Tuesday, November 17, 2015

Gesto artístico


Monday, November 16, 2015

Sunday, November 15, 2015

Domingo

Domingo não é um dia. É uma ausência de dia.


Mia Couto in O último voo do tucano

Saturday, November 14, 2015

Friday, November 13, 2015

Que e quando

"O que for, quando for, é que será o que é."


Alberto Caeiro

Thursday, November 12, 2015

A comprovação


Ao ver Alice, a rainha ordenou furiosa: - “Cortem-lhe a cabeça imediatamente!”. Mas o rei murmurou: - “Minha querida, talvez ela saiba jogar croquet…”. Então a rainha pensou por uns segundos e depois gritou: “Dêem-lhe uma bola e um taco e vamos ver do que ela é capaz!”.

Alice pegou no taco e na bola mas viu logo que este não ia ser um jogo fácil de jogar. Os tacos eram flamingos cor-de-rosa que tentavam fugir e as bolas eram ouriços-cacheiros que, por não quererem ser batidos, não paravam quietos!




Lewis Carrol in Alice no País das Maravilhas

Wednesday, November 11, 2015

Trajecto fluvial










Tuesday, November 10, 2015

Despertar

Ela não queria
os galãs ou amores de cinema
só queria um amor tão certo
quanto o café que ela bebia
todos os dias ao acordar.


Zack Magiezi

Monday, November 9, 2015

Tuesday, November 3, 2015

Tempo outonal


Monday, November 2, 2015

Tempo de espera


Sunday, November 1, 2015

Antes e depois

Quando a natureza se encarrega de tudo repor no seu lugar.

Saturday, October 31, 2015

Thursday, October 29, 2015

Um breve momento

O Paraíso não é um lugar mas um breve momento que conquistamos dentro de nós.

Mia Couto

Wednesday, October 28, 2015

Escolha afectiva


Tuesday, October 27, 2015

O longo apelo

Não fora o mar, 
e eu seria feliz na minha rua, 
neste primeiro andar da minha casa 
a ver, de dia, o sol, de noite 
a lua, calada, quieta, sem um golpe de asa. 

Não fora o mar, 
e seriam contados os meus passos, 
tantos para viver, para morrer, 
tantos os movimentos dos meus braços, 
pequena angústia, pequeno prazer. 

Não fora o mar, 
e os seus sonhos seriam sem violência 
como irisadas bolas de sabão, 
efémero cristal, branca aparência, 
e o resto — pingos de água em minha mão. 

Não fora o mar, 
e este cruel desejo de aventura 
seria vaga música ao sol pôr 
nem sequer brasa viva, queimadura, 
pouco mais que o perfume duma flor. 

Não fora o mar 
e o longo apelo, o canto da sereia, 
apenas ilusão, miragem, 
breve canção, passo breve na areia, 
desejo balbuciante de viagem. 

Não fora o mar 
e, resignada, em vez de olhar os astros 
tudo o que é alto, inacessível, fundo, 
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros, 
iria de olhos baixos pelo mundo. 

Não fora o mar 
e o meu canto seria flor e mel, 
asa de borboleta, rouxinol, 
e não rude halali, garra cruel, 
Águia Real que desafia o sol. 

Não fora o mar 
e este potro selvagem, sem arção, 
crinas ao vento, com arreio, 
meu altivo, indomável coração, 

Não fora o mar 
e comeria à mão, 
não fora o mar 
e aceitaria o freio. 

Fernanda de Castro in «Trinta e Nove Poemas», 1941

Monday, October 26, 2015

Em curso

Quando drasticamente tudo muda, o exercício parece, à partida, bastante difícil. A morte anunciada condenava-o à queda e obrigava a um tempo de viragem, em território, ainda por explorar. Embora as interpretações demonstrassem que tudo seria justificável o espectro da conjuntura mudava e, finalmente, entrava em algo real e muito concreto. As motivações eram fortes e o esforço de negociações positivo, abrindo-se uma porta que não voltaria a fechar. É nessa altura que o futuro se torna inevitável. 

Sunday, October 25, 2015

A escolha

Que linda falua
Que lá vem, lá vem!
É uma falua
Que vem de Belém.

Vou pedir ao senhor barqueiro
Quem me deixe passar
Tenho filhos pequeninos
Que não posso sustentar.

Passará, passará
Mas algum ficará
Se não for a mãe da frente
É o filho lá de trás.

Saturday, October 24, 2015

Thursday, October 22, 2015

A cabeça

A teoria era esta: arrasar tudo — mas alguém pegou
na máquina de filmar e pôs em gravitação uma cabeça recolhendo-a
de um lado e descrevendo-a de outro lado num sulco
vibrante «parecia um meteoro»
como se fosse muito simples e então a cabeça desaparecia «a lua»
a ferver a grande velocidade pelo céu dentro
«um buraco»
via-se apenas a intensidade «estávamos com medo pois aquilo
assemelhava-se a uma revelação» e foi quando ele apanhou a cabeça
outra vez
e era agora uma cabeça furiosa
«cheia de peso» dizia-se «a luz agarra qualquer coisa»
oh sim: «com toda a violência»
pensai num bocado de carne despedaçado entre as mandíbulas
de um tigre: e depois deixou cair esse rosto sustentado atrás
pela bela caixa craniana com aquele rastro de cometa
«que é isto?» perguntou-se — e pusemo-nos todos a pensar bastante
«havia ali um senso arcaico da paixão»
talvez uma coisa tão remota e bárbara como: o fausto:
o pavor:
a caça: «é um movimento uma forma» disse ele
«é preciso voltar ao princípio»
e então começámos a usar os olhos com a ferocidade das objectivas
sem truques capturando tudo selvaticamente
e havia por vezes a vertente das espáduas desalojadas
um caudal sumptuoso
cortado «era tão estranho!» pela ligeireza dos dedos abertos
delicado pentagrama a duas alturas
«uma estrela refractada» para falar do que se viu
na projecção do filme e então podia-se adiar tudo menos aquela ideia
de que «não digo beleza» de que uma força
impelia tudo e a rapidez criava formas
linhas de translação feixes
de desenvolvimento ao longo das paisagens redondas como
abismos
recorria-se ainda a imagens para devolver essa cabeça
ao fulgor da sua precipitação contra os olhos
a queda «como oxigénio a arder» e a fuga
e a correria em que voltava para subir e rodar
de um modo que dizíamos: «indomavelmente»
porque vistas assim as coisas eram de uma fatalidade total
e a irrevogável maneira que tinham de ser livres
soltas
impunes
— na sua firmeza: «inocentes» — isso fazia medo
e havia em nós «um estilo de ver» que nos arrastava
implacavelmente para a loucura e a alegria
«porque era preciso destruir tudo» sim «de extremo a extremo»
para encontrar «o centro» onde o calcanhar gira
e roda o corpo todo
o sítio talvez onde se formam as massas dos espelhos
de que saltam fortemente «os astros os rostos»
e não haver «exemplo» mas apenas uma forma rudimentar
desfechada
contra tudo aqui escavando achado o veio
a limpidez primeiramente: aquilo: a cabeça móvel apanhada


Herberto Helder in A Faca não Corta o Fogo