Chegou-nos de um outro
lugar e de um outro tempo tornando-se numa referência e inspiração para toda
uma geração. Através de uma imagem ousada e inimitável sempre se soube reinventar. David Bowie foi um criativo até final e a sua música continuará connosco eternamente.
Monday, January 11, 2016
Sunday, January 10, 2016
Saturday, January 9, 2016
O lado de Nietzsche
O lado mais claramente compreensível da linguagem não é a palavra em si, mas a sonoridade, a intensidade, a modulação, o ritmo com que as palavras encadeadas são pronunciadas - em resumo, a música por detrás das palavras, a paixão por detrás desta música, a pessoa por detrás dessa paixão: tudo aquilo, portanto, que não pode ser escrito. Por isso, a escrita nunca nos levará muito longe.
Nietzsche
Thursday, January 7, 2016
Wednesday, January 6, 2016
Tuesday, January 5, 2016
Um canteiro de flores vivas
Se eu fosse para a terra do
nunca,
teria tudo o que quisesse numa cama de nada:
os sonhos que ninguém teve quando
o sol se punha de manhã;
a rapariga que cantava num canteiro
de flores vivas;
a água que sabia a vinho na boca
de todos os bêbedos.
Iria de bicicleta sem ter de pedalar,
numa estrada de nuvens.
E quando chegasse ao céu pisaria
as estrelas caídas num chão de nebulosas.
A terra do nunca é onde nunca
chegaria se eu fosse para a terra do nunca.
E é por isso que a apanho do chão,
e a meto em sacos de terra do nunca.
Um dia, quando alguém me pedir a terra do nunca,
despejarei todos os sacos à sua porta.
E a rapariga que cantava sairá da terra
com um canteiro de flores vivas.
E os bêbedos encherão os copos
com a água que sabia a vinho.
Na terra do nunca, com o sol a pôr-se
quando nasce o dia.
Nuno Júdice
Monday, January 4, 2016
Um ensaio
Sem desviar um passo, e em pleno
rodopio, frenética dá voltas, umas a seguir às outras, e perde-se no ano que
partiu. Um novo impulso sem destino transporta-a, desalmada, para a intraduzibilidade
de uma renovação.
Sunday, January 3, 2016
Quem se assenta à nossa mesa?
A palavra erguia-se como um candelabro,
a voz ardia como um inesperado campo de giestas.
E nós sustínhamos em nossos dois ombros o fulgor
e a tristeza divina. Quando os arbustos
eram bichos iluminando as regiões do céu e ao rés
da terra as pedras cantavam e os mitos davam
a forma das coisas.
Quando colhíamos o espanto nas mãos dolorosas
e em frente ao povo íamos cantando
a fábula e o próprio rosto do milagre.
Quem se assenta à nossa mesa? — dizíamos. — Quem
sobre a mesa coloca um beijo sem peso e sem mácula?
Nada existe que não seja inocente, e o hálito
perpassa à flor dos lábios,
a força da memória deu a alma ao vinho e o imponderável
ao primeiro sorriso. Toda a casa
acaba a noite, cria a auréola
em torno do objecto, enche cada instante
de um poder obscuro.
A delicada taça partia-se nas mãos — sangue:
um sinal, um símbolo. E cantar
era conceber uma estrela, um testemunho da mais alta
loucura. Cantar era uma razão
de morte e de alegria.
Desfaziam-se as pálpebras na jovem carne, na esfera
da luz, ou na ressonância e volúpia
do tempo. E a mão procurava o punhal,
a boca beijava a laje nua. Do braço divino
sumia-se o fogo e o archote corria sobre as águas
ou no coração da sementeira.
E era então o fogo aquilo a que o beijo,
em sua graça, firmemente aspirava.
Nenhuma vida tanto se gastou
que não seja visitada, nenhum deus
é tão grande que se não perca na substância
da sombra. — Uma flor e um grito,
um copo e um breve minuto, ou a aurora
cortando o peito, ou o primeiro respirar
de um pensamento.
Cantar onde a mão nos tocou,
o ombro se acendeu, onde se abriu o desejo.
Cantar na mesa, na árvore
sorvida pelo êxtase.
Cantar sobre o corpo da morte, pedra
a pedra, chama a chama — erguido,
amado,
aprendido.
Herberto Helder in poesia toda - assírio & alvim 1996
Saturday, January 2, 2016
Friday, January 1, 2016
Wednesday, December 30, 2015
Tuesday, December 29, 2015
Coisas leves
Não sei tecer
senão espumas,
nuvens
e brumas.
