A nostalgia dos anos 60 faz-nos, hoje,
recuar 50 anos, a um fatídico regresso ao passado. Por detrás do mistério da
morte de JFK que, um golpe de tragédia, em directo, acabou por reforçar o mito,
tudo nos recorda o homem sedutor e de grande capacidade política que, nunca
deve ser esquecido.
Friday, November 22, 2013
Thursday, November 21, 2013
Não digas nada
Faz-me
o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor
o que dirá
Tua
boca velada
É
ouvir-te já.
É
ouvir-te melhor
Do
que o dirias.
O
que és não vem à flor
Das
caras e dos dias.
Tu
és melhor - muito melhor!
Do
que tu. Não digas nada. Sê
Alma
do corpo nu
Que
do espelho se vê.
Mário Cesariny (1923-2006)
Wednesday, November 20, 2013
Os lugares revisitados
Certos episódios da sua vida poder-se-iam
definir tanto reais como imaginários. A um canto do jardim, mas não a demasiada
distância, encontrava-se uma pequena casa para pássaros. A excitação do
regresso de alguma ave mais inquieta repetir-se-ia ao longo das diferentes
estações do ano. Espectadora atenta, acaba por desenvolver uma intuição apurada
que lhe deslindasse quaisquer sinais, e a única referência, ressalte-se, face à
expectativa, era continuar a sonhar com a sua própria fuga e libertação como se
as suas vidas coexistissem e originassem alguma coisa de novo.
Tuesday, November 19, 2013
Passagens interditas
cheguei às portas secretas
atravessei as passagens interditas
e
no labirinto que negou os meus passos
vi tesouros que não eram meus
Maria Alexandre Dáskalos
Monday, November 18, 2013
Sunday, November 17, 2013
Espantar o frio
Depois do sol, os fins de tarde
passaram, então, a ser reservados junto à lareira. Era para lá que a atenção se
deslocava, tardiamente, aquando as indesejadas temperaturas mais baixas. Em
redor, uma a uma, as crianças iam-se aproximando à vez, mantendo a tradição
viva, em busca do lugar mais quentinho. Tudo o resto deixava de ser questão.
Saturday, November 16, 2013
Friday, November 15, 2013
O tempo de oiro
Era o tempo das amizades visionárias
Entregues à sombra à luz à penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo desejo e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo de oiro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Thursday, November 14, 2013
Refém de uma má opção
Apesar de ela compreender que a
toponímia era essencial para preservar as raízes de cada localidade, propunha
uma revisão mais cuidada ao nome da sua rua, através de uma nova leitura que, se
ajustasse a uma informação factual isenta de artifícios. E que, mesmo longínqua
no tempo, fosse real, e se relacionasse com uma lógica agora inexistente. Não
se importava que evocassem um passado, mas ao mesmo tempo, exigia que lhe
prometessem um futuro que, a partir de recordações concretas, conduzissem o
processo a uma escolha consensual e justa.
Wednesday, November 13, 2013
Uma coisa inocente
Estendi a mão
por qualquer coisa inocente
uma pedra, um fio de erva, um milagre
preciso que me digas agora
uma coisa inocente
Não uses palavras
qualquer palavra que me digas há-de doer
pelo menos mil anos
não te prepares, não desejes os detalhes
preciso que docemente o vento
o longínquo e o próximo
espalhe o amor que não teme
Não uses palavras
se me segredas
aquilo que no fundo das nossas mentiras
se tornou uma verdade sublime
José Tolentino
Mendonça
Tuesday, November 12, 2013
Monday, November 11, 2013
Por portas e travessas
Através dos vidros límpidos, atrás
dos quais se escondia, a cada dia retomava o registo da vida de personagens a
quem dava vida. Os movimentos e as expressões dos corpos, e os passos
apressados, tal como os mais miudinhos, transformavam-se numa experiência de
partilha num contínuo recomeçar. Em cada um deles procurava uma história que, ainda
que a preto e branco, deixasse advinhar, com exactidão, os mais variados
retratos, dentro da maior diversidade, no pressuposto de que pudessem existir.
Sunday, November 10, 2013
A dúvida
Então, enchendo-se de curiosidade, correu atrás do
coelho campo afora, chegando justamente a tempo de o ver desaparecer numa
grande toca sob a cerca. No instante seguinte, Alice entrou na toca atrás dele,
sem sequer pensar em como é que iria sair dali depois.
A toca do coelho, de início,
alongava-se como um túnel, mas de repente abria-se como um poço, tão de repente
que Alice nem teve um segundo sequer para pensar em parar, antes de cair no que
parecia ser um buraco muito fundo. Ou o poço era profundo demais, ou ela caía
muito devagar, pois teve tempo de sobra durante a queda para olhar em volta e perguntar-se
o que iria acontecer a seguir.
Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas
Saturday, November 9, 2013
Da tranquila distância
De longe te hei-de amar
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.
Cecília Meireles in Canções
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.
