Saturday, December 6, 2014

De um só golpe

Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu
    nome profissão morada telefone.
     Disse-te: Eis-me.
     E decepei-te a cabeça de um só golpe.
     Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!

Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio & Alvim - 2ª edição – 2001

Friday, December 5, 2014

A sede

Regressas às vezes, quando é noite, ao lugar
onde sempre te demoras.
Levas ao ombro uma ânfora a que sorveste os
sumos dia-a-dia nela derramados: água e vinho,
o leite das amoras e dos figos, o licor almiscarado
das cerejas e das ginjas. E a sede, essa substância
de todas a mais viva.
Queres agora encher novamente o vaso.
A água e o vinho secaram na haste e na fonte,
a ânfora está quebrada e os dedos já não seguram
sequer os cacos que apenas sobrevivem.


Albano Martins


Thursday, December 4, 2014

O bafo no rosto

Quero um erro de gramática que refaça
 na metade luminosa o poema do mundo,
 e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
 o erro do erro:
 alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.



Herberto Helder in Poesia Toda, Lisboa - Assírio & Alvim, 1996

Wednesday, December 3, 2014

Em estado puro

Pouco importava o rumo. Diametralmente relevante era esse lugar de encontro onde se sentia cúmplice da unidade de conjunto. De caminho, num contínuo girar em busca de harmonia, não menos evidente era o desejo de recuperar o preciso ângulo, onde o Outono se reacendia e a inspirava. 

Tuesday, December 2, 2014

Paixão romantizada


Monday, December 1, 2014

Fio de história

A julgar por tantos momentos circunstanciais, aos olhos dela ele era um anjo. Num tempo mais lento, quando a indiferença e o distanciamento fechavam um círculo de amizades voláteis, só o papel que ele suportava era sustentável. Seria legítima a desilusão? Mais do que um personagem, perante as vicissitudes desencadeadas no conflito dos dias, apenas o anjo fulgia!

Sunday, November 30, 2014

Na ponta dos pés

Muito próximos e entrelaçados, faziam questão de utilizar a pista de dança quase na totalidade. Sem dúvida o seu terreno. Cada movimento era executado com vitalidade por forma a surpreender. De olhar fixo, e postura ligeiramente inclinada o talento de ambos tornara-se evidente desde logo conquistando notoriedade. Com as cabeças às voltas executavam movimentos, uns a seguir aos outros, como se corressem mundo, numa verdadeira luta contra o tempo, sem nunca retroceder.

Saturday, November 29, 2014

Em transformação

A um primeiro olhar os tons e as cores eram apenas uma extensão do exterior. Um prolongamento natural em face à mudança de estação. Em certo sentido as influências da mutabilidade da natureza  eram reconhecidas e a beleza daqueles vestidos brilhava e renovava-se sem que se esquecesse o Verão.

Friday, November 28, 2014

Inquietudes

Tendo em conta a incerteza que a esperava o seu estado de alma era de apreensão. Em situação idêntica, encontrava-se uma série de outros pacientes que, resignadamente aguardavam pela sua vez. Cada um deles de idade bastante avançada. Observando-os, sentia-se uma verdadeiro jovem, embora o cenário lhe causasse uma arrepiante sensação de finitude. Em tempos, tinha lido algures que envelhecer podia ser uma surpresa desagradável, e no momento, além da natural ansiedade pré-operatória esse era um propósito com o qual agora se confrontava.

Thursday, November 27, 2014

Prática cultural


Surgiu nas planícies, quando das longas caminhadas entre casa e a ceifa. Hoje, a Unesco reconheceu o cante alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Sem recurso a instrumentos, apenas a voz e poesia preservam a memória dum Alentejo antigo e da sua identidade.

Wednesday, November 26, 2014

Voemos

Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

Fiódor Dostoiévski

Tuesday, November 25, 2014

Inventar alegria


É urgente o amor. 
É urgente um barco no mar. 

É urgente destruir certas palavras, 
ódio, solidão e crueldade, 
alguns lamentos, 
muitas espadas. 

É urgente inventar alegria, 
multiplicar os beijos, as searas, 
é urgente descobrir rosas e rios 
e manhãs claras. 

Cai o silêncio nos ombros e a luz 
impura, até doer. 
É urgente o amor, é urgente permanecer.


Eugénio de Andrade in Até Amanhã, 1956 

Monday, November 24, 2014

Abrir caminho


Sunday, November 23, 2014

Brilhos azulados

Conheço o sal da tua pele seca
Depois que o estio se volveu inverno
De carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
Quando das bocas se estreitavam lábios
E o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
Os louros ou cinzentos que se enrolam
Neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
Como nas praias o perfume fica
Quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
Da tua língua, o sal de teus mamilos,
E o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
Ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
Um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena


Friday, November 21, 2014

A luz do dia

Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Albano Martins

Thursday, November 20, 2014

Cada palavra

São feitas de palavras as palavras
 e da melancolia da
 ausência da prosa e da ausência da poesia.



É o que falta que fala
 do lugar do exílio
 do sentido e da falta de sentido.


Tudo o que te disser
 tudo o que escrever
 sou eu a perder-te,


cada palavra entre
 o que em mim é corpo
 e é nela sopro.





Manuel António Pina in Todas as Palavras - Assírio & Alvim

Wednesday, November 19, 2014

A expectativa

Não quero o primeiro beijo:
Basta-me o instante antes do beijo.



Mia Couto

Tuesday, November 18, 2014

Ao sabor da vida

A persistência do olhar ajudava-a a reconfigurar memórias num permanente cruzar de segmentos. Concentravam-se num espaço que chegava a penetrar-lhe a imaginação. No início, a natureza da sua própria esfera não lhe era conhecida, mas de permeio, novas evidências acabariam por revelar ao mundo a sua emancipação pessoal.

Monday, November 17, 2014

O pesadelo

Indicaram-lhe um cruzamento de caminhos e Alice escolheu um ao acaso.
Depois de muito caminhar, encontrou finalmente o coelho que procurava.
- Alto, menina. A Rainha está a chegar. Vai-te embora! Mas, Alice nada parecia perceber.
Viu uns valetes com pernas a pintar as rosas de encarnado, até que subitamente chegou a Rainha que quis jogar criquet com Alice, mas um gato fê-la tombar e foi um verdadeiro sarilho.
Porém, ao levantar-se a Rainha deu por falta dos brincos reais!
- Eu não os tirei! disse Alice assustada.
- O meu carrasco vai-te cortar a cabeça - anunciou a Rainha.
- Levem-na para a cela! - gritou furibunda.
Nesse momento Alice voltou ao mundo real...!
Será que tinha tido um pesadelo?

Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas

Sunday, November 16, 2014

No fio do horizonte

Na tua boca cantou subitamente uma voz
E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,
o rio que outrora bordava o campo emudeceu
com as suas pedras lisas. Então, foi possível

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas
e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros
e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.

Sobre a colina quente passou uma nuvem
e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte -
por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão
escorregou pela inclinação do sol e veio contar
as sombras do um decote.

São assim as mais pequenas histórias do mundo.


Maria do Rosário Pedreira in O Canto do Vento nos Ciprestes, 2001