Partindo de onde é mais difícil lá
chegar, sentia que, já não podia voltar atrás. A manhã parecia trazer-lhe
algumas surpresas, quando o real e o fantástico, não estariam, assim, tão
distantes um do outro. Um sentimento de inquietude crescia lentamente, ao mesmo
tempo que, os olhos se lhe alargavam a tentar espreitar o que havia para lá do
que conhecia. Mas, dificilmente se compreenderia, ou seria esclarecedor.
Wednesday, February 12, 2014
Tuesday, February 11, 2014
Esta cabeça não é minha
nunca mais quero escrever numa língua
voraz,
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,
para nada atmosférico de mim mesmo: um
aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça,
tanto a noite caminhando quanto a manhã
que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo -
estou farto de tanto vazio à volta de
nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo
do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence,
este mundo não é o outro mundo que a
outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores
e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que
só eu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz
sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras
línguas,
e estes livros, estas flores, quem me
dera tocá-los numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema,
um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo
forte e silêncio
Herberto Helder in Servidões, Lisboa: Assírio & Alvim, 2013
Monday, February 10, 2014
Sunday, February 9, 2014
Excentricidades
Estonteada, e sem nada perceber, Alice saiu
dali disparada. Mais à frente, viu os soldados da Rainha de Copas a pintar as
flores brancas que ali existiam de encarnado.
- Mas por que estão a pintar as flores brancas de encarnado?
- Plantámos flores brancas por engano. Como a Rainha só gosta
de flores encarnadas, se não pintarmos as flores brancas dessa cor, ela manda
cortar as nossas cabeças, responderam eles.
No Reino de Copas, tirando essa maluquice toda, tudo corria
normalmente.
Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas
Saturday, February 8, 2014
A vida é um jogo
A palestra de hoje, conduzida
pelo André, deu-nos a oportunidade de reflectir um pouco sobre cada um de nós –
actores de uma peça de teatro no palco do mundo. No filme da vida distinguem-se
dois tipos de personagens. O bom actor e o menos bom. A meta é sermos cada vez melhores, através da prática do bem, com a sabedoria como nossa
companheira e, entendendo a mensagem para além de quaisquer palavras. O bem é
puro e grandioso e traz-nos benefícios que, culminam com a conquista da
felicidade. Só se nos focarmos nas nossas qualidades espirituais conseguimos
desenvolver o potencial interior cujo expoente máximo se traduz na essência
virtuosa que, nos leva a experimentar a paz em sintonia com o todo.
Controlando emoções, sem nos
deixarmos dominar por elas, tal como o bambu permaneceremos leves, firmes, e
flexíveis, sentindo na pele a brisa de paz que nos irá embalar.
Friday, February 7, 2014
O vento
Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento
Ruy Belo
Thursday, February 6, 2014
Além do tempo
Nosso amor é impuro
como impura é a luz e
a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.
Mia Couto in idades cidades divindades
Wednesday, February 5, 2014
A condição humana
De certo modo, a imagem, não só, dispensa
quaisquer comentários como nos emudece perante o irrazoável. A sede que, ainda,
subsiste, cintila-lhe, assustadoramente, nos olhos que, não vemos, mas imaginamos de um efeito devastador.
Que o futuro não se limita apenas à resignação, e gestos e movimentos se
manifestem de uma forma mais consciente e menos ameaçadora.
Tuesday, February 4, 2014
Dupla celebração
À prova de pressões e da realidade agreste, olhando para o
seu percurso chega-se à conclusão que na sua vida há sempre qualquer espécie de
desafio, por isso a sua relação com ela é tão tórrida e inspiradora! Se
conseguisse acompanhá-la na correria, nas demais das vezes, obteria tudo aquilo
que pretendo fazer, até agora, sem sucesso.
Monday, February 3, 2014
Um só momento
Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.
Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.
Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.
Um dia em que se possa não saber.
Sophia de Mello Breyner
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.
Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.
Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.
Um dia em que se possa não saber.
Sophia de Mello Breyner
Sunday, February 2, 2014
Saturday, February 1, 2014
Apontamentos
Construído em torno de sequências, o «Capricho» fez
a meio do mês passado 6 anos. O paralelismo com o quotidiano por mim
protagonizado não é ficção. Fragmentos de pequenos textos, histórias, poemas
reunidos, interrogações, e tudo o mais que se me perfila na mente, fazem parte
de um registo que, me proporciona momentos de pausa que, espero que seja, também, do agrado dos que por aqui passam.
Thursday, January 30, 2014
Estar em mim
Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
Wednesday, January 29, 2014
Estarei contigo
Há dias em
que em ti talvez não pense
a morte mata um pouco a memória dos vivos
é todavia claro e fotográfico o teu rosto
caído não na terra mas no fogo
e se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio
Gastão Cruz, in Fogo - Assírio &
Alvim
Tuesday, January 28, 2014
Entre dois mundos
Quando a vontade de conhecer se
torna irresistível, o sonho passa da imaginação à pura realidade. Não há dúvida
que, uma viagem é sempre digna dos mais gloriosos instantes, sobretudo, quando
os diferentes lugares se vão deixando descobrir transformando o novo cenário numa
evidência.
Monday, January 27, 2014
À descoberta
Aproveitando o fim-de-semana antes
deste último Natal, desloco-me a Savannah no estado da Georgia. O tempo está
quente, e a curta travessia do rio leva-me até ao centro com elevado significado
histórico. Diria mesmo, um verdadeiro tesouro arquitectónico, com autênticas
mansões de antigos magnatas de algodão, e aprazíveis praças e parques. A juntar
à hospitalidade da população do sul, o excelente peixe e marisco contribuem
para atrair turistas que, tal como eu, ao partir, sentem vontade de, um dia,
revisitar.
