Friday, June 7, 2013

O desejo da velocidade

O que, à partida, parecia um curto percurso é, apesar de tudo, um exercício de aproximação. Registo-o, à deriva, entre as fissuras das rochas, ou no topo de um pauzinho, preciso e belo, cheio de segurança e serenidade, em escorregadia fluidez. Vindo de um outro horizonte, parece querer atravessar a geografia invisível, com os pauzinhos ao sol. Apesar de lento, num ápice, configura um caminho, movendo-se com esforço, em muitos campos e em diversas direcções, criando a ilusão de um movimento intenso. 

Thursday, June 6, 2013

A lenda

Ainda não fui, mas o tema, deste ano, do Festival Internacional de Esculturas na Areia, em Pêra – o maior do género em todo o mundo e único na Península Ibérica é a música! E, quem, senão a mais famosa estrela de rock and roll para homenagear!? Porém, visitei já, em 2004, Graceland - a sua residência oficial, de 1957 a 1977, quando morreu, em Memphis, Tennessee. No melhor estilo colonial americano, a mansão de Graceland inserida num espaço de 17 hectares, vai muito para além do simples kitsch, tornando-se num verdadeiro santuário visitado diariamente por uma verdadeira legião de fãs.

Wednesday, June 5, 2013

Botão-azul


De aparência leve, a sua presença é bem ilustrativa nos diferentes cenários do meu quotidiano, pela forma como se movimentam, ao sabor da brisa, ganhando elegância, entre as pedras, ou à beira dos caminhos, que percorro. 

Tuesday, June 4, 2013

Coisas mudas

Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra.

Não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há coisas mudas
ocultas no que se diz

Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!

Herberto Helder

Monday, June 3, 2013

Pequenos Gigantes





No âmbito das comemorações do dia mundial da criança, teve lugar no passado sábado dia 1 de Junho, a apresentação da obra «Os pequenos gigantes» dos alunos das escolas do concelho de Albufeira, seguido de uma pequena dramatização da adaptação do conto de António Torrado «O pinto Pintão».

Friday, May 31, 2013

Voltinhas

Ó Rosa, arredonda a saia,
Ó Rosa, arredonda-a bem!
Ó Rosa, arredonda a saia,
Olha a roda que ela tem
Olha a roda que ela tem,
Olha a roda que ela tinha!
Ó Rosa, arredonda a saia,
Que fique bem redondinha!
[Refrão]
A saia que traz vestida,
É bonita e bem feita,
Não é curta, nem comprida,
Não é larga, nem estreita.

Thursday, May 30, 2013

Impulso criativo


Wednesday, May 29, 2013

A aura das horas

O passado não existe. Assim me acontece às vezes que toda a minha vida de outrora se me revela ilegível: o que a forma não são factos, sentimentos que se analisem ou reconheçam, mas os ecos alarmantes de um labirinto onde a chuva, o sol ou o vento repercutem e quase criam uma estranha vibração. São vozes que me chamam dos quatro cantos do espaço e eu não ouço senão quando a aura das horas mas lembra.


Vergílio Ferreira in Aparição

Tuesday, May 28, 2013

Olhar panorâmico


Suspensas no ar, as nuvens são uma janela rasgada que, acompanho com o olhar. Emergem no céu, à deriva, perdidas num espaço em dispersão que, jamais, se esgota. O seu caminho é incerto e, dominam-me a atenção através das mais inesperadas imagens, com diferentes possibilidades de leitura, misto de estranheza e fascínio.

Monday, May 27, 2013

O sabor do sempre

Foi para ti 
que desfolhei a chuva 
para ti soltei o perfume da terra 
toquei no nada 
e para ti foi tudo 

Para ti criei todas as palavras 
e todas me faltaram 
no minuto em que talhei 
o sabor do sempre 

Para ti dei voz 
às minhas mãos 
abri os gomos do tempo 
assaltei o mundo 
e pensei que tudo estava em nós 
nesse doce engano 
de tudo sermos donos 
sem nada termos 
simplesmente porque era de noite 
e não dormíamos 
eu descia em teu peito 
para me procurar 
e antes que a escuridão 
nos cingisse a cintura 
ficávamos nos olhos 
vivendo de um só 
amando de uma só vida 

Mia Couto in Raiz de Orvalho e Outros P
oemas

Sunday, May 26, 2013

Saturday, May 25, 2013

Para além do tempo e matéria




A Brahma Kumaris proporcionou, uma vez mais, a palestra «Além das influências», na Biblioteca Lídia Jorge, através da qual nos demonstrou o quão importante são os nossos pensamentos. Nesta altura de transição é importante distanciarmo-nos das situações menos positivas do exterior que, tanta inquietação nos causam, para tentarmos desenvolver uma disciplina interior que, nos leve a relembrar quem somos na realidade. Quanto mais focados no exercício do silêncio e meditação, mais facilmente experimentamos a paz e o equilíbrio, tornando-nos mais capazes de enfrentar o desafios da vida. 



