Alice encontrava-se no jardim, quando vê passar um coelho branco com um
relógio de bolso. Fascinada, segue-o e entra num buraco duma árvore. Cai
lentamente pela toca abaixo que, se alonga como um túnel desembocando num
corredor cheio de portas. Uma chave sobre a mesa abre uma porta minúscula com
acesso a um jardim. Alice quer ir até lá, mas a porta é muito pequena. Pouco
depois, encontra uma garrafa cheia de um líquido com um rótulo que lhe indica
que o deve beber, e um bolo com uma etiqueta onde se lê para o comer. Alice
prova os dois, e descobre que um deles faz com que diminua de tamanho, e que o
outro a faz crescer. Ou ela fica grande demais para passar pela porta, ou demasiado
pequena para alcançar a chave.
Thursday, November 15, 2012
Wednesday, November 14, 2012
Tuesday, November 13, 2012
Uma questão de incerteza
de repente
todos os caminhos parecem de regresso
a vida por si
mesma não se pode escutar demasiado
a vida é uma
questão de tempo
um sopro ainda
mais frágil
a rapariga
desce à pequena praça,
compra uma flor
para ter na mão
uma forma intemporal
de conservar
a perfeição ou
a incerteza
José Tolentino Mendonça
Monday, November 12, 2012
A visita
Com vigilância máxima, a sua passagem durou apenas 6
horas, criando empatia nuns, e marcando apreensão e repúdio noutros.
Reconhecendo o esforço do país, a Chanceler Angela Merkel elogiou o nosso
desempenho, embora reconhecesse que o futuro fosse permanecer difícil. Preocupada
com a sua própria imagem, e ciente do peso económico que representa na cena
internacional, a política de austeridade é para continuar.
Em tempos de tragédia é sempre mais fácil ter alguém a quem culpar.
Em tempos de tragédia é sempre mais fácil ter alguém a quem culpar.
Sunday, November 11, 2012
Saturday, November 10, 2012
A paz permanente
E, porque a falta de paz nos causa
inquietação, procurar encontrar respostas mais profundas, e posturas mentais que
nos salvaguardem, sem sucumbir à negatividade, foi o que nos propôs a Brahma
Kumaris, em mais uma palestra, na Biblioteca Lídia Jorge. Aceitar as situações
quotidianas sem oferecer resistência interna, não só acautela a nossa própria
protecção, como nos ajuda a seguir na direcção certa através da consciência e
conhecimento. Cultivando o silêncio, a introversão, e a meditação, alimentamos
um padrão de sentimentos elevados que, só nos trazem benefícios. Só assim
experimentamos a harmonia e bem-estar em verdadeira plenitude.
Friday, November 9, 2012
Vagueando
Esta época do ano convida-nos a caminhar por jardins e
parques cobertos de folhas, quando a descoberta ganha uma força maior. Despidas
de folhagens, as árvores tornam-se personagens centrais dum cenário
absolutamente fulgurante, e tudo parece sussurrado pela suave brisa, ao sabor
do sonho do Outono.
Thursday, November 8, 2012
Antes do sol
...(Vem de antes do sol
A luz que em tua pupila me desenha.
Aceito amar-me assim
Refletida no olhar com que me vês.)
Adélia Prado in Balé - Divinópolis 1998
Wednesday, November 7, 2012
Longe em qualquer parte
Mais uma vez a perdi. Em cada minuto
a perco. Longe revolteiam suas palavras
e seus dedos depositam-se
em qualquer parte.
Se a busco? Esfaimadamente a busco.
Tacteando com a memória a forma com que era
nas noites de amor.
Reconstruindo sua espécie de enorme sorriso.
Busco-a sim, inventando subtilmente
o impudor de cada entrega,
a dádiva sobrenatural da sua carne aberta.
Mais uma vez foi destruída pela vida feroz,
a minha boca não suporta sem palavras
essa coisa mortal.
Sangrentas são as palavras e deixam vestígios
através do tempo.
Longe, naquilo que o acaso teceu,
elaboram-se os gestos. No casulo remoto
forma-se a distância
entre a sua fonte e a minha fonte.
- Com que ser se entende agora seu ser oculto?
E as voltas obscuras e difíceis
dos instintos.
Ela semeia-se. E alguma coisa misteriosamente
a fecunda.
- Ela é colhida por um vento e eu estou bêbedo
de coisas inextricáveis.
Sei que ela acontece. Um círculo de seda
forma-se prementemente,
e ela acontece.
A minha fonte não me dá ironia,
nem um fogo,
uma estrela violenta.
