O restaurante Spikes, em Vale do Lobo, foi o local escolhido
para celebrar mais um aniversário da nossa amiga Fernandinha. Foi com o campo
de golfe como cenário que, desfrutámos de um maravilhoso almoço gourmet, em
amena tarde de outono.
Friday, October 11, 2013
Thursday, October 10, 2013
Olhar o outono
Subitamente, a partir de uma
desmultiplicação de cores, tonalidades e, luminosidade, a paisagem mudou. Apesar
de mal se deixar ouvir, o outono exige um outro olhar. Afinal, a natureza tem
tantas faces que, cada uma delas nos marca o percurso na fronteira entre a
realidade e o imaginário.
Wednesday, October 9, 2013
Torturas da alma
Dedicado à minha amiga F
Está visto. A decisão só podia ser uma. A partir
de uma coreografia era quanto bastava para que voltasse a sorrir e subtraísse, em
formato aberto, todos os embates da vida. Os sons quentes da América latina causavam-lhe
um intenso apelo sensorial tal que, o efeito era anestesiador por excelência. Essa
atmosfera compensava-a das frustrações do dia-a-dia, redimindo-a na captação daqueles
instantes verdadeiramente avassaladores. A vontade de tentar inverter uma situação menos
inspirada, despertara-lhe, aquela súbita paixão, imperdível para quem gosta.
Tuesday, October 8, 2013
As cidades claras e lavadas
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é o meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Monday, October 7, 2013
Sunday, October 6, 2013
Enquanto espero
Deixem-me agora evocar, aos
goles de lembrança.
Enquanto espero que ele
volte, de novo, a este pátio.
Recordar tudo, de uma só
vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos.
Me debruço na varanda e a
altura me tonteia. Quase vou na vertigem.
Sabem o que descobri? Que
minha alma é feita de água.
Não posso me debruçar
tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.
Mia Couto in O fio das missangas - Espelho
Friday, October 4, 2013
O logro
Antes de sair de casa é
avisada pela mãe que não deve seguir pela floresta, pois, é exactamente naquele
local que o lobo mau costuma aparecer.
Porém, sempre curiosa por
conhecer novos animaizinhos, Capuchinho Vermelho aventura-se pela floresta sem ligar às recomendações da mãe. Ali, encontra o lobo mau que
descobre que a avó da Capuchinho está doente e que ela vai a caminho de casa dela
para lhe levar o lanche.
- Onde mora a tua avó? Quis saber
o lobo.
- Ainda falta um pouco para lá
chegarmos. Informou a menina.
«Hum… que menina tão tenrinha! Se
me despachar, posso almoçar a avó e saboreá-la à sobremesa.» Pensou o lobo.
Conto infantil dos Irmãos Grimm
Thursday, October 3, 2013
Desconhecimento
sem motivo, me diz que não
sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é
o amor. O amor é saber
que existe uma parte de nós
que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos
perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o
amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer
morrer.
José Luis Peixoto in «A Criança em Ruínas», 1ª Ed. - Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2001
Wednesday, October 2, 2013
Tuesday, October 1, 2013
A folha voante
Dedicado à minha filha Carina
Tu és a folha de outono voante pelo jardim.
Deixo-te a minha
saudade - a melhor parte de mim.
Cecília Meireles
Monday, September 30, 2013
Várias questões
Quem por lá passasse não podia
deixar de reparar naquela janela. As estruturas de ferro enferrujado pelos
anos, os elementos geométricos, e a subtileza com que a trepadeira a
atravessou, pareciam sugerir todo um esplendor mítico. De repente, sentia-me do
lado errado e, ansiava por transpor todo aquele sentimento enigmático que, me
causava tanta curiosidade. Afinal, que concluir? Podia haver quem conhecesse
bem o perigo e recomendasse prudência, mas, apesar de território duvidoso,
desejava acrescentar mais uma experiência. Porque sempre procurei até ao fim.
