Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não o
fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. O sol doira Sem
literatura. O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa,
essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está
indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor,
quanto há bruma, Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são
as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez
de criar, seca.
O mais que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada
de finanças Nem consta que tivesse biblioteca...
É na companhia do jazz, que preparo o
almoço, em mais um domingo quente. Entre uma peça sombria e melancólica, e
outra um pouco mais dinâmica, desenvolvo a minha paixão pela cozinha, sempre em
absoluta espontaneidade. O som ajuda-me a criar a conjugação ideal de
ingredientes, e em poucos minutos, tenho aí um risoto al funghi e gorgonzola a
sucumbir.
De regresso, e sem dificuldade de
reintegração, uma vez mais sentem-se em casa no seu beiral. Ano após ano, o
mesmo casal de andorinhas chega a cada Primavera, sobrevoando fronteiras, sem
arrepiar caminho, vagueando após inúmeras derivas. Quando os filhos ganham
independência, voltam a partir numa trajectória migratória a milhares de
quilómetros daqui. Até para o ano!
Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca
cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe entre o
número um e o número dois, de como vi a linha de
mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música
existe uma nota, entre dois fatos existe um
fato, entre dois grãos de areia por
mais juntos que estejam existe um intervalo de
espaço, existe um sentir que é entre
o sentir - nos interstícios da matéria
primordial está a linha de mistério e
fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do
mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
Não sei como dizer-te que a minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e casta. Não sei o que quer dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima - eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas de melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço e o coração é uma semente inventada em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como se toda a minha cara ardesse pousada na noite. - E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo - não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço e penso que vou dizer algo cheio de razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me falta um girassol, uma pedra, uma ave qualquer coisa extraordinária. Porque não sei como dizer-te sem milagres que dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o leite, a mãe, o amor, que te procuram.
Herberto Helder - excerto do poema Tríptico in A colher na Boca - 1961
Fui escolhendo as mais maduras, suculentas e doces, em gestos espontâneos, em cadência vagarosa. Uma a uma, saboreei-as, ininterruptamente, doces e brilhantes, com intensidade dramática. Sem pretender abrandar, estas foram as primeiras deste ano.