Wednesday, September 2, 2015
Tuesday, September 1, 2015
Da janela
Da janela via-se a praça.
As árvores, as pombas.
Os táxis torrando ao sol.
Cisma, sede, paixão
faltavas tu.
Fernando Assis Pacheco in em A Musa Irregular - Lisboa:
Assírio & Alvim, 2006
Monday, August 31, 2015
Corpo deitado
Silêncio: a palavra
respira. Corpo
deitado
no mar. Silêncio de
fogo
e música.
Silêncio: a palavra
sangra
seu cântico de pó.
Peixe
de sombra
mordendo as estrelas.
A palavra só. A
palavra
refresca. Osso
abandonado
na praia deserta.
A palavra de água
onde nego a morte.
Pausa
do sol.
Casimiro de Brito
Sunday, August 30, 2015
Saturday, August 29, 2015
Friday, August 28, 2015
Dizias tu
Sim, dizias tu,
mas em seguida
corrigiste:
talvez. Esta
é a única palavra
que não tem casa.
Que mora
no intervalo
entre o som e o
silêncio.
Albano Martins in E um lugar ao
sul
Thursday, August 27, 2015
Queiram-me assim
As coisas que procuro
Não têm nome.
A minha fala de amor
Não tem segredo.
Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.
Tive casa e jardim.
E rosas no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiro
O porquê do jasmim
– Sua brancura, o cheiro.
Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito.
Hilda Hilst
Wednesday, August 26, 2015
Tuesday, August 25, 2015
Monday, August 24, 2015
Fora de série
Não é só a voz, É a cumplicidade com os músicos, a presença
em palco, a postura efusiva mas sóbria, as palavras com significado, a
graciosidade dos gestos, e a paixão com que canta e nos magnetiza. Ainda estou
a digerir um concerto que me superou por completo as expectativas. A Carminho
elevou-se e elevou-nos a um outro patamar!
Saturday, August 22, 2015
Era madrugada
Disse-te adeus
Não me lembro
em que dia de Setembro
só sei que era madrugada;
a rua estava deserta
e até a lua discreta
fingiu que não deu por nada
sorrimos à despedida
como quem sabe que a vida
é nome que a morte tem
nunca mais nos encontrámos
e nunca mais perguntámos
um p'lo outro a ninguém
que memória ou que saudade
contará toda a verdade
do que não fomos capazes
por saudade ou por memória
eu só sei contar a história
da falta que tu me fazes
Thursday, August 20, 2015
Em direcção incerta
O tempo dilatou-se ainda agora
quando te olhei nos olhos e me vi.
Em direcção incerta, dilatou-se
e depois implodiu, solene e devagar
Nunca visão alguma observada assim:
a quarta dimensão toda em avesso,
eu reflectida e refractada em luz,
assombrosas fracções mileneares
Fenómeno maior, mais do que super
nova
ou que quasar: tempo aos espasmos
Tudo porque os teus olhos se
afastaram
da órbita vulgar
Ana Luísa Amaral
Wednesday, August 19, 2015
Tuesday, August 18, 2015
Em toda a parte
Quem a visse, sentia-a superlativamente
viva ao vestir-se com o que julgava ficar-lhe bem. Pelo caminho, tudo lhe
interessava desde o supérfluo ao mais profundo. Nada de assombroso, afinal.
Monday, August 17, 2015
Sunday, August 16, 2015
Indefinível
Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível
cor que tem todos os retratos, os figurinos da última estação… - a cor do
tempo.
Mário Quintana
Saturday, August 15, 2015
Friday, August 14, 2015
Thursday, August 13, 2015
Vento
"Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."
Wednesday, August 12, 2015
Reconhecer
O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a
existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os
dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos.
O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte
dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma tenção e uma
aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o
que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.
Italo Calvino in As Cidades Invisíveis
trad. José Colaço
Barreiros -Editorial Teorema, 2002
Tuesday, August 11, 2015
Plantado
Quanto mais longe
vou, mais perto fico
De ti, berço
infeliz onde nasci.
Tudo o que tenho,
o tenho aqui
Plantado.