Cecília Meireles in Canções
Friday, November 8, 2013
Uma análise aprofundada
Por um ímpeto, tudo somado poderia considerar-se valioso. Uma
panóplia de elementos que se tornara um bom exemplo duma colecção
essencialmente romântica. Eis, o seu espaço-tempo de sonho! Poderia ter
recolhido caixas de fósforos, bilhetes de autocarro, antigos cromos, ou encaixilhado
borboletas espalmadas, ou optado por apanhar pequenas conchas na praia, mas a
sua escolha revelava-se, afinal, mais inventiva. Rebuscadas procuras, davam
destaque a outro tipo de objectos que, certamente exigiriam algum investimento,
ao longo dos anos. Contudo, a necessidade de guardar era mais forte que
qualquer outra coisa, e o início do seu espírito empreendedor.
Thursday, November 7, 2013
Um suicídio
Diz-se que a
tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã
é que cai. Por um cansaço de luz, um suicídio da sombra.
Mia Couto in O
Fio das Missangas
Wednesday, November 6, 2013
Tuesday, November 5, 2013
O talento humano
O actor acende a boca. Depois, os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.
O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.
Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus.
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente
como o actor.
Como a unidade do actor.
O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.
Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.
O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.
Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus.
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente
como o actor.
Como a unidade do actor.
O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.
Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas -
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.
Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.
O actor em estado geral de graça.
Herberto Helder
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas -
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.
Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.
O actor em estado geral de graça.
Herberto Helder
Monday, November 4, 2013
Um mau indício
Nada a fazia retirar-se do seu centro. A máscara
apropriara-se da sua pessoa, corroendo-a e pervertendo-a até às últimas
consequências numa demonstração de versatilidade. A qualquer momento, todo o
tipo de manobras e interferências indevidas são por ela desencadeadas ao mais
ínfimo pormenor, o que nos levava a pensar que ela cultivava uma espécie de
prazer com toda aquela trama. Numa verdadeira descida aos abismos, tece as suas
técnicas em várias direcções, num quase perfeito equilibrismo, como se de um
jogo se tratasse. E, para que conste, não se fixa, apenas, num ideal. De um
modo geral, vai-se desdobrando, fazendo uso de todos, e deitando a mão a tudo sob
as mais variadas formas e versões, num combate táctil, que a parece fascinar. Porém,
será que o vazio humanamente insuportável, mais do que qualquer coisa, a iria
fazer confrontar-se com a consciência do disfarce que envergava?
Sunday, November 3, 2013
A surpresa
Com a chegada do outono, as folhas
das árvores começaram a ficar amareladas e foram caindo, espalhando-se pelo
chão. Foi quando olhando para o céu, o patinho feio viu os cisnes
brancos.
- Que lindo e como voam!
Olhem só, mas que surpresa! O que estará realmente a acontecer?
Não acreditando, foi olhar a sua imagem reflectida no lago.
- Que surpresa, eu sou um cisne também!
Hans
Christian Andersen in O patinho feio
Saturday, November 2, 2013
Friday, November 1, 2013
Pergunta-me
Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
Mia Couto
Wednesday, October 30, 2013
Tuesday, October 29, 2013
O lugar
Levo
comigo uma origem e um destino. Levo comigo um sentido. Irreversível como um
mergulho, não me perturbo. Eu tenho um lugar. Sinto que lhe conheço cada
detalhe e, no entanto, todos os dias o exploro e lhe encontro novidade.
José Luís Peixoto
Monday, October 28, 2013
A via da esperança
Só lhes restava repensar as alternativas,
redistribuindo os sacrifícios. Na ânsia de se alcançar um objectivo
matematicamente inatingível os estragos poderiam tornar-se irreversíveis, e todos
tinham consciência disso. A falta de capacidade negocial, certamente, também não
lhes permitia antever um futuro brilhante, e o desinvestimento na nova geração
fazia-os pensar que a curto prazo só a incerteza lhes dominaria os dias. A não
ser que, algum iluminado, de entre a comunidade, encontrasse um outro caminho
de reorganização suficiente para alterar as directrizes que, lhes reforçasse a
confiança.
Sunday, October 27, 2013
Evocar memórias
Dedicado à minha amiga L
A conversa arrancava, sempre, à
volta de África que, ela descreve de forma emotiva com depoimentos na primeira pessoa
e destaque para a nostalgia. A verdade, porém, é que a vida lhe trocara as
voltas, umas atrás das outras, abrindo e fechando ciclos que, a marcariam para
sempre. De tal maneira que, as sensações, muitas vezes, se transformavam em
imagens reais e explícitas.
Saturday, October 26, 2013
O caminho da saudade
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta
que
não é nada comigo. Distraidíssimo percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel
António Pina
Friday, October 25, 2013
Thursday, October 24, 2013
O fantoche
Mas, de cada vez que mentia, o
nariz crescia-lhe mais um pouco, pelo que não conseguia enganar ninguém. - Não
quero este nariz! – soluçou Pinóquio. - Terás que te portar bem e não mentir,
voltar para casa e ir à escola. – disse-lhe a Borboleta Mágica.