- Fico a saber que ela longe cresce
como outra folha de erva.
Nada em mim suporta. A memória
desimpede-lhe os pés, e beija-os.
Minhas pálpebras exaltam-na.
E a fonte, essa, recusa-a arduamente.
Recebo humildemente esta desordem
da carne, das palavras,
dos dedos bruscos do tempo.
- Recebo tudo, e canto como quem deixa um sinal
maravilhoso.
Herberto Helder in A Colher na Boca - 1961
a perco. Longe revolteiam suas palavras
e seus dedos depositam-se
em qualquer parte.
Se a busco? Esfaimadamente a busco.
Tacteando com a memória a forma com que era
nas noites de amor.
Reconstruindo sua espécie de enorme sorriso.
Busco-a sim, inventando subtilmente
o impudor de cada entrega,
a dádiva sobrenatural da sua carne aberta.
Mais uma vez foi destruída pela vida feroz,
a minha boca não suporta sem palavras
essa coisa mortal.
Sangrentas são as palavras e deixam vestígios
através do tempo.
Longe, naquilo que o acaso teceu,
elaboram-se os gestos. No casulo remoto
forma-se a distância
entre a sua fonte e a minha fonte.
- Com que ser se entende agora seu ser oculto?
E as voltas obscuras e difíceis
dos instintos.
Ela semeia-se. E alguma coisa misteriosamente
a fecunda.
- Ela é colhida por um vento e eu estou bêbedo
de coisas inextricáveis.
Sei que ela acontece. Um círculo de seda
forma-se prementemente,
e ela acontece.
A minha fonte não me dá ironia,
nem um fogo,
uma estrela violenta.
- Fico a saber que ela longe cresce
como outra folha de erva.
Nada em mim suporta. A memória
desimpede-lhe os pés, e beija-os.
Minhas pálpebras exaltam-na.
E a fonte, essa, recusa-a arduamente.
Recebo humildemente esta desordem
da carne, das palavras,
dos dedos bruscos do tempo.
- Recebo tudo, e canto como quem deixa um sinal
maravilhoso.
Herberto Helder in A Colher na Boca - 1961
Tuesday, November 6, 2012
Máquinas de campanha
O mundo está de olhos postos na América com os
spots publicitários mais caros de sempre. Com um sistema eleitoral sofisticado,
um guião, e uma coreografia ao milímetro, todos os esforços estão concentrados
na melhor forma de chegar aos eleitores, porta a porta, ou de outro modo
qualquer. O dinheiro corre em abundância, e as questões em causa prendem-se
principalmente com a economia, o resgate da indústria automóvel, o efeito do furacão
Sandy, os swing states, ou até a força do ex-presidente Bill Clinton. O melhor
estratega vencerá.
Monday, November 5, 2012
Encontro afectivo
Referência concreta quando crianças, um ursinho
extraído da irrealidade dos dias, torna-se indispensável em qualquer infância. Em
torno dele gira toda uma capacidade de invenção que, serve de delicioso
contraponto às angústias da idade.
Sunday, November 4, 2012
Saturday, November 3, 2012
Friday, November 2, 2012
A folhagem e o espaço
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
António Ramos Rosa in corpo de argila de volante verde, 1986
Thursday, November 1, 2012
Wednesday, October 31, 2012
Tuesday, October 30, 2012
Folhagens
Fito-a, repetidamente e com lentidão, em função do tempo. O efeito da luz vem acentuar o contraste
das cores das folhas que, me cobrem o jardim. Por detrás da janela, recolho uma
imagem reconfortante ao som do vento que, num murmúrio assobia.
Monday, October 29, 2012
Zona de lazer
A sincronia de movimentos causa-me bem-estar, enquanto a
leveza do embalo, me convida à reflexão. À luz do tempo, identifico evocações e
memórias, e estados de espírito ainda por decifrar. A tragédia da vida, o mal
calculado, e o que nos baralhou as contas, silencia-me o espaço abstracto.
Somente o rumor da brisa me ajuda a entender o quão se tem sofrido em conjunto.
E, para o ano, o declínio prevê-se pior. Perturbante é a falta de opções, o
negar de evidências e as expectativas logradas. No encandear de acontecimentos
nada encarreira e tudo se esfuma.
Sunday, October 28, 2012
Quando me lembro
se envelhecesses a meu lado, cedo perceberias
que nunca fui digno do teu rosto ou da tua ternura.
é isto que penso quando me lembro que partiste.
José Luís Peixoto in A Casa, a Escuridão
Saturday, October 27, 2012
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