Na noite do seu
aniversário, a Manuela contou com a presença das amigas mais próximas, não
escondendo a sua felicidade. Ausente no estrangeiro, durante longos anos, vive
agora uma nova fase da sua vida em ambiente descontraído e de grande charme.
Wednesday, August 21, 2013
Tuesday, August 20, 2013
O silêncio rumorejante
Durante o sono
retiraram-me uma costela
Ficou-me no peito um
vazio que não consigo preencher
Custa-me a respirar
Eu quero de volta a
minha costela
quero de volta todas
as costelas
Quero de volta o
paraíso
quero de volta o
silêncio rumorejante
quero de volta as
poluções nocturnas
e diurnas
Quero uma mulher
feita de chuva
e vento
e fogo
e neve
e luz
e breu
e não de argila
como eu
Jorge Sousa Braga in O Novíssimo Testamento e outros
poemas
Monday, August 19, 2013
Planos fixos
Em rigor, os
passeios diários com o Rico, não são mais senão um somatório de pequenas
descobertas. Portugal é um dos maiores produtores de alfarroba – vagem comestível
com cerca de 10 a 16 sementes que leva um ano inteiro a amadurecer, e que aqui
é conhecida como o chocolate do Algarve, pelo seu sabor levemente adocicado
que, quando moída e torrada, substituí o cacau. Cada percurso desencadeia uma
procura, e assim vamos conhecendo de que é feita toda a substância.
Sunday, August 18, 2013
Além do amor
Mais que o teu corpo quero o teu pudor
quero o destino e a
alma e quero a estrela
e quero o teu prazer
e a tua dor
o crepúsculo e a
aurora e a caravela
para o amor que fica
além do amor.
A alegria e o
desastre e o não sei quê
de que fala Camões e
é como água
que dos dedos se
escapa e só se vê
quando o prazer se
torna quase mágoa.
Estar em ti como quem
de si se parte
e assim se entrega e
dando não se dá
quero perder-me em ti
e quero achar-te
como num corpo o
corpo que não há.
Manuel Alegre in Livro do
Português Errante - Dom Quixote, 2001
Saturday, August 17, 2013
Um olhar de relance
Em última análise,
quem por ela vagueia pressente-lhe os mistérios atrás da porta. Intensamente habitada
por mendigos ou fantasmas, de certo modo, reconhecesse-lhe um legado digno de
reconhecimento. Do tecto apenas resta o horizonte, e se houvesse uma história,
certamente, muito haveria para contar.
Friday, August 16, 2013
Thursday, August 15, 2013
Nasci para cantar o fado
Meu amor, porque me prendes?
Meu amor, tu não entendes,
Eu nasci para ser gaivota.
Meu amor, não desesperes,
Meu amor, quando me queres
Fico sem rumo e sem rota.
Paulo Valentim (excerto do fado Segredos)
Wednesday, August 14, 2013
Tuesday, August 13, 2013
Lamechices
Foi-as coleccionando, ao longo
dos dias. Soltas, aqui e ali, deram para encher um pequeno balde. Num dado
momento, dispôs as conchinhas, uma a uma, em forma de um coração, onde cabia
todos os sonhos. Ao olhar de quem passava o gesto não seria inédito, contudo, irreflectidamente
apaixonada, ela sentia que tinha ganho uma alma nova conseguindo expressar um
desejo explícito.
Monday, August 12, 2013
À beira do mar
Como quem procura conchas à beira do mar,
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.
Luísa Dacosta
Sunday, August 11, 2013
Mar de Agosto
para que a luz do Sol
me não constranja.
Numa taça de sombra
estilhaçada,
deita sumo de lua e
de laranja.
Arranja uma pianola,
um disco, um posto,
onde eu ouça o
estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor,
o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o
teu, à minha volta!
Depois, podes partir.
Só te aconselho
que acendas, para
tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do
teu joelho,
entre os lençóis o
lume do teu peito...
Podes partir. De nada
mais preciso
para a minha ilusão
do Paraíso.
David Mourão-Ferreira in Infinito Pessoal ou a Arte de Amar,
Guimarães Editores 1963
Saturday, August 10, 2013
Friday, August 9, 2013
Quantificação
Quando para eles
olhamos, desprendem-se das árvores deixando antever o sabor que a cor lhes
acentua. Toda a beleza é o começo dum fruto. Pêssegos, ameixas, cerejas, melões
e mais uma infinidade, circulam como uma tresloucada roda da fortuna,
unicamente, para o nosso proveito. E, quão generoso é o Verão! Melhor dizendo,
pelos pomares, até à boca, os gestos não escondem o prazer, sem pressas, da sua degustação.
Thursday, August 8, 2013
Última gota
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.
Clarice Lispector
Wednesday, August 7, 2013
Rosa esquerda
e logo ma roubaram,
logo me perderam o pequeno achado,
mas ninguém me rouba a alma,
roubam-me um erro apenas que acertava só comigo,
um umbigo, um nó,
um nome que só em mim era floral e único
herberto helder in servidões, 2013
Tuesday, August 6, 2013
A flor de acaso
Palavra tremendo nas
redes da poesia,
O teu nome, como o
destino, chega,
O teu nome, meu amor,
o teu nome nascendo
De todas as cores do
dia!