O coração e os
pés, e as horas que vivi,
Ainda não sei se
livre ou condenado.
Miguel Torga in diário XII
Monday, August 10, 2015
Sunday, August 9, 2015
Wednesday, August 5, 2015
Tudo
O
voo sinuoso das aves
As
altas ondas do mar
A
calmaria do vento:
Tudo
Tudo
cabe dentro das palavras
E
o poeta que vê
Chora
lágrimas de tinta.
Ana
Hatherly (1929-2015)
Tuesday, August 4, 2015
Lento e alto
Algo se me assemelha
e me quer para si
quando menos espero
Distorção do espírito
para a morte
como o corpo num salto
irremediavelmente
lento
e
alto
Luiza Neto Jorge in Terra Imóvel - Poesia
Monday, August 3, 2015
Sunday, August 2, 2015
O mundo
Nesse verão nenhum de nós buscava terra firme
parecia-nos caminhar há séculos sobre as águas
Donde viemos nós? Como chegámos a esta luz
austríaca sobre as colinas
ao fumo lento no anfiteatro do golfo
à ordem aleatória do tempo?
Talvez nos caiba viver por cidades estranhas
em casas que esconderão sempre o seu medo
e a sua glória
sós diante dos céus
sem a certeza culminante
parecia-nos caminhar há séculos sobre as águas
Donde viemos nós? Como chegámos a esta luz
austríaca sobre as colinas
ao fumo lento no anfiteatro do golfo
à ordem aleatória do tempo?
Talvez nos caiba viver por cidades estranhas
em casas que esconderão sempre o seu medo
e a sua glória
sós diante dos céus
sem a certeza culminante
Vemos a tarde perder-se na direcção do molhe
o mundo é aquilo que nos separa do mundo
o mundo é aquilo que nos separa do mundo
José Tolentino de Mendonça in A Poesia em 2009 [de O Viajante sem Sono] - Assírio & Alvim Lisboa,
2010.
Saturday, August 1, 2015
Friday, July 31, 2015
Thursday, July 30, 2015
Quem diria?
Wednesday, July 29, 2015
Clube das Letras III
«A desejada noite deslizou envolta no repousante silêncio dos homens e dos insectos»
Alexandra Inês in Mel e Propólis
Monday, July 27, 2015
As vagas do mar
Que é que se muda em nós quando mudamos? De idade, de uma condição, às vezes mesmo de um local? Podem manter-se os mesmos valores, ideologia, relação com a vida. e todavia, aí mesmo, alguma coisa pode mudar. É a mudança que se opera no indizível de nós, onde mora a organização disso tudo, ou seja, o equilíbrio disso tudo. Os valores reordenam-se numa outra ordenação, num outro escalonamento, num modo diverso de os perspectivarmos. Os valores podem permanecer, mas não na face que era a sua ou o lugar que era o seu. E com isso em nós a porção de alma que lhes démos. Ou a aceleração do ritmo da nossa excitação. Não se entenderá assim que a mesma obra seja diferente como a arrumação diferente dos móveis de uma sala? Porque uma obra é o que é, mais o modo de a fazermos ser o que nela somos nós. Mas esse modo é o que ela é afinal. Que é que muda em nós quando mudamos? Uma forma diferente de sermos o mesmo. As vagas do mar. Um céu que se descobre. A pele que se enruga. O ângulo do olhar.
Vergílio Ferreira in pensar - bertrand editora - 2004
Sunday, July 26, 2015
Saturday, July 25, 2015
Friday, July 24, 2015
Sem fuga
Nunca ela pensou viver
esse momento ou sequer vir a transmiti-lo a quem quer que fosse. Mas, quando
aquela criança passou a partilhar o mesmo espaço que ela, ocasionalmente, este
parecia redimensionar-se num sentido muito mais amplo. Não sei se seria da transparência
do olhar, da sua voz doce ou da verdade absoluta das palavras que a cativavam e
remetiam, do fim para o princípio, quando um outro menino, em tudo igual a
este, lhe pertencia em exclusivo.
Wednesday, July 22, 2015
Sonho
Extravasou pro meu dia
Encheu minha
vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre.
Adélia Prado
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