Saturday, January 25, 2014
Friday, January 24, 2014
Findar
Atravessou os céus vazios de nuvens, transpôs fronteiras
aquém e além, e partiu de encontro a uma existência mais feliz.
Tuesday, December 3, 2013
A reviravolta
Quanto mais o país se transformava em algo
mais complicado, maior era a sua necessidade de escapar dali. Momentaneamente liberta,
a reconstrução de um novo cenário, sem dificuldades de percurso, era mais do
que nunca, imperativa. Um olhar mais atento poderia levá-la a adquirir a
dimensão que, na verdade, e em boa medida, contrastasse com tão desinspirado
presente até ao limite da sua idealização.
Saturday, November 30, 2013
Friday, November 29, 2013
Conforme o gosto
Para começar utilizo os
ingredientes mais frescos da época. E, depois de a reduzir a puré, e obter uma
textura macia e cremosa, adiciono-lhe sempre alguma coisa que a torne diferente
de umas vezes para as outras. Frequentemente, acrescento-lhe coentros ou salsa
picada, ou cebolinho como guarnição. Mas, também posso polvilhá-la de pimenta-preta
quando faz mais frio, ou, em alternativa, adiciono-lhe uma colher cheia de
crème fraîche, ou simplesmente a acompanho de croutons ou de um simples fio de
azeite extra virgem. O segredo é servir qualquer sopa, imediatamente, uma vez
retirada do lume, e, sem pressas, apreciar cada colherada de cor intensa e
repleta de sabores. Bon appétit!
Thursday, November 28, 2013
Renascer
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.
Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.
Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria, assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar
— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece
— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.
Herberto Helder in A faca não corta o fogo - assírio
& alvim, 2008
Wednesday, November 27, 2013
O paraíso perdido
Nunca mais tiveram paz. Entre o
quotidiano lúgubre e o que viveram, esta era, agora, a vida deles.
Definitivamente, a realidade não era mais a de outrora. Os sacrifícios tinham
sido demasiados e mal dirigidos, as decisões cegas, os desnivelamentos sociais mais
que evidentes e o rumo ter-se-ia complicado. Estes eram eles, e nenhum era mais
inocente do que o outro. Fingir que não falharam? Só se estivessem a brincar
com eles! Sem se ver o fim, e cansados de esperar por quem os fosse salvar, mais
do que nunca, era necessário contrariar o que estava a acontecer, desviar o olhar
e voltar a sentir os dias de outra maneira. Entre todos havia uma unanimidade de
um desejo maior. O de descobrir novas medidas e outras soluções.
Tuesday, November 26, 2013
A nudez da alma
Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
Sophia de Mello Breyner Andresen in Tempo Dividido, 1954
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
Sophia de Mello Breyner Andresen in Tempo Dividido, 1954
Monday, November 25, 2013
Uma série de fantasmas
O que era vida irreal, é agora realidade,
o que era vergonha, ninharia e ridículo, é vida agora.
O que toma pé são os sonhos,
o que se agita são as paixões desregradas.
Não há limites nem peias.
Vêem-nos como eu te vejo a ti.
Tenho diante de mim este espectáculo,
como se fosse possível aos homens desdobrarem-se
e tomarem corpo, ideias e paixões.
Eles são aquilo que ocultamente desejavam ser,
são o que não se atreviam a ser.
Sob um mundo de verdade há outro mundo de verdade.
É esse mundo invisível e profundo
que passa a ser o inundo visível.
É esse.
Todo o homem é uma série de fantasmas
e passa a vida a arredá-los.
Chegou a vez dos fantasmas.
As nossas ideias e paixões
é que formam as figuras que actuam na vida.
raul brandão in húmus - a outra coisa, fragmento frenesi 2000
Sunday, November 24, 2013
Saturday, November 23, 2013
Friday, November 22, 2013
Um lugar na História
A nostalgia dos anos 60 faz-nos, hoje,
recuar 50 anos, a um fatídico regresso ao passado. Por detrás do mistério da
morte de JFK que, um golpe de tragédia, em directo, acabou por reforçar o mito,
tudo nos recorda o homem sedutor e de grande capacidade política que, nunca
deve ser esquecido.
Thursday, November 21, 2013
Não digas nada
Faz-me
o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor
o que dirá
Tua
boca velada
É
ouvir-te já.
É
ouvir-te melhor
Do
que o dirias.
O
que és não vem à flor
Das
caras e dos dias.
Tu
és melhor - muito melhor!
Do
que tu. Não digas nada. Sê
Alma
do corpo nu
Que
do espelho se vê.
Mário Cesariny (1923-2006)
Wednesday, November 20, 2013
Os lugares revisitados
Certos episódios da sua vida poder-se-iam
definir tanto reais como imaginários. A um canto do jardim, mas não a demasiada
distância, encontrava-se uma pequena casa para pássaros. A excitação do
regresso de alguma ave mais inquieta repetir-se-ia ao longo das diferentes
estações do ano. Espectadora atenta, acaba por desenvolver uma intuição apurada
que lhe deslindasse quaisquer sinais, e a única referência, ressalte-se, face à
expectativa, era continuar a sonhar com a sua própria fuga e libertação como se
as suas vidas coexistissem e originassem alguma coisa de novo.
Tuesday, November 19, 2013
Passagens interditas
cheguei às portas secretas
atravessei as passagens interditas
e
no labirinto que negou os meus passos
vi tesouros que não eram meus
Maria Alexandre Dáskalos
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