O branco
dá tom ao mote. Particularmente concorrida, em busca de um som ou de algum
encantamento, a cidade de Loulé deixa-se inundar de música e teatralidade, e
acolhe um público diverso de todas as idades e estratos sociais. Sustentada pelo
investimento municipal, é nesta envolvência que decorre a «noite branca».
Periclitante, cruza-se com os meus olhares dispersos toda uma estrutura cénica
seguida de algum aperto. Elas, vaporosas e atraentes de tão cintilantes, deixam-se,
facilmente, fotografar, e entram e saem de cena, combinando com um
entretenimento de rua numa verdadeira mostra de êxito e sedução como se algo de
mágico pairasse no ar. Nada menos que isso. Por esta ocasião, reconheço que, há
noites muito melhores que certos dias.
Sunday, September 1, 2013
Saturday, August 31, 2013
Tristes geografias
um mapa antes de
viagem, para que nele
descobrisses ilhas e
paraísos e aí pousasses
os dedos devagar,
como fazem as aves
quando encontram o
verão. Se me tivesses
tocado, ter-me-ia
desmanchado nos teus braços
como uma escarpa
pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral
a definhar nas ondas.
Mas, afinal, foste tu
que desenhaste mapas
nas minhas mãos -
tristes geografias,
labirintos de razões
improváveis, tão curtas
linhas que a minha
vida não teve tempo
senão para
pressentir-se. Por isso, guardo
dos teus gestos
apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos -
nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda
assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o
lago dos meus olhos.
Maria do Rosário Pedreira
Friday, August 30, 2013
A luz do Verão
O Verão era tudo isso. Uma praia que resplandecia de alegria sob o
esplendor do sol, o céu azul, tanta superfície cristalina e o registo de corpos à beira-mar. O seu olhar
perdia-se a um ritmo, supostamente, lento. Vivemos inundados de tudo que transborda,
pensou, o que, por si só, justificava que voltasse a preparar-se para mergulhar
de novo.
Thursday, August 29, 2013
O que vem depois
Chegou a
pensar desistir, mas o sol quente do meio-dia convidou-a a sair do impasse. Antes
do almoço, solta as amarras e mergulha sem complexos, à espera de descobrir até
onde podia ir, na busca de espectros e vestígios que, no oceano, continuam a
sobrar. Réstias de sonhos surgem, a todo o instante, num jogo próximo do fim.
Wednesday, August 28, 2013
Tuesday, August 27, 2013
Emoções fortes
fôsses tu um grande espaço e eu
tacteasse
com todo o meu corpo sôfrego e cego
herberto helder in servidões, assírio & alvim 2013
Monday, August 26, 2013
Linha de fuga
- Segue em frente. Disseram-lhe as flores em coro.
Alice obedeceu. Andou, andou, e encontrou em cima de um cogumelo um
bichinho verde que lhe perguntou:
- Que desejas?
Percebendo a tristeza de Alice, o bichinho verde disse:
- Come do cogumelo, mas só do lado direito, senão diminuis de tamanho.
Minutos depois de comer, Alice voltou à sua estatura normal. Radiante
da vida, acabou por levar consigo mais dois pedacinhos.
Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas
Sunday, August 25, 2013
Sobre a água
Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.
Pablo Neruda
Saturday, August 24, 2013
Thursday, August 22, 2013
Crise de representatividade
- «Ninguém sabe muito bem onde isto vai
dar», confidenciava-lhe ela ao ouvido, «sem medidas concretas que ponham cobro
a tamanho desencanto. Num gesto desesperado, vendem-nos sonhos, que, de
resto, nunca acabam por cumprir».
- «Não se pode voltar ao que já
se foi», murmurava-lhe ele. «Afinal, o que está em causa é a coragem para
enfrentarmos tantas mudanças. Contudo, por outro lado, a transparência é absolutamente ilusória».
- «E, não
seria legítimo esperar mais?» Insistia ela.
- «Claro, não vês que eles só
contam a parte da verdade que lhes interessa»?
Wednesday, August 21, 2013
Jantar de Verão
Na noite do seu
aniversário, a Manuela contou com a presença das amigas mais próximas, não
escondendo a sua felicidade. Ausente no estrangeiro, durante longos anos, vive
agora uma nova fase da sua vida em ambiente descontraído e de grande charme.
Tuesday, August 20, 2013
O silêncio rumorejante
Durante o sono
retiraram-me uma costela
Ficou-me no peito um
vazio que não consigo preencher
Custa-me a respirar
Eu quero de volta a
minha costela
quero de volta todas
as costelas
Quero de volta o
paraíso
quero de volta o
silêncio rumorejante
quero de volta as
poluções nocturnas
e diurnas
Quero uma mulher
feita de chuva
e vento
e fogo
e neve
e luz
e breu
e não de argila
como eu
Jorge Sousa Braga in O Novíssimo Testamento e outros
poemas
Monday, August 19, 2013
Planos fixos
Em rigor, os
passeios diários com o Rico, não são mais senão um somatório de pequenas
descobertas. Portugal é um dos maiores produtores de alfarroba – vagem comestível
com cerca de 10 a 16 sementes que leva um ano inteiro a amadurecer, e que aqui
é conhecida como o chocolate do Algarve, pelo seu sabor levemente adocicado
que, quando moída e torrada, substituí o cacau. Cada percurso desencadeia uma
procura, e assim vamos conhecendo de que é feita toda a substância.
Sunday, August 18, 2013
Além do amor
Mais que o teu corpo quero o teu pudor
quero o destino e a
alma e quero a estrela
e quero o teu prazer
e a tua dor
o crepúsculo e a
aurora e a caravela
para o amor que fica
além do amor.
