Saturday, August 9, 2014

Às voltas com a vida

Pontualmente começaram por a surpreender e causar uma certa emoção. O mundo, simplesmente, apresentava-se maravilhoso, no dia-a-dia. É então que desentendimentos e brigas, notoriamente mais sérias, põem um final à promessa de felicidade eterna comum a todo o ser humano. Por outro lado, ela continuava a receber flores, prestes a converterem-se de novo em poesia. 

Friday, August 8, 2014

Exaltação do branco


Thursday, August 7, 2014

Troca de favores

- Bom dia, gente de outras terras – cumprimenta a Fada com ar solene, inclinando-se para Dorothy e seus companheiros.
- Bom dia – responde Dorothy com a voz meio trémula de emoção.
- Em que posso ser útil?
Os olhos de Dorothy brilhavam. Ela queria dizer mil coisas, mas limita-se a pedir para voltar ao Kansas.
-  A minha tia Ema deve estar a pensar no pior. Talvez já esteja de luto – justifica.
A fada boa aproxima-se de Dorothy, e inclinando-se beija-lhe a testa:
- Abençoado seja sempre o seu coração, menina. Em breve, estará com a sua família, mas em troca, quero a Touca de Ouro.
- Oh, claro!
Dorothy entrega a Touca à Fada. Nesse momento, o seu coração batia tão depressa, quanto a sua imaginação voava tal como uma andorinha sobrevoando o céu, em direção a casa.

L. Frank Baum in O Feiticeiro de Oz

Wednesday, August 6, 2014

O vestido único

Todas as roupas usadas
próprias do Verão são aquele
vestido único, porque me haviam dito
que ao entrar pelos olhos
ele me cobria de fulgor.
Fiama Hassa Pais Brandão in Cena Vivas
Relógio d´Água

Tuesday, August 5, 2014

Amizades

Junto dela, limitava-se a cumprir a sua função. Bastava-lhe estar a seu lado, da alegria à tristeza tão real como nenhum outro. Definido à partida como seu aliado, escutá-la em lamúrias ou aventuras inventadas, constituía uma referência no emaranhado da memória, onde desfilavam imagens verdadeiramente mágicas.

Monday, August 4, 2014

Visão

Porque eu sou do tamanho do que vejo. E não do tamanho da minha altura...

Alberto Caeiro

Sunday, August 3, 2014

O soluço da fala

Retorna
à escuridão
o rosto: entre centelhas, ficasse tão maduro quando
de te tragar
estremecesses, que o animassem
os elementos: um interior: um limite do mundo,
e se afinasse como um galho de marfim
cheio de lume, que fosse um instrumento
de crescer na terra: um golpe
nela, abraço
com a mão coroada,
até á bolsa com alua dentro,
no ovo está o astro, se pelos dedos
nesse rosto
te plantasses todo na riqueza do sono,
soldado a nervos: osso, feixe de fibras
tímpanos, e as faíscas saltando pelas unhas
as deixassem ígneas,
e a veia arpoasse igneamente a massa
muscular, ou
a aorta sorvesse a matéria
tremenda
ao seu abismo, e te encharcasse até ás pálpebras
essa púrpura por válvulas
contra os dentes. nos fundamentos há
vezes
em que és ligeiro ao movimento da água,
ou nas paredes onde os canos se cruzam
como um corpo onde se cruzam órgãos
tubos, um alento das coisas: dos tecidos
do mundo, e por exemplo se a louça e o inox
brilhados de dentro: à mesa
e a madeira respira mais rápida
e uma grande massa orgânica magnifica
cercada de membros
como um homem
essa pinças na cabeça entre as meninges
extraindo uma estrela,
os canais luminosos da cabeça
iluminam-te todo, iluminas-te
quando se arranca a língua e há um soluço da fala,
levantas-te soberbamente
ao rosto, como a vara
do vedor fica acesa
pelas ramas de água, como que salga
o aparelho do corpo
e o torna substancia
alta giratória ou se fulgura a trama
cristalográfica
terrifica da musica se levanta
entre os dedos e cordas
fundido de sangue e ar no escuro:
música
o medo do poder, esta ferida
tão de um nó de músculos estrangulando
uma leveza
o barro violento, a manobra
das vozes. Fechas os olhos e as
coisas não te vêem,
as mãos brilham-te abertas.



Herberto Helder

Saturday, August 2, 2014

Em simultâneo


Friday, August 1, 2014

Salve-se quem puder

Novos factos parecem comprometer a sua solidez como instituição. Interesses e negócios de uma teia de ligações ao poder, sem transparência e falta de ética empresarial, deixa-nos inquietos quando tantos contornos há ainda por apurar. A dimensão das perdas, umas a seguir às outras, estão certamente em causa quando os activos desvalorizam e os efeitos se prevêem tão penalizadores. 

Thursday, July 31, 2014

Na diagonal

Sabe o que se faz? Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha, estica a alma na diagonal. Depois, fica assim, caladita, rentinha ao chão, até sentir a terra se enamorar de si. Digo-lhe, Dona: quando ficamos calados, igual a uma pedra, acabamos por escutar os sotaques da terra.


Mia Couto in Mar me quer

Wednesday, July 30, 2014

Que faremos?

Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então
virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.
 E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o
leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos
benignos que faremos?

Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio & Alvim - 2ª edição - 2001

Tuesday, July 29, 2014

Um esboço

É nas linhas das mãos que os deuses escrevem
os mais belos romances. Nas nossas, porém, somente
elaboraram um divertimento, um esboço, um rascunho,
nem sequer literatura.


Maria do Rosário Pedreira in 
A casa e o cheiro dos livros

Monday, July 28, 2014

Quando

Todo homem é poeta quando está apaixonado.


Platão (427 ac - 347 ac)

Sunday, July 27, 2014

No enquadramento

Consciente do aroma, corria o risco de se perder nas recordações de um tempo anterior. A força dos sinais levava-a a redescobrir algo ainda não sedimentado tantas eram as fragrâncias tão diferenciadas. Num intervalo que, podia ser entendido como um breve instante, as possibilidades eram incontáveis, de contornos indefiníveis, e intensas. Ainda assim, não se sabia bem onde acabavam. Complexificando, caberiam provavelmente na preservação da sua memória mais distante. 

Saturday, July 26, 2014

Proposta artística


Friday, July 25, 2014

A nudez

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.


António Ramos Rosa

Thursday, July 24, 2014

A desorientação



 Sem rumo certo, Alice continuou a andar quando, inesperadamente, encontrou um gato risonho: 
- Pode indicar-me o caminho que devo seguir? Disse a menina. 
- Humm! Mas para onde deseja ir? - perguntou o gato.  
- Não sei!...



Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas

Wednesday, July 23, 2014

A conflitualidade

O cessar-fogo ou as tréguas tardam, quando não parece haver resolução pacífica a curto prazo, numa realidade difícil de gerir. Sem eficácia nas acções internacionais e numa luta sem proporcionalidade, completamente entregues à sua sorte, o número de civis não pára de aumentar. Uma vez terminadas as hostilidades que mais ainda se seguirá?

Tuesday, July 22, 2014

Interrogação

que música serias
se não fosses água?


Eugénio de Andrade

Monday, July 21, 2014

Olhos de poeta


Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Rubem Alves (escritor brasileiro 1933-2014) da versão on line da «Folha de S. Paulo» de 26 de Outubro de 2004