Saturday, July 13, 2013

A fuga

Ao perceber que a porta estava apenas encostada, resolveu entrar.
À primeira vista, a menina, reparou que sobre a mesa havia três tigelinhas de papa de aveia. Como estava com muita fome, resolveu provar.
Provou, então, a papa da tigela maior, que pertencia ao pai urso, mas achou-a muito quente.
Provou da tigela do meio, da mãe ursa, e achou-a muito fria. Provou da tigelinha mais pequena e achou-a tão deliciosa, que sem resistir comeu a papa toda do bebé urso.
Depois, acabou por adormecer e só acordou com os gritos dos ursos que, entretanto, tinham regressado a casa. Ficou assustadíssima quando viu os três, saltou da cama, correu pelo quarto, escapou-se pela janela e continuou a correr pela floresta, tão depressa quanto suas pernas permitiam.



Robert Southey in os três ursos, 1837

Friday, July 12, 2013

Actuações






O ritmo é sincopado, com tanto de subtil quanto de intensidade dramática, quando os movimentos do corpo adquirem um estilo coreográfico próprio produzindo o som que tão bem conhecemos de tantos filmes, de uma determinada época. O resultado do sapateado só poderia ser surpreendente para quem vê e escuta!

Thursday, July 11, 2013

As escamas sem brilho

E então o círculo começa a desenhar-se obliqua-
mente, na fosforescência da sua nudez. Nos inters-

tícios, uma luz rugosa deixa rolar as

 escamas sem
brilho dos peixes mortos.
A tarde é um relâmpago apagado, sem fulgor. São
as vésperas da noite, dizem, mas o espaço volatilizou-se,
as estrelas, móveis, tombaram em cascata no fundo
do poço.


É o vazio do círculo, a sua face excêntrica.



Albano Martins in 
O Mesmo Nome - Campo das Letras, 1996

Wednesday, July 10, 2013

Em simultâneo


Tuesday, July 9, 2013

Uma beleza maiúscula

Sempre que penso em ti estás a dançar levemente  num clima de canela despenteada, ó aroma vagaroso, desordem aérea, mas a memória tem pressa, o sangue tem pressa interna, e antes de pensar tremo, e depois tremo, pelo meio desenvolve-se  o pavor de uma beleza maiúscula, o coração corre entre iluminuras rápidas, é uma criança sucessiva nas pautas da musica, assim escrevo uma nação simultânea, desapareces na respiração do teu vestido, entretanto a revelação anuncia-se pelo medo, curvas-te como as aldeias devoradas pela lua, mais tarde sempre que penso em ti estás com um lenço escrito nas duas mãos, e a tua velocidade abranda junto aos espelhos, expandes-te assim lentamente gravada, és uma floresta de silêncios visíveis, sempre que penso penso sempre ao contrário do fim, estás cada vez mais no princípio de ti mesma, então vejo que nesse lugar é o meu começo eterno, quando danças é um corpo rodeando a brancura rodeada ou de novo qualquer coisa criminal entre o cuidado e o espaço, nas linhas puras da solidão arde a cabeça, arde o vento, atrás de ti as imagens assassinas da noite - estrelas: subversão da noite, sempre que penso em ti danço até à ressurreição do tempo.


Herberto Helder in Os animais carníveros 

Monday, July 8, 2013

Reveses dum jogo

Os dias confundem-se
alimentando desconfianças
num espaço sem espaço
onde a noção do tempo se diluiu
Espartilhados pela rigidez
há um certo sentimento de colapso
no ar
onde os sonhos se perderam
por aí além
resignados à fatalidade
de intensidade dramática
que só acrescenta
mais desespero  às nossas vidas

Sunday, July 7, 2013

Coisas de Verão

Só pelo prazer, mergulho, vagarosamente, neste mar imenso. Dispenso a exposição ao sol, e a angústia de pensar de dimensão trágica. Tendo em conta que se tornou difícil aceitar tanta realidade, e perante um vazio ainda maior, opto por multiplicar as retrospectivas, porque o caminho também se faz flutuando.

Saturday, July 6, 2013

A semente do fruto


Os navegadores gregos espalharam-nas pela região mediterrânica, e em Fevereiro e Março as inúmeras árvores proporcionam-nos um deslumbrante espectáculo, ao mesmo tempo que nos anunciam a Primavera. Nos meus passeios com o Rico, episódios destes repetem-se inscritos na natureza do olhar. Para o mês que vem, estarão prontas a colher para a confecção de doçaria e utilização de óleos e essências. Uma autêntica dádiva dos deuses e verdadeira fonte de inspiração.