Coisas breves,
leves,
que o vento desfaz.
Como prender-te
em teia tão frágil?
Luísa Dacosta in A Maresia e o Sargaço dos Dias (1927-2015)
Monday, December 28, 2015
Não digas nada
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer
Fernando Pessoa
Sunday, December 27, 2015
O bom futuro
Quase toda a gente gosta de saber o seu futuro e
paga para isso a astrólogos ou às bruxas. Mas só na ideia de que esse futuro
seja bom. E é o que eles lhes dizem para não fecharem a porta. Mas o negócio
continuaria, ainda que te dissessem que morrerias no dia seguinte. Porque a
morte é a única certeza em que não se acredita. Se fores condenado à forca e
tiveres já a corda ao pescoço, o minuto que faltava seria ainda de vida, ou
seja de eternidade.
Vergílio Ferreira in escrever - Bertrand editora 2001
Saturday, December 26, 2015
Friday, December 25, 2015
Thursday, December 24, 2015
Wednesday, December 23, 2015
Expressão criativa
O pinheiro e tudo o se lhe segue
é um crescendo. As bolas coloridas, os anjinhos, os sinos. Cada um deles exige
uma escolha, um gesto e um acerto que, depende da sensibilidade do momento, sem
necessariamente seguir uma ordem. E, no final, nada mais senão a estrela
cintilante e o seu reflexo dando sentido ao Natal.
Monday, December 21, 2015
Na minha direcção
Quantas pessoas caminham na
minha direcção? Quantas me
descobrem por entre a multidão
e pousam os seus olhos inteiros
nos meus olhos? Podia acreditar
que entre elas está o homem que
trocaria comigo os dedos sobre a
mesa, uma palavra que fosse gomo
de laranja e poema, o corpo aceso
sob o lençol cansado de mais um
dia. Mas quantos destes rostos de
pedra que me cercam escondem o
seu pelas ruas desta tarde? Quantos
nomes de acaso e de silêncio terei
eu de escutar para descobrir o seu
no meu ouvido? Quantas pessoas
caminham contra mim?
Maria do Rosário Pedreira in nenhum nome depois - gótica 2004
Sunday, December 20, 2015
Retrospectiva
Entre as ideias mais abstractas,
o Natal intensificava-lhe os sentimentos que, de certo modo, a transportavam
para outros tempos e outros lugares de relações estabelecidas que agora , mais do que nunca, evocava.
Saturday, December 19, 2015
Thursday, December 17, 2015
Wednesday, December 16, 2015
Tuesday, December 15, 2015
Umas gotas de chuva
É apenas o começo. Só
depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes
do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente de todas as estações.
Eugénio de Andrade
Monday, December 14, 2015
Sunday, December 13, 2015
Saturday, December 12, 2015
Então, e que fazer amanhã?
o que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?
amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã
que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,
num relvado talvez me fuzilem
o teu corpo talvez seja meu,
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?
Vasco Graça Moura
Friday, December 11, 2015
Senão pensar
"Amar é pensar.
E eu quase que me
esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que
quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande
distracção animada.
Quando desejo
encontrá-la
Quase que prefiro não
a encontrar,
Para não ter que a
deixar depois.
Não sei bem o que
quero, nem quero saber o que quero. Quero só Pensar nela.
Não peço nada a
ninguém, nem a ela, senão pensar."
Alberto Caeiro
Thursday, December 10, 2015
Wednesday, December 9, 2015
No meu jardim
e quando penso
não em ti
mas em tudo
sofro
Dantes
eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas
Eu
sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue
Em
toda a parte
ouço seu imenso clamor
Ana Hatherly
Ana Hatherly
Tuesday, December 8, 2015
Monday, December 7, 2015
Sunday, December 6, 2015
Saturday, December 5, 2015
O amargo beijo
Acordo com o teu nome nos
meus lábios — amargo beijo
esse que o tempo dá sem
aviso a quem não esquece.
Maria do Rosário Pedreira
Friday, December 4, 2015
Thursday, December 3, 2015
Wednesday, December 2, 2015
Friday, November 27, 2015
Thursday, November 26, 2015
O mito
Era uma vez
um homem elástico. Quando era preciso que ele passasse através duma porta mal
aberta esticavam-no em comprimento e ele passava. Não era preciso abrir mais a
porta. Quando ao deitar-se, se a cama fosse curta encolhiam-no, ele dava em
largura e assim estava sempre tudo certo. Este mito, que deu origem ao verbo
procrastinar, há muito que é conhecido dos portugueses.
Ana Hatherly
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