Friday, June 6, 2014

Em tempo real

Observando com mais nitidez que nunca, pensava ir descobrir, no lado errado, uma nova esperança expressiva. Cansada da realidade, entrega-se à ilusão à procura de espantar as angústias que tanto a atormentavam. Porém, o espaço imediato nunca é o que julgávamos ser, em contraste com a intensidade do imaginário em todo o seu ambivalente esplendor. Provavelmente, não era só o que não esperava, também não era aquilo que lhe agradava.

Thursday, June 5, 2014

A mise en scène

Na verdade, um simples encontro para um chá pode ser visto como uma atitude social ou subentendido como uma reunião irrelevante ao mesmo tempo que tão cheia de significados. Entre um gole e outro, há ainda, um desfiar de segredos e queixumes, algumas confissões e breves relatos de pequenas histórias do dia-a-dia, nem todas com um final feliz. À partida, não só, uma a uma se vão esvaziando as chávenas, mas se vão revelando fraquezas e incertezas, e frequentemente a disseminação de uma certa culpa.

Wednesday, June 4, 2014

Como se fosses outra

Há uma música mas não a ouço. Debruço-me sobre o som do mar.
Depois sobre o teu sono, como se fosses outra.


Casimiro de Brito

Tuesday, June 3, 2014

A borboleta

A borboleta pousada
Ou é Deus
Ou é nada.


Adélia Prado in Artefato nipônico

Monday, June 2, 2014

Memórias

 De que são feitos os dias?
 De pequenos desejos,
 vagarosas saudades,
 silenciosas lembranças


Cecília Meireles

Sunday, June 1, 2014

A dado passo


Saturday, May 31, 2014

Sem deixar rasto

A cada Primavera, cantam, intensamente, as árias mais doces. A serenidade que projectam, rumo ao desconhecido, reveste-se de espectacularidade ao atravessar um tempo ainda por resgatar.

Friday, May 30, 2014

Suporte visual

Não sabemos com exactidão quanto duram. Talvez, não mais que uns dias, e depois disso o que porventura fica? Dir-se-á, a exaltação da cor, ou o que nos deteve o olhar, desencadeando uma forma de harmonia que, eventualmente acaba por se diluir.

Thursday, May 29, 2014

Do quotidiano

A imensidão do oceano permitia-lhe fugir aos lugares-comuns. Em especial, quando flutuava, por um período de tempo mais ou menos prolongado, criando espaço para reflexões, achando solução para as situações mais ingratas. No fim de contas, era uma longa viagem através da expansão de horizontes que, lhe permitia usufruir de uma outra perspectiva. 

Wednesday, May 28, 2014

Apenas figurantes

Às 10 e meia, dividia os dias com o resto da gente sem rumo ou identidade. O sol da Primavera aquecia-lhe a nuca num universo de personagens caóticas que, apareciam e desapareciam. Tudo estava lá. O sofrimento social, a dificuldade de financiamento, a tragédia económica e a política suicida. A dado passo afastavam-se horrorizados.
 As vozes irrompiam. Descontínuas e desordenadas, oscilando entre o grau de incerteza e a quebra de solidariedade, sobrepondo-se aos pecados que lhes foram atribuídos e que era compulsivo expiar. Mal sonhavam eles que as consequências futuras viriam a ser ainda mais graves.

Tuesday, May 27, 2014

A pobreza

     A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e
de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos
sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país
e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e
morremos. 

Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio & Alvim - 2ª edição - 2001

Monday, May 26, 2014

Visita guiada




Da margem do Arade avisto a serra de Monchique, a marina de Portimão e o encontro entre o rio e o mar em permanente convívio com a vila e a população de turistas e pescadores, onde também descubro becos e ruas estreitas, deixando-me encantar por cada um destes lugares.

Sunday, May 25, 2014

Outro rumo

Porque a minha mão infatigável
 procura o interior e o avesso
 da aparência
 porque o tempo em que vivo
 morre de ser ontem
 e é urgente inventar
 outra maneira de navegar
 outro rumo outro pulsar
 para dar esperança aos portos
 que aguardam pensativos


Mia Couto in Confidência

Saturday, May 24, 2014

Figuras de palco


Friday, May 23, 2014

Sinais de um tempo

Numa altura em que o tempo é de desagregação da Europa, eis que somos chamados por ela a votar. Mas sobre a mesma nem uma palavra. A união simplesmente não existe e os temas centrais deram lugar a uma campanha patética e pobre. Sem se discutir a Europa, em jogo resta todo um sentimento de descontentamento que, se reflectirá nos votos de protesto ou na desmobilização do eleitorado que nem sequer irá votar.

Thursday, May 22, 2014

O aceno

O espaço esvazia-se até ao limiar da memória, onde alastra o meu cansaço, o afago quente de um choro, o aceno de sinais que se correspondem como ecos de um labirinto. Num oblíquo aviso afloro o que estremece sob os gestos enfim apaziguados.


Vergílio Ferreira in aparição

Wednesday, May 21, 2014

A estranheza do ser

Nós somos imprevisíveis. Às vezes olhamo-nos ao espelho e, mesmo sem dizer, recuperamos aquele verso de Rimbaud, "eu sou um outro". Quem é este que me olha ao espelho? Olhamos para nós e há uma estranheza de ser que nunca se cura: mas sou assim? que caminho é este? que tempos são estes que me habitam? Somos também um segredo para nós mesmos e temos de aceitar-nos assim. Somos um enigma, uma pergunta e temos de aceitar isso. Caso contrário nunca teremos paz. Habitaremos sempre a divisão e o conflito. Há, portanto, um momento em que é preciso dizer: "está bem, é assim; eu não explico, eu não concebo, eu não programo, mas é assim, e vou fazer alguma coisa com isso.


José Tolentino Mendonça in Nenhum caminho será longo

Tuesday, May 20, 2014

Lugares recônditos


Numa casa, aqui e ali, há espaços intermédios que, exigem a concentração de quem observa. Iluminados e frescos, neles se vivem instantes contagiantes que, se renovam a cada manhã e, antes do mais, transformam um percurso incerto em algo inesperado e verdadeiramente inspirador.

Monday, May 19, 2014

Olho-te

Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite
E o meu desejo de ti
São lágrimas por
dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:
o tempo de viver;
e a gente em social
desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu
lado
fosse alta e
oportuna,
invadia de amor o teu
reflexo
e em estilhaços de
vidro
mergulhava em ti.
Ana Luísa Amaral In Anos 90 e Agora - Quasi Edições

Sunday, May 18, 2014

Leveza estética