Então Israel, seu pai, disse-lhes: «Se tem que ser assim, que seja! Coloquem alguns dos melhores produtos da nossa terra na bagagem e levem-nos como presente ao tal homem: um pouco de bálsamo, um pouco de mel, algumas especiarias e mirra, algumas nozes de pistache e amêndoas.»


Génesis 43:11                         

Friday, July 5, 2013

Cena final


Thursday, July 4, 2013

Uma guerra civil

O poema pode conter:
coisas certas, coisas incorrectas, venenos para
manter fora do alcance
excursões campestres, falhas de memória
uma bicicleta caída junto às primeiras paixões
sombrias
Pode conter Le matin, Le midi, Le soir
audácias típicas de um visionário
uma guerra civil
um disco dos Smiths
correntes marítimas em vez de correntes literárias

José Tolentino de Mendonça in O Viajante Sem Sono
, Assírio & Alvim 

Wednesday, July 3, 2013

O estado de irrealidade

E de repente chegou a Rainha. Quis jogar críquete com Alice, e foi uma confusão.
O gato fez cair a Rainha...!
Porém, ao levantar-se... ela gritou que lhe faltavam os brincos!
- Eu não os tirei! Disse a Alice assustada.
- O meu carrasco vai-te cortar a cabeça - anunciou a Rainha.
- Levem-na para a cela! - gritou furibunda.
Nesse momento Alice voltou ao mundo real...!
Tinha tido um pesadelo?
Olhando em volta descobriu o coelho branco junto a uma árvore florida.
O coelho afinal existia mesmo!

Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas

Tuesday, July 2, 2013

O cenário

Obediente e submisso, ignorou realidades e acreditou que a austeridade seria a solução, ultrapassando tudo o que estava previsto, por mera opção ideológica. De crise em crise, e insatisfeito com os seus próprios resultados, partiu. Exige-se um pouco de folga, e uma mudança de rumo que permita que a economia, finalmente, cresça.

Monday, July 1, 2013

Ouro

Quem em Julho ara e fia, ouro cria.

provérbio

Sunday, June 30, 2013

Saudade


 
O amor nos condena:
 demoras
 mesmo quando chegas antes.
 Porque não é no tempo que eu te espero.

 Espero-te antes de haver vida
 e és tu quem faz nascer os dias.

 Quando chegas
 já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

 Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto, in idades cidades divindades

Saturday, June 29, 2013

Visões







Crescem selvagens, em várias direcções, cobertos de espinhos, de onde também surgem flores deslumbrantes com pétalas amarelas ou alaranjadas. No meu caminho dos cactos, os frutos, quando maduros, são alongados e carnudos, apresentando cor roxa de polpa refrescante e sabor exótico aos quais se atribuem não só propriedades curativas como afrodisíacas! Aqui, nas mais quentes e áridas regiões, onde eu e o Rico nos encontramos, os cactos (de altura média de uma pessoa) têm servido, até aos nossos dias, para demarcar os terrenos uns dos outros, e nos deliciar com todo o seu colorido e magia.

Friday, June 28, 2013

Méritos do elenco


Thursday, June 27, 2013

Se te pedirem

   Se te pedirem, amor, se te pedirem
 que contes a velha história
 da nau que partiu
 e se perdeu,
 não contes, amor, não contes
 que o mar és tu
 e a nau sou eu. 

Fernanddo Namora

Wednesday, June 26, 2013

Pedaço de vida

Vulgarmente designada por orquídea selvagem, a anacamptis pyramidalis não se restringe a um maravilhoso colorido arroxeado. Ao seguir-lhe o rasto pelo ligeiro aroma adocicado, observo como a fragilidade da sua singular forma de pirâmide, se projecta num jogo de imagens de sonho, na lentidão do tempo.

Tuesday, June 25, 2013

Experiência gastronómica




Visualmente muito apelativa, a cozinha japonesa não se limita ao sushi. Elaborada com arte, sofisticação e requinte, desperta-nos os sentidos mais adormecidos, através das suas cores, aromas e delicados sabores. A não perder.

Monday, June 24, 2013

O bafo no rosto

Quero um erro de gramática que refaça
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.


Herberto Helder in Ofício Cantante - Poesia Completa, 2009