Carlo Collodi in As aventuras de Pinóquio
Wednesday, October 23, 2013
A entrega
Dedicado à minha amiga L
A cozinha é onde tudo parece começar. E, logo pela manhã a tarte de maçã, o arroz doce, ou a mousse de chocolate, são, apenas, uma pequena parte das suas virtudes e a demonstração da sua versatilidade. Eficaz como poucas, para ela não há problemas irresolúveis, desdobrando-se nas mais diversas configurações. Sempre presente, quer os outros, tal como a vontade de dar, nunca são demais, e a principal razão da sua existência que, já se provou ilimitada. Tudo o resto que, ainda sobra sobre o seu modo de ser, é reforçado pelos momentos de partilha. Os ajustes de contas com o passado, já não lhe pertencem, continuando a caminhar com desenvoltura ao sabor da vida que num sopro passa.
A cozinha é onde tudo parece começar. E, logo pela manhã a tarte de maçã, o arroz doce, ou a mousse de chocolate, são, apenas, uma pequena parte das suas virtudes e a demonstração da sua versatilidade. Eficaz como poucas, para ela não há problemas irresolúveis, desdobrando-se nas mais diversas configurações. Sempre presente, quer os outros, tal como a vontade de dar, nunca são demais, e a principal razão da sua existência que, já se provou ilimitada. Tudo o resto que, ainda sobra sobre o seu modo de ser, é reforçado pelos momentos de partilha. Os ajustes de contas com o passado, já não lhe pertencem, continuando a caminhar com desenvoltura ao sabor da vida que num sopro passa.
Tuesday, October 22, 2013
Voltar atrás
A alegria que procuro é de um outrora absoluto, desde antes
da infância, do eco que me transcende do passado ao futuro, me vibra com o som
de uma harmonia que não sei.
Vergílio Ferreira In aparição
Monday, October 21, 2013
Proposta de passeio
À medida
que andamos, a paisagem vai-se aproximando de nós, sobressaindo uma paleta de
cores quentes e outonais que, verdadeiramente nos arrebatam. No distrito de
Faro, concelho de Silves, a Lagoa dos Salgados fica perto da pequena localidade
de Pêra a 2 km de Armação de Pêra, com acesso do lado oposto a partir de
Albufeira via Vale de Parra. Ali, mesmo à nossa frente, em permanente movimento
que, faz deste cenário um momento insuperável.
Sunday, October 20, 2013
O barco que a aurora leva
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
José Tolentino Mendonça in A noite abre meus olhos - poesia reunida, Assírio & Alvim
Saturday, October 19, 2013
Friday, October 18, 2013
A todos os outonos
Amor chagado, de púrpura, de desejo
Pontilhado. Volto à seiva de cordas
Da guitarra e recheio de sons o teu jazigo.
Volto empoeirada de vestígios, arvoredo de ouro
Do que fomos, gotas de sal na planície do olvido
Para reacender a tua fome.
Amor de sombras de ocasos e de ovelhas.
Volto como quem soma a vida inteira
A todos os outonos. Volto novíssima, incoerente
Cógnita
Como quem vê e escuta o cerne da semente
E da altura de dentro já lhe sabe o nome.
E reverdeço
No rosa de umas tangerinas
E nos azuis de todos os começos.
Hilda Hilst in Do Desejo - Amavisse IX
Thursday, October 17, 2013
O tombo
Alice entrou na toca atrás do coelho, sem sequer pensar como
iria sair dali depois. A toca, inicialmente, alongava-se como um túnel, mas de
repente abrira-se num poço, tão repentinamente que Alice não teve um segundo para
pensar em parar, antes de se ver a cair no que parecia ser um orifício muito
fundo.
O que iria passar-se em seguida?
Então, notou que as paredes do
poço estavam cheias de armários e prateleiras. Alice abriu uma porta e viu que
dava para uma pequena passagem, não muito maior que um buraco, e pensou que
tantas coisas extraordinárias tinham acontecido, ultimamente, que começava a
pensar que quase mais nada a iria surpreender!
Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas
Wednesday, October 16, 2013
Um outro habitat
Uma visita ao parque temático do
zoomarine é sempre inspiradora pelos vários divertimentos e shows dos
golfinhos, focas, e aves exóticas, tentando sensibilizar o público para a
conservação da natureza e das espécies.
Tuesday, October 15, 2013
A cara nova
A incerteza de
direitos, e as mentiras de uns e outros, tinham-se transformado num jogo
complexo entre o dito e o não dito. Para ela, nada sobrava para contrariar os
efeitos perniciosos da crise. Sem tecido económico que nos proporcionasse
auto-suficiência e sem saber por onde caminhávamos, novas soluções eram impensáveis. Por outro lado, a obsessão pelos números e o desfasamento da
realidade tornava-os incapazes de alguma vez resolver o que um dia teriam
criticado. Na sua mente, havia, apenas, dois caminhos – ou o perdão da dívida,
ou uma renegociação de juros e prazos. De costas voltadas, tantas contradições
descontextualizadas faziam dela a candidata insuperável para quem a política
era mais do que algo meramente teatral.
Monday, October 14, 2013
Sunday, October 13, 2013
A hora teatral
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
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