A luz para iluminar o caminho está bem próxima: dentro de nós. Somos seres de luz. Quando conseguimos acender a percepção das nossas qualidades, todo o cenário se transforma. A vida adquire novas nuances. A alma humana inunda-se de beleza.


Brahma Kumaris

Friday, May 24, 2013

Pelas bermas dos caminhos



No decurso dos passeios, a Primavera presenteia-nos com pequenos gestos de subtileza. Num jogo de composições aleatórias, enrolam-se, graciosamente, em estruturas de arame, florescendo até uma posição cimeira.

Thursday, May 23, 2013

As formas que ninguém ouve

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar


José Tolentino Mendonça

Wednesday, May 22, 2013

Instante


És tu a Primavera que eu esperava,
 A vida multiplicada e brilhante,
 Em que é pleno e perfeito cada instante.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Tuesday, May 21, 2013

Vigilância



Perguntarás aos peixes
como se dorme
de olhos abertos. Porque o sono
dos vivos é um fosso
de víboras
insones. E precisas
por isso
de estar atento. De dormir
acordado.

albano martins

Monday, May 20, 2013

Jogos de mãos e pés

As palmas, os sons do sapateado e suas combinações rítmicas, imprimem-lhe a força. Pernas e braços esguios improvisam-lhe os gestos numa contorção de corpos que, harmoniosamente rodopiam diante mim. Os trajes coloridos, os leques e as mantilhas, conferem-lhe a elegância e graciosidade, recriando o ambiente de festa andaluza. A essência do flamenco vai muito para além da coreografia em palco. A sensualidade dos movimentos e voltas não só nos conquista como se perpetua com o decorrer dos tempos

Sunday, May 19, 2013

Estado de libertação


Saturday, May 18, 2013

Dúvidas

Alice sentia-se tão desesperada que estava pronta para pedir ajuda a qualquer um: então, quando o Coelho chegou perto dela, a menina dirigiu-lhe a palavra em voz baixa: "Por favor, Senhor...". Ao mesmo tempo o Coelho parou abruptamente, deixando cair as luvas brancas e o leque, e desapareceu em direcção à escuridão tão rápido quanto pode. Alice apanhou o leque e as luvas, e, começou a abanar-se enquanto falava:

"Meu Deus! Como tudo está tão estranho hoje! E ontem as coisas até pareciam normais! O que será que mudou do dia para a noite? Deixa-me ver: eu era a mesma quando acordei de manhã? Tenho a sensação de me sentir um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima questão é "Quem sou eu?" Ah! Mas que grande confusão!" E Alice começou a pensar em todas as crianças que ela conhecia e que tinham a mesma idade dela, para ver se se teria transformado nalguma delas.
«Eu tenho a certeza que não sou a Ada», disse ela, «porque os cabelos dela são encaracolados e os meus não. E tenho a certeza que não sou a Mabel porque eu sei muitas coisas e ela, oh! Ela não sabe quase nada. Além disso ela é ela e eu sou eu». 

Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll

Friday, May 17, 2013

A árvore da romã


O acaso permitiu-me reparar nela. Ao longo de mais de duas semanas, aguardei com expectativa que árvore seria aquela de abundantes sementes, que brotava flores de um alaranjado intenso e tão vibrante brilho. Tardava em descobrir, apesar do particular interesse que me parecia trocar as voltas. Natureza adentro, e confrontada com a dúvida, eis que laivos de luz entre os ramos acabam por me indiciar todas as pistas, cantada nos seguintes versos:

Teus lábios são como um fio de púrpura, e graciosa é tua boca. Tua face é como um pedaço de romã debaixo do teu véu.

Cântico dos Cânticos de Salomão - capítulo 4, versículo 3

Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, vejamos se florescem as vides, se estão abertas as suas flores, e se as romãzeiras já estão em flor; ali te darei o meu amor.

Cântico dos cânticos de Salomão – capítulo 7, versículo 12