A partir do momento que as temperaturas começavam
a subir, lá os víamos pendurados por todo o lado. Simplesmente reapareciam, nas
lojas, alinhados por cores e, minuciosamente, ordenados por tamanhos. A maior
parte de quem passava não conseguia desviar o olhar, e embora o desejo nem
sempre se cumprisse, depois de tanto despe e veste, na altura decisiva, lá se
vendia mais um.
Saturday, May 17, 2014
Friday, May 16, 2014
O mistério de solidão
Compreendi hoje, um pouco melhor, o mistério de solidão. A
comunidade tem de estar dispersa, viver na tensão de encontrar-se sem duradouro
encontro, cultivar o poder absoluto de estar só, que só ele é inofensivo; é um
corpo vivo sem jugo; a comunidade é a diáspora.
Por estes dias sentia-me perturbada, dissolvida na água. Sempre
tensa, à procura, em movimento dentro de uma ordem infinita e pré-estabelecida.
O trabalho a realizar quotidianamente é mais forte do que conhecer e escrever;
estou sempre à espera de poder parar, mas a noite é temporária e ponte para um
dia igual. [...]
Maria Gabriela Llansol, Numerosas Linhas - Livro de Horas
III - Assírio & Alvim, 2013
Thursday, May 15, 2014
A desorientação
Alice sentia-se tão desesperada
que estava pronta para pedir ajuda a qualquer um: então, quando o Coelho chegou
perto dela, perguntou-lhe em voz baixa: - «Por favor». O Coelho parou
violentamente, deixando cair as luvas brancas e o leque que levava, e saiu
disparado. Alice apanhou o leque e as luvas, e, começou a abanar-se enquanto
falava:
- Como tudo está hoje tão estranho quando ontem as coisas
pareciam tão normais! O que será que mudou durante a noite? Deixa-me ver: eu
era a mesma quando acordei de manhã? Tenho a impressão de me ter sentido um
pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a questão é "Quem sou
eu?"
Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas
Wednesday, May 14, 2014
O dia alto
alto dia que me é dedicado,
mais altas são as frutas se me atrevo a
olhá-lo,
no tumulto da alfazema onde aos poucos
enquanto morro,
do açafrão enquanto morro aos poucos,
e o oxigénio explode
herberto helder in servidões - assírio & alvim - 2013
Tuesday, May 13, 2014
A certa altura
Ágil e leve,
mergulha, onde o silêncio é total. Lá em baixo, o mundo era outro, e o seu
olhar vagueava pelo insólito do lugar. Longe do tempo tudo parecia acabar bem.
Monday, May 12, 2014
O ciclo de acções
Entender a Lei do Karma é dar espaço entre o pensamento e a acção para que o intelecto tenha tempo de trazer à tona a consciência plena sobre o que fazer. Quando entendemos que nossas reacções criam reacções posteriores, e que a paz é nossa natureza e amor a nossa qualidade original, podemos ser verdadeiros connosco mesmos e responder com tolerância, paciência e força quando as situações negativas surgem.
Brahma Kumaris
Sunday, May 11, 2014
Friday, May 9, 2014
O vento
O vento que leva o que amamos é o mesmo vento que traz coisas que aprendemos a amar.
autor desconhecido
Thursday, May 8, 2014
Uma torrente de palavras
Um rio de
escondidas luzes
atravessa a
invenção da voz:
avança
lentamente
mas de
repente
irrompe
fulminante
saindo-nos
da boca
No espantoso
momento
do agora da
fala
é uma
torrente enorme
um mar que
se abre
na nossa
garganta
Nesse rio
as palavras
sobrevoam
as abruptas
margens do sentido
Ana Hatherly in O Pavão
Negro - Assírio
& Alvim
Wednesday, May 7, 2014
É Primavera!
O muguet é uma flor
escondida. É uma flor pequenina e branca e tem um perfume mais maravilhoso e
mais belo do que o perfume dos nardos.
Durante o Inverno ela dorme
na terra debaixo das folhas secas e desfeitas das árvores. Dorme como se
tivesse morrido. Mas na Primavera as suas longas folhas verdes furam a terra e
crescem durante alguns dias até terem um palmo de altura. Então muito devagar
as folhas vão-se abrindo e mostram à luz maravilhada as campânulas aéreas,
brancas e bailarinas da flor do muguet. E o vento da tarde toma em si o perfume
do muguet, leva-o consigo, e espalha-o no jardim todo.
Então tudo no jardim
estremece e as grandes tílias e os velhos carvalhos e as flores recém-nascidas
e as relvas e as borboletas dizem:
- É Primavera! É Primavera!