A alegria e o
desastre e o não sei quê
de que fala Camões e
é como água
que dos dedos se
escapa e só se vê
quando o prazer se
torna quase mágoa.
Estar em ti como quem
de si se parte
e assim se entrega e
dando não se dá
quero perder-me em ti
e quero achar-te
como num corpo o
corpo que não há.
Manuel Alegre in Livro do
Português Errante - Dom Quixote, 2001
Saturday, August 17, 2013
Um olhar de relance
Em última análise,
quem por ela vagueia pressente-lhe os mistérios atrás da porta. Intensamente habitada
por mendigos ou fantasmas, de certo modo, reconhecesse-lhe um legado digno de
reconhecimento. Do tecto apenas resta o horizonte, e se houvesse uma história,
certamente, muito haveria para contar.
Friday, August 16, 2013
Thursday, August 15, 2013
Nasci para cantar o fado
Meu amor, porque me prendes?
Meu amor, tu não entendes,
Eu nasci para ser gaivota.
Meu amor, não desesperes,
Meu amor, quando me queres
Fico sem rumo e sem rota.
Paulo Valentim (excerto do fado Segredos)
Wednesday, August 14, 2013
Tuesday, August 13, 2013
Lamechices
Foi-as coleccionando, ao longo
dos dias. Soltas, aqui e ali, deram para encher um pequeno balde. Num dado
momento, dispôs as conchinhas, uma a uma, em forma de um coração, onde cabia
todos os sonhos. Ao olhar de quem passava o gesto não seria inédito, contudo, irreflectidamente
apaixonada, ela sentia que tinha ganho uma alma nova conseguindo expressar um
desejo explícito.
Monday, August 12, 2013
À beira do mar
Como quem procura conchas à beira do mar,
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.
Luísa Dacosta
Sunday, August 11, 2013
Mar de Agosto
para que a luz do Sol
me não constranja.
Numa taça de sombra
estilhaçada,
deita sumo de lua e
de laranja.
Arranja uma pianola,
um disco, um posto,
onde eu ouça o
estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor,
o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o
teu, à minha volta!
Depois, podes partir.
Só te aconselho
que acendas, para
tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do
teu joelho,
entre os lençóis o
lume do teu peito...
Podes partir. De nada
mais preciso
para a minha ilusão
do Paraíso.
David Mourão-Ferreira in Infinito Pessoal ou a Arte de Amar,
Guimarães Editores 1963
Saturday, August 10, 2013
Friday, August 9, 2013
Quantificação
Quando para eles
olhamos, desprendem-se das árvores deixando antever o sabor que a cor lhes
acentua. Toda a beleza é o começo dum fruto. Pêssegos, ameixas, cerejas, melões
e mais uma infinidade, circulam como uma tresloucada roda da fortuna,
unicamente, para o nosso proveito. E, quão generoso é o Verão! Melhor dizendo,
pelos pomares, até à boca, os gestos não escondem o prazer, sem pressas, da sua degustação.
Thursday, August 8, 2013
Última gota
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.
Clarice Lispector
Wednesday, August 7, 2013
Rosa esquerda
e logo ma roubaram,
logo me perderam o pequeno achado,
mas ninguém me rouba a alma,
roubam-me um erro apenas que acertava só comigo,
um umbigo, um nó,
um nome que só em mim era floral e único
herberto helder in servidões, 2013
Tuesday, August 6, 2013
A flor de acaso
Palavra tremendo nas
redes da poesia,
O teu nome, como o
destino, chega,
O teu nome, meu amor,
o teu nome nascendo
De todas as cores do
dia!
Alexandre O'Neill in
No Reino da Dinamarca, Obra Poética (1951-1965), 2.ª edição
Monday, August 5, 2013
Representação histórica
Entre o passado e o presente,
percorri todo um espaço de memória e fascínio na grandiosidade do centro histórico de
Silves, à medida que, fui descobrindo artesãos, figurantes e objectos numa
extraordinária retrospectiva do tempo que evocou manjares, festa e muita música
numa versão carregada de esplendor.
Sunday, August 4, 2013
A solução
Dorothy seguiu um caminho de pedras amarelas e viu um espantalho
num campo de milho e libertou-o.
– Não sei como lhe agradecer- disse o espantalho.
- Faz-me falta um cérebro.
– Vem comigo! O Mágico de Oz poderá dar-te um - falou a
menina.
Mais adiante, encontrou um homem de lata enferrujado. Depois
que Dorothy o untou de óleo, o homem lata agradeceu e disse que gostaria de um
coração para ser generoso.
– Vem connosco. O Mágico de Oz vai conseguir arranjar-te um - disse Dorothy.
No caminho, um leão atacou o Totó.
– Mas que leão cobarde! — gritou Dorothy, zangada. O leão recuou
e concordou.
– Então, vem connosco. O Mágico de Oz vai dar-te coragem - disse Dorothy com pena do leão.
L. Frank Baum in O feiticeiro de Oz
L. Frank Baum in O feiticeiro de Oz
Saturday, August 3, 2013
Friday, August 2, 2013
Projectos
Para a esmagadora maioria a
probabilidade de gozar férias será, este ano, remota. Contudo, neste mês,
considerado de excelência, as férias assumem um papel absolutamente imperativo
e a única forma de fugir de tudo aquilo que nos leva a partir em primeiro lugar.
Em colapso com uma programação habitual, inquietações e incertezas dão lugar a
um mundo novo de locais e situações diversificadas que, recriamos para além do quotidiano.
O ritmo, simplesmente, abranda e a rotina deixa de ser. Neste ponto, poderíamos
dizer que nada há melhor que, desimpedido o caminho nos deixemos embarcar numa
viagem de sonho. Infelizmente, para alguns, fica demasiado distante e é por isso
inalcançável.
Thursday, August 1, 2013
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