Aproveitando o fim-de-semana antes
deste último Natal, desloco-me a Savannah no estado da Georgia. O tempo está
quente, e a curta travessia do rio leva-me até ao centro com elevado significado
histórico. Diria mesmo, um verdadeiro tesouro arquitectónico, com autênticas
mansões de antigos magnatas de algodão, e aprazíveis praças e parques. A juntar
à hospitalidade da população do sul, o excelente peixe e marisco contribuem
para atrair turistas que, tal como eu, ao partir, sentem vontade de, um dia,
revisitar.
Monday, January 27, 2014
Saturday, January 25, 2014
Friday, January 24, 2014
Findar
Atravessou os céus vazios de nuvens, transpôs fronteiras
aquém e além, e partiu de encontro a uma existência mais feliz.
Tuesday, December 3, 2013
A reviravolta
Quanto mais o país se transformava em algo
mais complicado, maior era a sua necessidade de escapar dali. Momentaneamente liberta,
a reconstrução de um novo cenário, sem dificuldades de percurso, era mais do
que nunca, imperativa. Um olhar mais atento poderia levá-la a adquirir a
dimensão que, na verdade, e em boa medida, contrastasse com tão desinspirado
presente até ao limite da sua idealização.
Saturday, November 30, 2013
Friday, November 29, 2013
Conforme o gosto
Para começar utilizo os
ingredientes mais frescos da época. E, depois de a reduzir a puré, e obter uma
textura macia e cremosa, adiciono-lhe sempre alguma coisa que a torne diferente
de umas vezes para as outras. Frequentemente, acrescento-lhe coentros ou salsa
picada, ou cebolinho como guarnição. Mas, também posso polvilhá-la de pimenta-preta
quando faz mais frio, ou, em alternativa, adiciono-lhe uma colher cheia de
crème fraîche, ou simplesmente a acompanho de croutons ou de um simples fio de
azeite extra virgem. O segredo é servir qualquer sopa, imediatamente, uma vez
retirada do lume, e, sem pressas, apreciar cada colherada de cor intensa e
repleta de sabores. Bon appétit!
Thursday, November 28, 2013
Renascer
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.
Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.
Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria, assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar
— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece
— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.
Herberto Helder in A faca não corta o fogo - assírio
& alvim, 2008
Wednesday, November 27, 2013
O paraíso perdido
Nunca mais tiveram paz. Entre o
quotidiano lúgubre e o que viveram, esta era, agora, a vida deles.
Definitivamente, a realidade não era mais a de outrora. Os sacrifícios tinham
sido demasiados e mal dirigidos, as decisões cegas, os desnivelamentos sociais mais
que evidentes e o rumo ter-se-ia complicado. Estes eram eles, e nenhum era mais
inocente do que o outro. Fingir que não falharam? Só se estivessem a brincar
com eles! Sem se ver o fim, e cansados de esperar por quem os fosse salvar, mais
do que nunca, era necessário contrariar o que estava a acontecer, desviar o olhar
e voltar a sentir os dias de outra maneira. Entre todos havia uma unanimidade de
um desejo maior. O de descobrir novas medidas e outras soluções.
Tuesday, November 26, 2013
A nudez da alma
Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
Sophia de Mello Breyner Andresen in Tempo Dividido, 1954
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
Sophia de Mello Breyner Andresen in Tempo Dividido, 1954
Monday, November 25, 2013
Uma série de fantasmas
O que era vida irreal, é agora realidade,
o que era vergonha, ninharia e ridículo, é vida agora.
O que toma pé são os sonhos,
o que se agita são as paixões desregradas.
Não há limites nem peias.
Vêem-nos como eu te vejo a ti.
Tenho diante de mim este espectáculo,
como se fosse possível aos homens desdobrarem-se
e tomarem corpo, ideias e paixões.
Eles são aquilo que ocultamente desejavam ser,
são o que não se atreviam a ser.
Sob um mundo de verdade há outro mundo de verdade.
É esse mundo invisível e profundo
que passa a ser o inundo visível.
É esse.
Todo o homem é uma série de fantasmas
e passa a vida a arredá-los.
Chegou a vez dos fantasmas.
As nossas ideias e paixões
é que formam as figuras que actuam na vida.
raul brandão in húmus - a outra coisa, fragmento frenesi 2000
Sunday, November 24, 2013
Saturday, November 23, 2013
Friday, November 22, 2013
Um lugar na História
A nostalgia dos anos 60 faz-nos, hoje,
recuar 50 anos, a um fatídico regresso ao passado. Por detrás do mistério da
morte de JFK que, um golpe de tragédia, em directo, acabou por reforçar o mito,
tudo nos recorda o homem sedutor e de grande capacidade política que, nunca
deve ser esquecido.
Thursday, November 21, 2013
Não digas nada
Faz-me
o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor
o que dirá
Tua
boca velada
É
ouvir-te já.
É
ouvir-te melhor
Do
que o dirias.
O
que és não vem à flor
Das
caras e dos dias.
Tu
és melhor - muito melhor!
Do
que tu. Não digas nada. Sê
Alma
do corpo nu
Que
do espelho se vê.
Mário Cesariny (1923-2006)
Wednesday, November 20, 2013
Os lugares revisitados
Certos episódios da sua vida poder-se-iam
definir tanto reais como imaginários. A um canto do jardim, mas não a demasiada
distância, encontrava-se uma pequena casa para pássaros. A excitação do
regresso de alguma ave mais inquieta repetir-se-ia ao longo das diferentes
estações do ano. Espectadora atenta, acaba por desenvolver uma intuição apurada
que lhe deslindasse quaisquer sinais, e a única referência, ressalte-se, face à
expectativa, era continuar a sonhar com a sua própria fuga e libertação como se
as suas vidas coexistissem e originassem alguma coisa de novo.
Tuesday, November 19, 2013
Passagens interditas
cheguei às portas secretas
atravessei as passagens interditas
e
no labirinto que negou os meus passos
vi tesouros que não eram meus
Maria Alexandre Dáskalos
Monday, November 18, 2013
Sunday, November 17, 2013
Espantar o frio
Depois do sol, os fins de tarde
passaram, então, a ser reservados junto à lareira. Era para lá que a atenção se
deslocava, tardiamente, aquando as indesejadas temperaturas mais baixas. Em
redor, uma a uma, as crianças iam-se aproximando à vez, mantendo a tradição
viva, em busca do lugar mais quentinho. Tudo o resto deixava de ser questão.
Saturday, November 16, 2013
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