Sophia de Mello Breyner Andresen
in O rapaz de Bronze
Tuesday, May 6, 2014
O bilhete
Saio da cama pela fenda do lençol e fecho-a
sobre ti. Toco o chão ao de leve, como uma ave repousa na pele das ondas. Visto-me
às escuras - tão mais discreta a blusa do avesso, a saia tão distraída nas
costuras. Vou para a cozinha de sapatos na mão e escrevo-te um bilhete:
deixei-te um beijo sobre a tua almofada antes de sair.
Maria do Rosário Pedreira
Monday, May 5, 2014
A espera
É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas
de fome, bico
calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de
lado em qualquer
assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico
enquanto os olhos se
fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento
de rotação em
volta de mim em volta de mim de ti.
Luiza Neto Jorge
Sunday, May 4, 2014
As estrelas de oiro
«Certa manhã acordei sozinho em
casa. Acordei a chorar.- Ó mãe, mãe... – Mas a mãe não vinha. Não havia mãe.
Havia só a porta fechada. – Ó mãe, mãe... – E a casa deserta. Pelas frinchas
largas da porta via a manhã lá fora. Era uma manhã de sol quente, talvez de
Julho, talvez de Agosto. Devia haver medas de palha na eira em frente. Mas os
meus olhos mal viam, estavam rasos de água e de angústia. – Ó mãe, mãe... – E
de repente, na manhã clara, começaram a cair estrelas pequeninas, estrelas
verdes, vermelhas, estrelas de oiro. As lágrimas caíam-me pela cara.- Ó mãe,
mãe... – O nariz esmagado contra a porta, os olhos muito abertos, vendo através
da frinchas as estrelas caindo, umas atrás das outras. – Ó mãe, mãe....»
Eugénio de Andrade in Os Amantes sem Dinheiro (1950)
Saturday, May 3, 2014
Friday, May 2, 2014
Silêncios
"...os silêncios são parte da conversa. O silêncio é
uma outra maneira da palavra viver e há coisas que não podem ser ditas de outra
maneira”.
Mia Couto in Jerusálem
Thursday, May 1, 2014
Emoções fortes
Quando chega, como por milagre, o
mundo entra, simplesmente, em festa. Por outro lado, num crescendo processo de
metamorfose infinita, traz-nos cores vibrantes e intensos aromas, a partir de
uma realidade quase ficcional de tão perfeita. A sua pose é expressiva à luz
intemporal e na sua ausência remeto-me para imaginários que me sustêm até à sua
próxima versão.
Wednesday, April 30, 2014
O regresso
Dorothy
e os seus amigos continuaram a caminhar, até que de repente foram ao encontro da
boa fada do sul.
- «Encontrámos o Mágico de Oz que nos disse que me podia
ajudar a voltar para casa na pradaria do Kansas. Como faço agora?» Perguntou-lhe
Dorothy.
- «Ora...linda menina»! Respondeu-lhe a fada. «Os sapatinhos
que a boa fada do Norte te deu são mágicos. Bate três vezes no chão e faz o teu
pedido!» Respondeu-lhe ela.
Assim, começou um vento muito forte...que levou Dorothy de volta
a casa.
L. Frank Baun in O Maravilhoso Mágico de Oz
Tuesday, April 29, 2014
O pequeno grande papel
A dança parecia ser a sua única linguagem.
Entre um passo e outro, oscilava, leve e ágil, embora carregada de detalhes. O
improviso, pontuado pelo movimento dos membros, a visível articulação dos
braços, e a naturalidade dos gestos, revelavam o seu ímpeto mais criativo.
Entre o delírio e a fantasia, sem sequer pestanejar, poética e, em simultâneo,
tão intensa quanto impetuosa, demonstrava-nos, num tempo de passagem, o seu
lado mais genial.
Monday, April 28, 2014
Como um sufôco
manuais,
irredimíveis,
mais que sangue agudo
da mão à lingua,
que fruta acerba
desmanchada
entredentes,
oh trabalha-me,
intuito
lírico,
por fora esses dias
manuais,
por dentro troca tudo
meu tão certo secretário assim
como um sufôco,
ou isso
Herberto Helder in «Ofício Cantante» 23.11.1930
Sunday, April 27, 2014
É menina!
A proximidade da chegada da bebé Yara foi motivo para homenagear
a Cláudia que, este domingo, organizou em sua casa, na praia de São Rafael, uma
festa para a família e amigos. Muitos balões cor-de-rosa decoraram o espaço, e um
delicioso lanche foi saboreado no jardim, numa tarde cheia de sol e boa disposição.
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