Nunca mais tiveram paz. Entre o
quotidiano lúgubre e o que viveram, esta era, agora, a vida deles.
Definitivamente, a realidade não era mais a de outrora. Os sacrifícios tinham
sido demasiados e mal dirigidos, as decisões cegas, os desnivelamentos sociais mais
que evidentes e o rumo ter-se-ia complicado. Estes eram eles, e nenhum era mais
inocente do que o outro. Fingir que não falharam? Só se estivessem a brincar
com eles! Sem se ver o fim, e cansados de esperar por quem os fosse salvar, mais
do que nunca, era necessário contrariar o que estava a acontecer, desviar o olhar
e voltar a sentir os dias de outra maneira. Entre todos havia uma unanimidade de
um desejo maior. O de descobrir novas medidas e outras soluções.
Wednesday, November 27, 2013
Tuesday, November 26, 2013
A nudez da alma
Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
Sophia de Mello Breyner Andresen in Tempo Dividido, 1954
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
Sophia de Mello Breyner Andresen in Tempo Dividido, 1954
Monday, November 25, 2013
Uma série de fantasmas
O que era vida irreal, é agora realidade,
o que era vergonha, ninharia e ridículo, é vida agora.
O que toma pé são os sonhos,
o que se agita são as paixões desregradas.
Não há limites nem peias.
Vêem-nos como eu te vejo a ti.
Tenho diante de mim este espectáculo,
como se fosse possível aos homens desdobrarem-se
e tomarem corpo, ideias e paixões.
Eles são aquilo que ocultamente desejavam ser,
são o que não se atreviam a ser.
Sob um mundo de verdade há outro mundo de verdade.
É esse mundo invisível e profundo
que passa a ser o inundo visível.
É esse.
Todo o homem é uma série de fantasmas
e passa a vida a arredá-los.
Chegou a vez dos fantasmas.
As nossas ideias e paixões
é que formam as figuras que actuam na vida.
raul brandão in húmus - a outra coisa, fragmento frenesi 2000
Sunday, November 24, 2013
Saturday, November 23, 2013
Friday, November 22, 2013
Um lugar na História
A nostalgia dos anos 60 faz-nos, hoje,
recuar 50 anos, a um fatídico regresso ao passado. Por detrás do mistério da
morte de JFK que, um golpe de tragédia, em directo, acabou por reforçar o mito,
tudo nos recorda o homem sedutor e de grande capacidade política que, nunca
deve ser esquecido.
Thursday, November 21, 2013
Não digas nada
Faz-me
o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor
o que dirá
Tua
boca velada
É
ouvir-te já.
É
ouvir-te melhor
Do
que o dirias.
O
que és não vem à flor
Das
caras e dos dias.
Tu
és melhor - muito melhor!
Do
que tu. Não digas nada. Sê
Alma
do corpo nu
Que
do espelho se vê.
Mário Cesariny (1923-2006)
Wednesday, November 20, 2013
Os lugares revisitados
Certos episódios da sua vida poder-se-iam
definir tanto reais como imaginários. A um canto do jardim, mas não a demasiada
distância, encontrava-se uma pequena casa para pássaros. A excitação do
regresso de alguma ave mais inquieta repetir-se-ia ao longo das diferentes
estações do ano. Espectadora atenta, acaba por desenvolver uma intuição apurada
que lhe deslindasse quaisquer sinais, e a única referência, ressalte-se, face à
expectativa, era continuar a sonhar com a sua própria fuga e libertação como se
as suas vidas coexistissem e originassem alguma coisa de novo.
Tuesday, November 19, 2013
Passagens interditas
cheguei às portas secretas
atravessei as passagens interditas
e
no labirinto que negou os meus passos
vi tesouros que não eram meus
Maria Alexandre Dáskalos
Monday, November 18, 2013
Sunday, November 17, 2013
Espantar o frio
Depois do sol, os fins de tarde
passaram, então, a ser reservados junto à lareira. Era para lá que a atenção se
deslocava, tardiamente, aquando as indesejadas temperaturas mais baixas. Em
redor, uma a uma, as crianças iam-se aproximando à vez, mantendo a tradição
viva, em busca do lugar mais quentinho. Tudo o resto deixava de ser questão.