Alexandre O'Neill in
No Reino da Dinamarca, Obra Poética (1951-1965), 2.ª edição
Monday, August 5, 2013
Representação histórica
Entre o passado e o presente,
percorri todo um espaço de memória e fascínio na grandiosidade do centro histórico de
Silves, à medida que, fui descobrindo artesãos, figurantes e objectos numa
extraordinária retrospectiva do tempo que evocou manjares, festa e muita música
numa versão carregada de esplendor.
Sunday, August 4, 2013
A solução
Dorothy seguiu um caminho de pedras amarelas e viu um espantalho
num campo de milho e libertou-o.
– Não sei como lhe agradecer- disse o espantalho.
- Faz-me falta um cérebro.
– Vem comigo! O Mágico de Oz poderá dar-te um - falou a
menina.
Mais adiante, encontrou um homem de lata enferrujado. Depois
que Dorothy o untou de óleo, o homem lata agradeceu e disse que gostaria de um
coração para ser generoso.
– Vem connosco. O Mágico de Oz vai conseguir arranjar-te um - disse Dorothy.
No caminho, um leão atacou o Totó.
– Mas que leão cobarde! — gritou Dorothy, zangada. O leão recuou
e concordou.
– Então, vem connosco. O Mágico de Oz vai dar-te coragem - disse Dorothy com pena do leão.
L. Frank Baum in O feiticeiro de Oz
L. Frank Baum in O feiticeiro de Oz
Saturday, August 3, 2013
Friday, August 2, 2013
Projectos
Para a esmagadora maioria a
probabilidade de gozar férias será, este ano, remota. Contudo, neste mês,
considerado de excelência, as férias assumem um papel absolutamente imperativo
e a única forma de fugir de tudo aquilo que nos leva a partir em primeiro lugar.
Em colapso com uma programação habitual, inquietações e incertezas dão lugar a
um mundo novo de locais e situações diversificadas que, recriamos para além do quotidiano.
O ritmo, simplesmente, abranda e a rotina deixa de ser. Neste ponto, poderíamos
dizer que nada há melhor que, desimpedido o caminho nos deixemos embarcar numa
viagem de sonho. Infelizmente, para alguns, fica demasiado distante e é por isso
inalcançável.
Thursday, August 1, 2013
Wednesday, July 31, 2013
Dia de festa
Em mais um aniversário da nossa amiga Teresinha que, contou
com a presença de tantos convidados especiais, o jantar, no hotel Paraíso, foi descontraído
e animado, terminando com ritmos quentes na pista de dança. Com um brilho nos
olhos, e visivelmente feliz, a noite foi definitivamente dela.
Tuesday, July 30, 2013
O Verão é de azulejo
Deixarei os jardins a brilhar com seus
olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.
Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.
Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.
Herberto Helder in Cobra - Poesia Toda
Assírio & Alvim 1979
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.
Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.
Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.
Herberto Helder in Cobra - Poesia Toda
Assírio & Alvim 1979
Monday, July 29, 2013
Memórias de instantes
Insinuantes,
e entrecortadas pela luz, dum canto da cozinha, tomam-me conta das emoções, extravasando
a exaltação dos encontros diários com a natureza. Na aceleração dos dias,
guardo cada uma destas flores, recuperando as mais fantásticas paisagens, sempre, na
companhia do Rico. E, como as poderia eu perder?
Sunday, July 28, 2013
Saturday, July 27, 2013
Até morrer
Eu não sei senão amar-te,
Nasci para te querer.
Ó quem me dera beijar-te,
E beijar-te até morrer.
Fernando Pessoa
Nasci para te querer.
Ó quem me dera beijar-te,
E beijar-te até morrer.
Fernando Pessoa
Friday, July 26, 2013
Nós e o gato
Às vezes o gato fitava
com estranheza
o que de nós (um excesso)
se interpunha entre nós e o gato,
a nossa presença.
manuel antónio pina in moradas todas as palavras
poesia reunida assírio & alvim 2012
Thursday, July 25, 2013
Fogo de Verão
A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.
Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
Eugénio de Andrade
Wednesday, July 24, 2013
Nas nuvens
o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
José Luís Peixoto in A Criança Em Ruínas, Edições Quasi, 6.ª Edição, 2007
Tuesday, July 23, 2013
Superfícies reais
A partir do momento que,
avistamos os campos de tomilho, avançamos, atraídos pela fragrância
intensa. Colho-o em qualquer ocasião, mas é no Verão que as suas flores miudinhas desabrocham num contínuo fluir da paisagem. Apanho um raminho aqui, e
mais outro ali, para em casa, aromatizar o azeite, e em qualquer altura do ano, dar
um sabor especial aos meus temperos na cozinha!
Monday, July 22, 2013
Crise criativa
Enquanto, com
toda a calma do mundo, se aguardava por revelações, veio-me à ideia aqueles
intermináveis momentos duma época em que, cúmplices, numa metodologia de
movimentos frenéticos, abríamos e fechávamos aquele pedacinho de papel, quando
uma série de partes funcionando como elementos de ligação contribuíam para um
todo. Em rigor, o resultado era sempre inconsequente, e nesta prática
repetitiva havia sempre a possibilidade de refazer as escolhas dos números ou
cores, cujos resultados poderiam gerar diversas leituras e interpretações, reais
ou inventadas, conhecendo o autor ou autora, o seu princípio e o seu fim. Condenados
a que assim se perpetue, a encenação do exercício, nos dias que correm,
demonstra quanta falta nos faz a capacidade de reinvenção na incerteza deste
jogo pouco convincente.
Sunday, July 21, 2013
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