Sunday, September 29, 2013
Saturday, September 28, 2013
Auroras nocturnas
A noite é
uma página escrita onde há uma vírgula depois de cada
letra, um ponto depois de cada palavra, uma
exclamação no fim de cada
frase. Ao fim de cada período está o teu
corpo, aberto num parêntese
longo, que explica a súbita eclosão de auroras
nocturnas.
No fim de tudo estão os teus olhos, redondos
como duas afirmações,
loiros e despenteados.
Albano
Martins (1930)
Friday, September 27, 2013
Um balão prestes a esvaziar
Concluiria que
não existiu qualquer esclarecimento, quando alguém lhe interrompeu o pensamento,
e mencionou que, nesta campanha, em lugar de se discutir as obras públicas se teria
dado prioridade ao que as pessoas precisam, dando um maior ênfase à parte
humana. Pudesse ela quebrar este ciclo negativo dominado por quem não apresenta
nem resultados nem soluções, e recheado de promessas vãs, e tudo seria muito
diferente. E, se houve uma altura em que os políticos fugiam dos cidadãos,
agora eram os próprios cidadãos a fugir dos políticos. Não seria invulgar
verificar que, os portugueses estão, certamente, mais atentos, e já lhe dizia a
avó que, quando a dignidade do trabalhador estava em causa, uma pessoa melhor
informada deixar-se-ia enganar muito menos. Irreconciliada com o mundo e, sobretudo,
com o país, perante esta disfunção com a realidade, tinha decidido que, no
próximo domingo, votaria em branco.
Thursday, September 26, 2013
A condução de um destino
A paixão
pela tranquilidade acabaria por a encaminhar até paisagens mais campestres. É
aí que se move com notável fluidez, e em moldes bem definidos, desafiando o
estado de crise. Desligada de tudo o mais em seu redor, não só recorre a todo o
tipo de experiências, como a sua prioridade será reconstituir aquilo que um dia
lhe haveria pertencido. Só assim, mais tarde, o seu território se revelaria
ilimitado.
Wednesday, September 25, 2013
Noite de fado
Não sei por que te foste embora.
Não sei que mal te fiz, que importa,
só sei que o dia corre e àquela hora,
não sei por que não vens bater-me à porta.
Não sei se gostas de outra agora,
se eu estou ou não para ti já morta.
Não sei, não sei nem me interessa,
não me sais é da cabeça
que não vê que eu te esqueci.
Não sei, não sei o que é isto
já não gosto e não resisto
não te quero e penso em ti.
Não quero este meu querer no peito,
não quero esperar por ti nem espero.
Não quero que me queiras contrafeito,
nem quero que tu saibas que eu te quero.
Depois de este meu querer desfeito,
nem quero o teu amor sincero.
Não quero mais encontrar-te,
nem ouvir-te nem falar-te,
nem sentir o teu calor.
Porque eu não quero que vejas
que este amor que não desejas
só deseja o teu amor.
Não sei porque te foste embora: original de Amália Rodrigues
letra e música de José Galhardo e Frederico Valério
Tuesday, September 24, 2013
Entre aromas e cores
É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.
António Ramos Rosa (1924 - 2013) in Acordes, Quetzal
Monday, September 23, 2013
Sunday, September 22, 2013
Ciclo de descobertas
A partir do olhar, fito-as indistintamente,
aqui e ali. A algumas falta-lhes maturação, e, logo a seguir, quando olhamos
para o céu, chama-nos à atenção as que suspensas se elevam com evidente leveza.
A luz e as sombras realçam-lhes as cores quentes da folhagem e a luminosidade dos
bagos. Por fim, na lentidão dum gesto, deito-lhes a mão com a cumplicidade do
Rico, e de alma intensa, ambos ignoramos o pó e as impurezas, e, uma a
uma, apreciamos o doce sabor das uvas.
Saturday, September 21, 2013
Quase um destino
uma espuma de sal bateu-me alto na cabeça,
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas, como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas, como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
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