Wednesday, October 15, 2014

A luz que estremecia

tão fortes eram que sobreviveram à língua morta,
esses poucos poemas acerca do que hoje me atormenta,
décadas, séculos, milénios,
e eles vibram,
e entre os objectos técnicos no apartamento,
rádio, tv, telemóvel,
relógios de pulso,
esmagam-me por assim dizer com a sua verdade última
sobre a morte do corpo,
dizem apenas: igual ao pó da terra que não respira,
o que é falso, pois eu é que deixarei de respirar
sobre o pó da terra que respira,
entre o poema sumério e este poema de curto fôlego,
mas que talvez respire um dia,
ou dois, ou três dias mais:
quanto às coisas sumérias: as mãos da rapariga,
o cabelo da estreita rapariga,
a luz que estremecia nela,
tudo isso perdura em mim pelos milénios fora,
disso, oh sim, é que eu estou vivo e estremeço ainda


Herberto Helder in A Morte sem Mestre - ed. Porto Editora, 2014

Tuesday, October 14, 2014

Noite de ópera






Árias e duetos de óperas de Donizetti, Rossini, Puccini, Bellini, Verdi e Bizet. Espectáculo narrado por Paulo Segurado, com a participação da soprano Carla Pontes, o baixo-barítono Francisco Brazão e a pianista Cristiana Silva.

Monday, October 13, 2014

O abandono

     Calo-me.
     Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas
de mulher desabitada.

Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio & Alvim - 2ª edição - 2001

Sunday, October 12, 2014

O despertar

Depois de viver verdadeiras aventuras num mundo imaginário, na companhia de tantas singulares personagens, é que Alice se dá conta que tudo não passara de um sonho e que estava de volta à realidade, acordando daquela viagem absolutamente fantástica.

Saturday, October 11, 2014

Friday, October 10, 2014

Proteja-se

Cuide-se como se você fosse de ouro. Ponha-se você mesma de vez em quando numa redoma e poupe-se.


 Clarice Lispector

Thursday, October 9, 2014

Coisas leves

Não sei tecer
senão espumas,
nuvens
e brumas.
Coisas breves,
leves,
que o vento desfaz.

Como prender-te
em teia tão frágil?


Luísa Dacosta in A Maresia e o Sargaço dos Dias

Wednesday, October 8, 2014

Curto episódio

Era apenas mais um final de tarde, e o facto de nunca querer perder o que quer que fosse. Naquele dia sombrio, observava duas crianças apostadas em moldar um castelo à beira mar – uma lufada de criatividade, pronto a desmoronar-se à mercê de uma onda mais inconsequente. Nada de somenos importância, visto a sua diferencialidade não desaparecer, mas pelo contrário, abrir novas possibilidades de um jogo cuja mecânica seria infinita.

Tuesday, October 7, 2014

A manhã

Não aprofundes o teu tédio.
Não te entregues à mágoa vã.
O próprio tempo é o bom remédio:
bebe a delícia da manhã.


Manuel Bandeira

Monday, October 6, 2014

Objectiva indiscreta


Sunday, October 5, 2014

Sequência final

A dada altura, quando nada mais parecia vibrar à sua volta o momento exigia-lhe um novo olhar. O que procurava, afinal? Nesse sentido, redesenha um inimaginável refúgio para a realidade, num mundo à parte no qual redescobre a poesia, ao ritmo da ondulação. 

Saturday, October 4, 2014

A dúvida

 Primeiro sabem-se as respostas.
As perguntas chegam depois,
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e respostas.

Que coração, no entanto pode repousar
com o restolhar de asas no telhado?
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado.

Porquê, tão tardo, o passado?
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração a saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolhem também sob
lembranças extenuadas?
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro
as coisas acabadas.




Manuel António Pina

Friday, October 3, 2014

O atalho

Quando o Capuchinho Vermelho viu como os raios de sol dançavam entre as árvores, e como havia lindas flores por todo o lado, pensou: "Se eu levar à avó um ramo fresco, irei dar-lhe uma grande alegria." Então, desviou-se do seu percurso e entrou no bosque à procura de mais flores. E cada vez que apanhava uma, pensava que mais longe haveria outra correndo a apanhá-la, de tal forma que penetrou cada vez mais na floresta. Só quando já tinha tantas flores que não podia carregar mais é que o Capuchinho Vermelho se lembrou da avó e retomou o caminho para sua casa.

 Charles Perraut in O Capuchinho Vermelho

Thursday, October 2, 2014

Concerto



A obra de António Pinto Vargas num espectáculo concebido e interpretado pelo próprio foi a proposta que escolhemos para celebrar o dia mundial da música. 

Wednesday, October 1, 2014

A música

Esta noite vou servir um chá
Feito de ervas e jasmim
E aromas que não há
Vou chamar a música
Encontrar à flor de mim
Um poema de cetim

Rosa Lobato de Faria

Tuesday, September 30, 2014

Uma ausência de nome

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades


Ana Luisa Amaral in Se fosse um intervalo

Monday, September 29, 2014

Jogos de sons



A partir de uma pluralidade de estilos, o concerto de jazz que, marcou o início do Outono, trouxe-nos uma série de peças onde acordes, tempos e compassos fluíram com grande engenhosidade. Dificilmente explicável torna-se impossível não se ficar fascinado com a espontaneidade de tão diferentes possibilidades musicais.

Sunday, September 28, 2014

Aquela praia

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, September 27, 2014

Abandonada pelo tempo


Friday, September 26, 2014

Memorável

Tudo que é bom
Dura o tempo necessário
Para ser inesquecível


Fernando Pessoa