Não terá sido por acaso que os
seus dedos percorriam uma paleta de mil cores. Dos tons intermédios era preciso
passar a reflexos mais luminosos que, lhe possibilitassem uma saída, já que o
tempo de viver uma nova alvorada, finalmente, chegara.
Friday, January 2, 2015
Thursday, January 1, 2015
Tudo continua
Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa:
tudo continua.
Na fluida e
incerta essência misteriosa
Da vida, flui
em sombra a água nua.
Curvas do rio
escondem só o movimento.
O mesmo rio
flui onde se vê.
Começar só
começa em pensamento
Fernando Pessoa
Wednesday, December 31, 2014
Tuesday, December 30, 2014
A tomar forma
Em contagem decrescente para o
novo ano, antecipa-se umas horas palpitantes a anteceder uma noite de brilho - ponto
de partida ao que aí vem. Sons amplos e explosões rítmicas distintas
manifestar-se-ão pela noite fora, permitindo-nos esquecer quaisquer derivações
caóticas. Cada um, à sua maneira, transitará entre o impacto imediato e um
futuro incerto que, mais tarde, inevitavelmente havemos de recriar.
Monday, December 29, 2014
No compasso dos sonhos
Guarda tu agora o que eu, subitamente,
perdi
talvez para sempre - a casa e o cheiro dos
livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a
verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono.
Guarda-o
serenamente e sem pressa, como eu nunca
soube.
E protege-o de todos os invernos - dos
caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os
lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde se
esconde
os mais escondidos medos e anseios.
Não deixes nunca que se ouça sozinho no
que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a
abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez
que o queria.
Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à
luz azul
que os dias trazem à casa quando são
tranquilos.
E nada lhe peças de manhã - as manhãs
pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol.
E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu,
subitamente,
por assim não ter feito.
Maria do Rosário Pedreira in a casa e o cheiro os livros - gótica 2002
Sunday, December 28, 2014
Saturday, December 27, 2014
O desenlace
Naquele sábado, o último de Dezembro, não
poderia adivinhar o que aí vinha. Mas, a julgar pelo ano a terminar, a única
coisa com que ainda poderia sonhar seria ousar fazer frente ao invasor para que
as coisas pudessem melhorar significativamente. Prematuramente envelhecida
comungava a tragédia de tantos outros que lutavam para sobreviver. Só um trabalho
de perícia intenso lhes poderia reconstruir a esperança como se nada mais
existisse.
Friday, December 26, 2014
A representação
Poucos dias depois, regressados a casa, uma
vez terminado o estado de esplendor e já distantes da realidade espiritual,
escrupulosamente, uma a uma, retiramos uma verdadeira parafernália de coisas
nenhumas, desarticuladas, que improvisámos mais a pensar no lado estético que
outra coisa qualquer, mais os seus restos e tantas pontas soltas que, finalmente, nos
criam espaço para as verdadeiras reflexões.
Thursday, December 25, 2014
No dia seguinte
Escusado será dizê-lo, que lá no fundo, se
jamais nos questionarmos sobre a importância da retrospectiva nunca
alcançaremos utopias maiores. Finda a época natalícia e prestes a abraçar 2015
a falta de esperança é a confirmação de uma série de suspeitas que, implicitamente,
nos ameaça o futuro.
Wednesday, December 24, 2014
Rasgo de luzes
Este
é o tempo de tradições sistematizadas, habitado por luzes intermitentes, de
efeito efémero, em que é fácil sucumbir-se ao consumismo em contraste com a
proximidade de belos exteriores que, irradiam a claridade das profundezas.
Tuesday, December 23, 2014
Monday, December 22, 2014
Friday, December 19, 2014
As aves morrem
E as aves morrem para
nós, os luminosos cálices
das núvens florescem, a
resina tinge
a estrela, o aroma
distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a
flor na ideia
e o livro no espaço
triste.
[...]
Herberto Helder in O
Amor em Visita - Lisboa: Contraponto, 1958
Thursday, December 18, 2014
Para lá da imensidão
As cotovias mandaram chamar a Palavra
e disseram-lhe: Gostaríamos de voar
contigo!
