mim, estou a sonhar mas parece-me ser realidade e tenho de encontrar umas pessoas que só existem na minha lembrança.»

Antonio Tabucchi, Requiem – uma alucinação (1991)

Wednesday, April 4, 2012

Beleza de morrer

De muitas coisas se pode morrer
em
Veneza
de velhice de susto
de peste

ou de beleza

poema de Jorge Sousa Braga

Tuesday, April 3, 2012

À beira-mar

Por uns dias, percorro outras paragens, e adiciono-lhes latitudes onde o mar é a principal atracção. Dividida por diversas imagens, torno-me espectadora da coreografia das ondas que, demasiado longe se desfazem contra as rochas, na região litoral de Cascais.

Sunday, April 1, 2012

A chuva que cai

Em Abril águas mil.


Ditado popular

Friday, March 30, 2012

Leitura da cidade

Abro as janelas
e num exercício do olhar
procuro imagens no horizonte
que se perfila pelo espaço público
em meu redor.
Observo o fluxo dos que circulam
de forma livre e espontânea
que se relacionam e articulam
e se aproximam para falar da vida
compondo movimentos
na pluralidade de gestos
que dinamizam a cidade
até ao entardecer.

Monday, March 26, 2012

Caminhos

Perder-se também é caminho.

Clarice Lispector

Sunday, March 25, 2012

O peso triste

Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos


Gastão Cruz - Orgão de Luzes, Im
prensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1990

Thursday, March 22, 2012

Mundo morto


Cada vez que oiço um comboio à noite sinto que a vida não acaba. Passam por trás das casas, no fim do bairro, uma fitinha de janelas iluminadas, rápidas, que estremecem as árvores, estremecem as molduras na parede, me estremecem a mim, e a seguir as árvores, as molduras e eu a recompor-nos, e a seguir nada. Uma espécie de vento, talvez, antes de tudo quieto de novo. Na fitinha de janelas iluminadas nunca há pessoas: os comboios, à noite, não transportam ninguém, dirigem-se não sei para onde, não chegam nunca a parte alguma: viajam interminavelmente, sem destino, indiferentes aos apeadeiros vazios, com uma balança, um relógio e uma máquina automática de cigarros, por vezes cães enrolados entre os bancos desertos, por vezes um pedaço de jornal às cambalhotas nas plataformas onde nenhum passageiro espera: os comboios, à noite, viajam insones num mundo morto, com as insígnias dos pronto-a-vestir apagados e os olhos dos manequins ocos nas vitrinas, os dedos delicados, de pasta, imóveis numa linguagem de surdos-mudos que o escuro não entende: um pedido de socorro, um cumprimento, um aviso? (...)

António Lobo Antunes in “Meu menino, ino, ino” - Visão, 18 de Agosto de 2005

Tuesday, March 20, 2012

Primavera entre luas

Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
E enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça -
e as palavras nascem.
- Límpidas, amargas.




Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.




Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.




Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria -
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.




Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.




- Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, degrau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.




É primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. - É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.


Herberto Helder in poesia toda (assírio & alvim - 1996)

Saturday, March 17, 2012

Sol de Março

O sol de Março queima a menina no palácio.

ditado popular

Wednesday, March 14, 2012

Antes

Antes de um lugar há o seu nome. E ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável

Lembro-me


do quadriculado verde das colinas,
do sol entretido pelos telhados ao longe,
dos rebanhos empurrados nos carreiros,
de um cão pequeno que se atreveu à estrada.


Íamos ou vínhamos?


Maria do Rosário Pedreira

Saturday, March 10, 2012

A desconstrução do poder


Podia ser um guião dum filme, de acordo com Luísa Monteiro, que apresentou o 2º romance de Sandro William Junqueira – Um piano para cavalos altos. Um olhar distorcido sobre a realidade pós moderna, no seu lado mais assustador, onde só os animais escapam, e se exige a reinvenção dos seres humanos.