Saturday, November 16, 2013
Friday, November 15, 2013
O tempo de oiro
Era o tempo das amizades visionárias
Entregues à sombra à luz à penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo desejo e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo de oiro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Thursday, November 14, 2013
Refém de uma má opção
Apesar de ela compreender que a
toponímia era essencial para preservar as raízes de cada localidade, propunha
uma revisão mais cuidada ao nome da sua rua, através de uma nova leitura que, se
ajustasse a uma informação factual isenta de artifícios. E que, mesmo longínqua
no tempo, fosse real, e se relacionasse com uma lógica agora inexistente. Não
se importava que evocassem um passado, mas ao mesmo tempo, exigia que lhe
prometessem um futuro que, a partir de recordações concretas, conduzissem o
processo a uma escolha consensual e justa.
Wednesday, November 13, 2013
Uma coisa inocente
Estendi a mão
por qualquer coisa inocente
uma pedra, um fio de erva, um milagre
preciso que me digas agora
uma coisa inocente
Não uses palavras
qualquer palavra que me digas há-de doer
pelo menos mil anos
não te prepares, não desejes os detalhes
preciso que docemente o vento
o longínquo e o próximo
espalhe o amor que não teme
Não uses palavras
se me segredas
aquilo que no fundo das nossas mentiras
se tornou uma verdade sublime
José Tolentino
Mendonça
Tuesday, November 12, 2013
Monday, November 11, 2013
Por portas e travessas
Através dos vidros límpidos, atrás
dos quais se escondia, a cada dia retomava o registo da vida de personagens a
quem dava vida. Os movimentos e as expressões dos corpos, e os passos
apressados, tal como os mais miudinhos, transformavam-se numa experiência de
partilha num contínuo recomeçar. Em cada um deles procurava uma história que, ainda
que a preto e branco, deixasse advinhar, com exactidão, os mais variados
retratos, dentro da maior diversidade, no pressuposto de que pudessem existir.
Sunday, November 10, 2013
A dúvida
Então, enchendo-se de curiosidade, correu atrás do
coelho campo afora, chegando justamente a tempo de o ver desaparecer numa
grande toca sob a cerca. No instante seguinte, Alice entrou na toca atrás dele,
sem sequer pensar em como é que iria sair dali depois.
A toca do coelho, de início,
alongava-se como um túnel, mas de repente abria-se como um poço, tão de repente
que Alice nem teve um segundo sequer para pensar em parar, antes de cair no que
parecia ser um buraco muito fundo. Ou o poço era profundo demais, ou ela caía
muito devagar, pois teve tempo de sobra durante a queda para olhar em volta e perguntar-se
o que iria acontecer a seguir.
Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas
Saturday, November 9, 2013
Da tranquila distância
De longe te hei-de amar
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.
Cecília Meireles in Canções
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.
Cecília Meireles in Canções
Friday, November 8, 2013
Uma análise aprofundada
Por um ímpeto, tudo somado poderia considerar-se valioso. Uma
panóplia de elementos que se tornara um bom exemplo duma colecção
essencialmente romântica. Eis, o seu espaço-tempo de sonho! Poderia ter
recolhido caixas de fósforos, bilhetes de autocarro, antigos cromos, ou encaixilhado
borboletas espalmadas, ou optado por apanhar pequenas conchas na praia, mas a
sua escolha revelava-se, afinal, mais inventiva. Rebuscadas procuras, davam
destaque a outro tipo de objectos que, certamente exigiriam algum investimento,
ao longo dos anos. Contudo, a necessidade de guardar era mais forte que
qualquer outra coisa, e o início do seu espírito empreendedor.
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