Por quê?, disse a Palavra, se podeis
livremente voar
no azul do céu, sobre o mar, e também
sobre bosques e searas,
poisar até no cume frio das
altíssimas montanhas.
Pois sim, concordou uma delas, mas
como faremos
para voar, como tu, até ao coração do
homem?
E, a todas, a palavra respondeu: Não,
amigas, não sou eu
que voo até ele! É o seu coração que
sempre me procura
para oferecer-me a capacidade e a
alegria de voar
para lá do azul do céu e para lá da
imensidão do mar,
muito para além dos bosques, das
searas,
e mais alto, ainda mais alto que o
cume frio
das montanhas. Sem nunca chegar ao
fim
de nada, mas ao início
de tudo.
Joaquim Pessoa
Wednesday, December 17, 2014
Tuesday, December 16, 2014
Estou assustada
Dizem os ventos que as marés não
dormem esta noite.
Estou assustada à espera que
regresses. As ondas já
engoliram a praia mais pequena e
entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade,
conta-se que
as praças açoitaram à tarde dezenas
de gaivotas
que perseguiram os pombos e os
morderam.
A lareira crepita lentamente. O pão
ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três
vezes
para o caldo. E em casa a luz
fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que
eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de
ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na
cama e eu
Estou assustada. A lua está apenas
por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo,
que não voltes.
Maria do Rosário Pedreira
Monday, December 15, 2014
Registos
Quando era pequeno, rodava sobre mim próprio com as pontas
dos pés. Rodar-rodar-rodar: as formas a saírem dos contornos, as cores a
misturarem-se demasiado rápidas e, depois, ao parar de repente, o chão como um
barco debaixo da tempestade, a paisagem inteira a oscilar desgovernada, eu a
tentar equilibrar-me e, ao mesmo tempo, criança, a apreciar esse caos. A
seguir, a pouco e pouco, o horizonte abrandava e voltava a fixar-se.
Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.
José Luís Peixoto in O meu lugar - Visão, Agosto 2013
Sunday, December 14, 2014
Saturday, December 13, 2014
Friday, December 12, 2014
Corpo de baile
Com música de Tchaikovsky, "O Lago dos Cisnes"
inspirado numa antiga lenda alemã é um dos mais populares ballets do repertório
clássico. Conta-nos a história de um príncipe que se apaixona por uma princesa
transformada em cisne resgatando a forma humana apenas entre a meia-noite e a
aurora, pela acção perversa de um feiticeiro. Neste espectáculo, o mundo real
cruza-se com um mundo mágico repleto de sentimentos traduzidos em movimentos de
grande flexibilidade e beleza.
Thursday, December 11, 2014
Adiante veríamos
Prestes a abraçar o Inverno que havia de
vir, o presente ilustrava-lhe uma sobreabundância de cores quentes em todo o
seu esplendor. A névoa que pairava não ofuscava as mil tonalidades da estação. Os
castanho-amarelado, os vermelhos,
alaranjados e dourados iam chegando, e a diferencialidade de cada um assegurava-lhe informação adicional que a imagem
imortalizava.
Wednesday, December 10, 2014
A janela baça
As palavras
escritas numa vidraça embaciada pela chuva são sempre tristes. Não importa o
seu verdadeiro significado.
Maria
Gabriela Llansol excerto de Intróito de Os Pregos na Erva, 1962 (2ª
ed.): edições Rolim, - 1987
Tuesday, December 9, 2014
A incerteza
Alice continuava a crescer e crescer, e logo
precisou de se ajoelhar no chão. No minuto seguinte chega a tentar deitar-se
com um cotovelo contra a porta e o outro braço sobre a cabeça! Mas continuava a
crescer e, como último recurso, acaba por colocar um braço fora da janela e um
pé dentro da chaminé, dizendo para si mesma: - “Agora eu não posso fazer mais
nada, o que quer que aconteça. Afinal, o que vai ser de mim?”
Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas
Sunday, December 7, 2014
Saturday, December 6, 2014
De um só golpe
Sobre a poeira que te cobre o
peito deixo o meu cartão de visita o meu
nome profissão morada telefone.
Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.
Não queria matar-te. Choro. Eis-me!
Eis-me!
Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio
& Alvim - 2ª edição – 2001
Friday, December 5, 2014
A sede
Regressas às vezes, quando é noite, ao lugar
onde sempre te demoras.
Levas ao ombro uma ânfora a que sorveste os
sumos dia-a-dia nela derramados: água e vinho,
o leite das amoras e dos figos, o licor almiscarado
das cerejas e das ginjas. E a sede, essa substância
de todas a mais viva.
Queres agora encher novamente o vaso.
A água e o vinho secaram na haste e na fonte,
a ânfora está quebrada e os dedos já não seguram
sequer os cacos que apenas sobrevivem.
Albano Martins
Thursday, December 4, 2014
O bafo no rosto
Quero um erro de
gramática que refaça
bafo no rosto.
Herberto Helder in Poesia Toda, Lisboa - Assírio & Alvim, 1996
Wednesday, December 3, 2014
Em estado puro
Pouco importava o rumo. Diametralmente relevante era esse
lugar de encontro onde se sentia cúmplice da unidade de conjunto. De caminho, num
contínuo girar em busca de harmonia, não menos evidente era o desejo de recuperar
o preciso ângulo, onde o Outono se reacendia e a inspirava.
Tuesday, December 2, 2014
Monday, December 1, 2014
Fio de história
A julgar por tantos momentos
circunstanciais, aos olhos dela ele era um anjo. Num tempo mais lento, quando a
indiferença e o distanciamento fechavam um círculo de amizades voláteis, só o papel
que ele suportava era sustentável. Seria legítima a desilusão? Mais do que um
personagem, perante as vicissitudes desencadeadas no conflito dos dias, apenas o anjo fulgia!
Sunday, November 30, 2014
Na ponta dos pés
Muito próximos e entrelaçados,
faziam questão de utilizar a pista de dança quase na totalidade. Sem dúvida o
seu terreno. Cada movimento era executado com vitalidade por forma a
surpreender. De olhar fixo, e postura ligeiramente inclinada o talento de ambos
tornara-se evidente desde logo conquistando notoriedade. Com as cabeças às
voltas executavam movimentos, uns a seguir aos outros, como se corressem mundo,
numa verdadeira luta contra o tempo, sem nunca retroceder.
Saturday, November 29, 2014
Em transformação
A um primeiro
olhar os tons e as cores eram apenas uma extensão do exterior. Um prolongamento
natural em face à mudança de estação. Em certo sentido as influências da mutabilidade
da natureza eram reconhecidas
e a beleza daqueles vestidos brilhava e renovava-se sem que se esquecesse o
Verão.
Friday, November 28, 2014
Inquietudes
Tendo
em conta a incerteza que a esperava o seu estado de alma era de apreensão. Em
situação idêntica, encontrava-se uma série de outros pacientes que, resignadamente
aguardavam pela sua vez. Cada um deles de idade bastante avançada. Observando-os,
sentia-se uma verdadeiro jovem, embora o cenário lhe causasse uma arrepiante
sensação de finitude. Em tempos, tinha lido algures que envelhecer podia ser uma
surpresa desagradável, e no momento, além da natural ansiedade pré-operatória esse
era um propósito com o qual agora se confrontava.
Thursday, November 27, 2014
Prática cultural
Surgiu nas planícies, quando das
longas caminhadas entre casa e a ceifa. Hoje, a Unesco reconheceu o cante
alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Sem recurso a
instrumentos, apenas a voz e poesia preservam a memória dum Alentejo antigo e
da sua identidade.
Wednesday, November 26, 2014
Voemos
Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.
Fiódor Dostoiévski
Tuesday, November 25, 2014
Inventar alegria
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente permanecer.
Eugénio de Andrade in Até Amanhã, 1956
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